Dias de sufoco

Ignácio de Loyola Brandão relata o
período em que conviveu com a morte

Okky de Souza

Foto: Claudio Rossi

Durante alguns meses no ano passado, o escritor Ignácio de Loyola Brandão viveu um pesadelo. Certo dia, andando pela casa de manhã, viu o chão se inclinar à sua frente. Apostou em labirintite, fácil de curar. Era aneurisma cerebral, a bolha minúscula que se forma nas artérias do cérebro e que pode explodir a qualquer momento e transformar o portador num vegetal. Loyola passou um mês convivendo com a morte iminente. Ela podia pegá-lo ao cruzar uma esquina ou "no banheiro com as calças arriadas". Depois, passou por uma operação delicada, de nove horas, com risco de vida -- ou de explosão da bolha. Um leve tremor na mão do cirurgião e Loyola poderia ficar cego, ou mudo, ou paralítico, ou tudo isso junto. "E se na hora H vier à imaginação do cirurgião um belo par de pernas femininas?", preocupou-se Loyola ao baixar no hospital. A operação foi bem-sucedida e o aneurisma, isolado. Mas as semanas seguintes trariam uma febre renitente e aparentemente sem motivo. "Só pode ser infecção hospitalar, no Brasil todo mundo pega isso", assustava-se o escritor. Passado o martírio, Loyola quis vingar-se e contá-lo em livro, Veia Bailarina (Global; 220 páginas; 24,70 reais).

Nas semanas anteriores e posteriores à cirurgia, Loyola não achava nenhuma graça no que estava vivendo. Descreve períodos tensos, em que se sentia um condenado sem saber quando chegaria a sua hora. "A ansiedade oprime cada osso, a beleza de cada momento parece intolerável", escreve. Nenhum desses períodos dura mais que alguns parágrafos. Logo o escritor retoma o tom predominante do livro, que é o da dúvida bem-humorada. Faz blague com os piores instantes que passou e se indaga como as pessoas reagiriam à sua morte. Avalia ser imprescindível preparar um testamento antes de entrar na faca, mas constata que só tem para deixar à família uma dívida de 150 prestações do apartamento, já que a poupança vai toda para pagar os médicos. Numa passagem, imagina-se morrendo enquanto escreve ao computador -- a mão quase defunta esbarra no teclado macio e imprime ao acaso um H, dando um trabalhão aos biógrafos e ensaístas acadêmicos para deduzir que palavra ele pretendia escrever no texto inacabado.

Bodoque -- Mais que o relato de uma via-crúcis, Veia Bailarina é uma grande crônica. Além de relatar a angústia provocada pela doença e os procedimentos médicos, tudo salpicado pela autogozação, Loyola recheia o livro com descrições de seu ofício de escritor. Quem conhece sua obra sabe que essas lembranças deságuam quase sempre em Araraquara, cidade paulista onde nasceu e que empresta cenários e personagens a seus romances e crônicas. Lá estão os meninos atacando passarinhos com bodoque e espiando as mulheres pelo buraco da fechadura, a igreja obrigatória aos domingos e as primas que inspiravam momentos solitários no banheiro. Ele relata esse passado com distanciamento suficiente para transformá-lo numa comédia da vida privada do mundo caipira. Não se entende muito bem o que essas reminiscências estão fazendo nas páginas de Veia Bailarina. Elas surgem do nada em meio aos capítulos. Mas são bem-vindas para quebrar o cenário médico-hospitalar em que se passa a maior parte do livro.

Trecho

"Se eu soubesse escrever uma poesia, uma sequer, estaria feliz. E a bolha se refestela em minha cabeça. Por que me escolheu? Por causa dela vou sofrer, ter o osso da cabeça serrado, camadas de cérebro afastadas, vou passar dias ou semanas num hospital, tubos no nariz, na garganta, cateter na jugular, sondas na bexiga. Vivo dias de risco e isto me torna diferente. Por momentos, quase me alegro. Deixei de ser normal, homem comum. Ando pelas ruas e os que cruzam comigo nada sabem. Carrego um segredo. Se cair, muita gen-te vai correr, olhar curiosa, achar que estou bêbado, sofri ataque, levei tiro perdido. A imaginação dramático-masoquista passeia livre."

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