Um corpo que cai

O engenheiro evangélico que voou para a morte
era caladão, metódico e louco por aviões

Neuza Sanches e Valéria França

O encontro entre a plantadora de nabo Maria Aparecida da Costa, 44 anos, e o engenheiro analista de sistemas Fernando Caldeira de Moura, 38 anos, faz parte das cenas rarefeitas tanto no mundo das estatísticas como no planeta da pintura e da poesia. Ela é analfabeta. Ele, mestre em sistemas pelo ultra-seletivo Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Ela é católica. Ele, evangélico. Ela nunca pôs os pés num avião e ele ajudava a construí-los. Ela mora numa casinha dentro de uma fazenda. Ele, num confortável condomínio fechado. Habitantes de mundos distintos, os dois se encontraram quando Fernando, impecavelmente trajado com um terno cinza-claro, colete de lã cinza e meias da mesma cor, camisa bege, gravata em tom azul-escuro e sapatos pretos, riscou o céu nublado da manhã de quarta-feira passada, despencando de 2.400 metros de altitude, a uma velocidade de 600 quilômetros horários, e se estatelou no chão -- a apenas 30 metros de dona Maria. Como na tela Ícaro, de Brueghel, ou no poema Musée des Beaux-Arts, do inglês W.H. Auden, dona Maria viu algo inimaginável, um homem caindo do céu. Mas logo ela imaginou algo. "É um disco voador!", gritou a lavradora para o companheiro de trabalho, Mário Santos, 49 anos.

Única vítima da explosão que abriu um buraco no Fokker 100 da TAM que fazia o vôo 283, entre Vitória e São Paulo, o engenheiro teve um fim com lances de tragédia cinematográfica. Expelido violentamente do avião, o corpo de Fernando, 75 quilos distribuídos em 1,70 metro de altura, se esborrachou depois de 18,6 segundos de queda livre. O impacto com o solo foi pelo menos duas vezes mais forte que o de Ayrton Senna no muro da curva Tamburello. Ou o mesmo que o de um carro pequeno -- como um Palio -- despencando de um prédio de quarenta andares. "Mesmo o mais horroroso martírio precisa seguir seu curso", escreve Auden no poema. E por isso uma minicratera, de 1 metro de diâmetro e 20 centímetros de profundidade, ficou cavada na terra avermelhada da fazenda Mandioca, em Tijuco Preto, município de Suzano, a cerca de 40 quilômetros de São Paulo.

Apesar de espetacular, e de ter sido precedida pelo estrondo da explosão, a morte de Fernando passou despercebida tanto da tripulação como dos passageiros do vôo 283. A TAM só soube da queda do engenheiro uma hora depois do pouso, informada pela polícia de Suzano, que encontrou documentos e passagem aérea no bolso do seu paletó. Fernando teve escoriações e fraturas por todo o corpo. Uma das questões mais angustiantes dessa morte é imaginar que, em seu vôo fatal, Fernando tenha permanecido consciente até o choque com a terra. Talvez nunca se esclareça esse ponto. O máximo que o laudo do IML de Suzano arrisca é que o engenheiro sofreu "politraumatismo". O crânio estava afundado na frente, e todos os ossos da coluna vertebral, quadris, fêmures, omoplatas e costelas estavam esmigalhados. "Foi uma morte trágica, absurda, contraditória demais com o tipo de vida que ele levava", diz, com a voz embargada, Kramer Caldeira de Moura, irmão do engenheiro. A surpresa pelas circunstâncias do acidente que vitimou o marido foi tanta que a mulher, a professora primária Selma, 37 anos, custou a acreditar. "Não é possível, o avião explodiu e só ele morreu?", indagava ela.

"Caso eu não volte" -- No triste dia em que subiu nas asas da fama, Fernando acordou pouco antes das 7 horas da manhã. Dono de uma empresa de prestação de serviços de informática, a Amix, a única provedora de acesso à Internet na cidade de São José dos Campos, ele tinha uma reunião de negócios marcada para as 11 horas num escritório da indústria de cosméticos L'Oréal, no Rio de Janeiro, para a qual prestava serviços de informática. Deveria, por isso, pegar o avião das 8h05, o único vôo matutino direto. Mas ele preferiu não correr. Contava pegar o avião para São Paulo e então fazer a conexão para o Rio. Tomou café da manhã com a mulher e combinou os últimos detalhes da viagem que a família faria no dia seguinte para o Ceará, onde passariam férias. Depois, foi ao quarto das filhas, Melina, de 8 anos de idade, e Amanda, de 6, que ainda dormiam, para beijá-las. Pegou uma pequena valise, contendo um laptop e livros de informática, e seguiu para o aeroporto. Lá chegando, acertou as contas pendentes na lanchonete de onde era cliente assíduo. "Isso é para o caso de eu não voltar", disse, brincando, ao balconista. Apenas uma coincidência, mas que ganha ares premonitórios.

Fernando viajava de avião no mínimo duas vezes por semana, para visitar clientes. Gostava de sua rotina de vôos. "Ele era louco por aviões, sabia detalhes técnicos sobre eles e vivia dizendo que voar é bem mais seguro que pegar uma estrada no Brasil", conta a sua cunhada, Márcia de Moura. "Ele morria de medo da Via Dutra.&qeot; Segundo o passageiro Adilson Barreto, ao entrar no Fokker Fernando percebeu que seu assento, o 7-C, que fica na frente do avião, estava ocupado por uma senhora. Cortês, cedeu-o e foi para um lugar nos fundos. Provavelmente o 18-E, que, junto ao 18-C e 18-D, foi ejetado na explosão. Ceder o assento e atravessar o avião tão discretamente, a ponto de sua ausência não ser notada, são atitudes típicas de Fernando. "Ele era ponderado, elegante e regrado nas mínimas coisas", diz Márcia. A atração de Fernando por aviões vinha de longe. Numa redação escolar feita aos 10 anos, intitulada "O que quero do futuro", escreveu que gostaria de ser piloto.

Chegou perto. Aos 18 anos, concluiu um curso técnico em eletrônica e, por causa das boas notas, conseguiu estágio no Centro Técnico Aeroespacial, de São José dos Campos. Enquanto trabalhava, cursava engenharia. Assim que se formou, foi chamado pela Embraer. De 1982 a 1991, pôde dizer aos amigos que conseguia unir suas duas grandes manias: aviões e computadores. Participou, por exemplo, do projeto do caça AMX, construído por um consórcio internacional. Durante cinco meses, desenvolveu na Itália um programa de simulação do trem de pouso do avião. Saiu da Embraer decepcionado com o futuro da empresa. Aderiu a um programa de demissões voluntárias e, com o dinheiro, abriu uma empresa com dois sócios. "Fernando trabalhava no mínimo catorze horas por dia", diz José Abraão, um dos sócios. A demissão foi um negócio da China. No ano passado, a Amix faturou 2 milhões de reais. Numa divisão de lucros, Fernando levou 160.000 reais. Com o sucesso da empresa, a família trocou um modesto apartamento no centro da cidade pela casa de alto padrão no condomínio Esplanada do Sol, um dos mais badalados da região.

Na formatura em engenharia e na Amix: mania por computadores
Reprodução Egberto Nogueira    

Detonadores -- "Fernando era o espelho de sua mãe, era forte e determinado", diz o primo e deputado estadual Paulo Julião. Dona Zaida, 70 anos, é o braço forte da família. Como o marido sofre de depressão desde que os dois se casaram, há 44 anos, é ela quem comanda os negócios. Na pedreira Krafer -- fusão dos nomes dos filhos, Kramer e Fernando -- dona Zaida chefia os nove empregados, cuida da compra de explosivos para detonar a rocha granítica e da venda da brita. Foi o conhecimento profundo de bombas e detonadores por parte da família que levou a polícia a imaginar que Fernando talvez estivesse com algum tipo de explosivo. "Impossível", rebate Kramer. "Meu irmão não tinha contato algum com esse tipo de material da pedreira, e conhecia aviões bem demais para saber dos riscos de voar com materiais inflamáveis." Funcionários da Krafer também informaram que Fernando não aparecia na pedreira há pelo menos cinco anos. No funeral do engenheiro, a mãe desmoronou. Passou a noite debruçada sobre o caixão lacrado do filho caçula. No dia seguinte, trancou-se num quarto, abraçada à foto de formatura do "gênio da família", como era conhecido em casa.

Em sua rotina regrada, Fernando tinha dois compromissos sagrados. Um era levar as filhas a um clube, o que fazia todo sábado de manhã. O outro era telefonar para a mãe todos os dias. Boa parte do seu tempo livre era dedicado à Igreja Cristã Evangélica de São José dos Campos. O engenheiro converteu-se com a mulher há quinze anos, depois de pesquisar várias outras denominações. "Ele vivia tentando nos arrebanhar", lembra a cunhada Márcia. "Sempre que tinha festa na casa dele, éramos obrigados a levar bebida, pois o Fernando jamais comprava uma garrafa de cerveja. Também não fumava. Eu dizia que ele era um pastorzão computadorizado", diz um amigo. Fernando era diácono da igreja, uma espécie de assistente do pastor nos projetos beneficentes da comunidade, e ainda dava aulas para adolescentes sobre a Bíblia. Mas, mesmo no mundo evangélico, seu habitat eram os computadores. Informatizou a igreja e montou uma página na Internet, onde jogava as últimas notícias do rebanho. Nos encontros da igreja, levava um computador portátil para registrar tudo o que era discutido.

Pelo relato da família, o engenheiro sempre foi metódico e determinado. Obeso na adolescência, quando se decidiu a emagrecer entrou num regime rígido e tornou-se adepto de exercícios regulares. Um de seus hobbies era a corrida. Depois de convertido, tornou-se ainda mais comedido. Caladão, era do tipo que se recusava a falar da vida privada, raramente dava o telefone de sua casa mesmo para pessoas amigas, e chegou até a pedir à companhia telefônica que retirasse o número de seu aparelho do catálogo. O homem que voou no céu paulista na quarta-feira jamais andava sem cinto de segurança, mesmo antes da lei tornar o uso obrigatório. "Imagine que alguém com um perfil assim acaba caindo de um avião", diz José Abraão.

Com reportagem de Angélica Santa Cruz

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