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16 de julho de 2008
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A tempestade Maiakovski

A vida intensa e os versos extraordinários
do maior poeta russo do século XX


Felipe Fortuna, de Moscou

Montagem sobre foto de Roger Viollet/AFP
O poeta Maiakovski e, ao fundo, reprodução da capa desenhada por seu amigo, o artista plástico Alexander Rodchenko, para o livro Maiakovski Sorri, Maiakovski Ri, Maiakovski Zomba

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Trecho do livro

O que pensar de uma tempestade? Vladimir Maiakovski (1893-1930), o maior poeta russo da era soviética, se expôs, como uma força da natureza, a todo tipo de contradição: buscou destruir o passado literário, mas ao final defendeu a tradição dos grandes poetas de seu país, como Alexander Pushkin e Andrei Biéli. Apresentou-se como o escritor do futuro – do apogeu da máquina, da eletricidade e do urbanismo –, e se viu emaranhado na burocracia e nos equívocos que sucederam na União Soviética, após a Revolução de 1917. Como a tempestade, o poeta foi excessivo e intenso na vida e na obra, mas decidiu interrompê-las em pouco tempo: suicidou-se com um tiro aos 37 anos incompletos. Como deve ser no caso de um grande poeta, a biografia Maiakovski: o Poeta da Revolução (tradução de Zoia Prestes; Record; 559 páginas; 68 reais) trata tanto da arte longa quanto da vida breve, ambas atravessadas não apenas pela Revolução Russa, mas também por uma guerra mundial e pelo dogmatismo sanguinário de Joseph Stalin. Embora sempre simpática ao autor de A Plenos Pulmões, a biografia produzida por Aleksandr Mikhailov (1922-1994), crítico especializado em poesia russa do século XX, não deixa de apontar o dilema torturante de que Maiakovski jamais pôde escapar: poesia ou política?

Tinha razão o escritor Kornei Tchukovski: "É muito difícil ser Maiakovski". Forças contraditórias agiram sobre o poeta na arena política e cultural soviética. Seu otimismo quanto ao futuro da URSS e a vitalidade com que expunha a utopia de um "estado-comuna" – sem burocratas e sem elite – acabaram produzindo poemas panfletários, inferiores. A maior admiração política do poeta era o revolucionário Vladimir Lenin, morto em 1924. A biografia mostra de que modo o poeta enalteceu o líder político: "apesar de mostrá-lo humano, apresenta-o livre de todas as fraquezas, numa auréola de santidade". Havendo sempre manifestado interesse em encontrá-lo para conversas e leituras de poemas, escreveu a ode Vladimir Ilich Lenin, sob o impacto da morte do líder, na qual lamentava: "Temo / que o mausoléu / e as funções protocolares (...) / possam esconder / a simplicidade de Lenin". Mas, em que pese a oficialidade desses poemas próximos de peças de propaganda partidária, além de textos de "encomenda social", Mikhailov observa o "dualismo na consciência" do escritor – dualismo que desencadeou sua tragédia. Um sintoma dele é a peça satírica O Percevejo, cujo alvo principal é a estrutura burocrática do stalinismo. Escrito em 1929, um ano antes do suicídio do poeta, O Percevejo é a face melancólica e exausta de quem havia escrito, em 1915, o longo poema Uma Nuvem de Calças, notável em seu otimismo e na sua crença revolucionária.

Escrito sem jargão e sem aparato de notas, o livro de Mikhailov também se apresenta como painel de época. Maiakovski surge como figura central do futurismo. Em 1912, com Bofetada no Gosto Público, o escritor, nascido na Geórgia, divulgou o manifesto de um movimento que tinha, inicialmente, propósitos destrutivos. Ao condenar a tradição lírica dos que faziam odes ao luar e cantavam as paisagens do interior, o poeta levou a extremos a idéia de engajamento. O biógrafo é preciso na sua observação: o futurismo de Vladimir Maiakovski e de seu grupo é um fenômeno russo, marcado por tradições nacionalistas e com tendência à valorização dos sentidos e dos sons das palavras, bem como pelo propósito de se dirigir a milhões de pessoas. O poeta ingressou, assim, numa via experimental e de vanguarda: insistia que a nova arte deveria provocar uma "alteração do olhar", já que as coisas haviam sido transformadas pela vida urbana. Versos e palavras eram abruptamente cortados para valorizar formas novas, como na imagem cubista. Antes mesmo de ser poeta, Vladimir Maiakovski descobrira em si talento para o desenho, que demonstrou nos milhares de cartazes produzidos tanto para a divulgação da poesia como para a ação revolucionária. Todo esse conjunto inovador se somava ainda ao gosto do poeta pela declamação em grandes auditórios e por apresentações anárquicas em que surgia com uma escandalosa camisa amarela. Para muitos detratores, ele era o "valentão da periferia", o "saqueador futurista" com "vozeirão de arrombador".

O leitor brasileiro conta com considerável acesso à obra de Maiakovski, apesar das dificuldades da língua original. Estão a seu alcance Minha Descoberta da América (Martins), relato de uma viagem do poeta monoglota, sempre nervoso no estrangeiro, com passagens marcantes pelo México e pelos Estados Unidos. Ou Poética Como Fazer Versos (Global), que traz a síntese de seu pensamento estético, com o imperdível capítulo "Os operários e os camponeses não vos compreendem". Mais importantes são as coletâneas Poemas (Perspectiva), na criativa tradução de Boris Schnaiderman, Augusto de Campos e Haroldo de Campos, e Antologia Poética (Leitura), organizada e traduzida por E. Carrera Guerra e hoje somente encontrada em sebos. Esses dois livros capturam um pouco das melhores qualidades literárias de Maiakovski: a busca de comunicação direta com o leitor, sem que para isso haja rebaixamento da linguagem; e a crença no futuro (que ele sabe inapelavelmente urbano). O essencial são os versos, como sabia o próprio Maiakovski e o afirmou em Eu Mesmo: "Eu sou poeta. É o que me faz interssante".



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