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Internacional O Irã ainda não tem a bomba nuclear. Mas já exibe mísseis que podem atingir Israel. O tempo da diplomacia pode estar no fim
Se demonstrações de força e ameaças verbais são indicativos de que uma luta é iminente, então o mundo pode esperar o Oriente Médio pegar fogo mais uma vez. Durante dois dias, na semana passada, o Irã testou mísseis de médio e longo alcance nas proximidades do Estreito de Ormuz, a rota pela qual passa 40% do comércio global de petróleo. Os testes incluíram uma nova versão do míssil balístico Shahab-3, que, garantem os iranianos, agora alcança 2.000 quilômetros. O recado dos foguetes era curto e brutal: se as instalações nucleares do Irã forem bombardeadas, a retaliação será terrível. O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, ameaçou queimar Tel Aviv e atacar interesses vitais dos Estados Unidos na região e ao redor do mundo. A salva de mísseis e bravatas foi uma resposta de Teerã a manobras militares realizadas por Israel no mês passado. Uma centena de aviões de combate, aviões-tanque e helicópteros de busca e resgate israelenses avançou mais de 1.300 quilômetros no Mediterrâneo, simulando um ataque aéreo de longo alcance. A distância percorrida pelos aviões foi a mesma existente entre Israel e as instalações nucleares de Esfahan, no Irã. A leitura dessas manobras é a de que Israel efetuou o ensaio geral de seu plano para eliminar, de uma vez por todas, a ameaça nuclear iraniana.
O que os iranianos querem fazer com o átomo? A simples suposição de que os aiatolás possam vir a dominar a tecnologia das armas nucleares coloca o mundo em suspenso. A bomba representa uma ameaça para todos os países do Oriente Médio. Para os israelenses, a possibilidade de que um dia os mísseis iranianos carreguem ogivas nucleares é o fator que determinará a sobrevivência ou não de seu país. O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, um muçulmano perturbado por visões apocalípticas, adotou como mote a promessa de que Israel será varrido do mapa. Esse discurso está se tornando monocórdio no Irã. "Khamenei costumava ser cauteloso, mas começou a apoiar as palavras de Ahmadinejad ao ver que seus inimigos tradicionais, o Iraque e o Afeganistão, estão muito enfraquecidos", disse a VEJA o americano Patrick Clawson, autor do livro Irã Eterno: Continuidade e Caos (sem tradução para o português). Ao ouvir o clamor genocida de Teerã, é compreensível que os israelenses possam considerar que simplesmente já não há mais escolha, exceto o ataque. Na semana passada, ao reagir aos testes balísticos do Irã, Ehud Barak, ministro de Defesa israelense, afirmou que Israel "é o país mais forte da região e no passado demonstrou que não tem medo de agir" se entende que sua segurança está sob ameaça. O cenário inicial do conflito é previsível: um ataque aéreo para destruir as instalações nucleares no Irã, a exemplo do que foi feito no Iraque, em 1981. A diferença é que o Irã reagiria com todo o seu poder de fogo e influência. Israel seria submetido a uma chuva de mísseis vindos do inimigo persa e também de seu cliente no Líbano, o Hezbollah. Em especial, a 5ª Frota americana, que está nas águas do Golfo Pérsico, seria alvo dos mísseis de cruzeiro do arsenal iraniano, contra os quais não dispõe de defesas efetivas.
A diferença entre as duas situações é que no Afeganistão há uma guerra com inimigo bem definido: o Talibã e seus aliados da al Qaeda, que atacaram os Estados Unidos. No Irã, diz Hersh, foram cooptados separatistas étnicos, especialmente das minorias balúchi e árabe. Os espiões americanos parecem ter desprezado o fato de se tratar de fundamentalistas sunitas que compartilham o ódio de Osama bin Laden e do Talibã pelos muçulmanos xiitas, que no Irã representam quase 90% da população. Dessa forma, a CIA estaria de volta ao cenário de uma das raras operações realmente bem-sucedidas da história da agência. Em 1953, com farta distribuição de dinheiro e muita intriga, o serviço secreto americano armou o golpe que depôs um primeiro-ministro esquerdista e muito popular. Em parte por causa desse pecado original, os aiatolás xiitas puderam sustentar durante décadas que o impopular regime do xá Mohammad Reza Pahlevi devia sua existência aos Estados Unidos. O resultado é que acusar a CIA por todo tipo de mazela se tornou um comportamento natural entre os iranianos. A ameaça representada pelo "Grande Satã" continua a ser um motivo de coesão nacional e de sustentação do regime teocrático xiita. Caso Israel tome a iniciativa de liquidar com os planos nucleares do Irã, os americanos não terão saída, exceto apoiar o país. "Levamos muito a sério a obrigação de defender nossos aliados e temos a intenção de fazê-lo", afirmou a secretária de Estado Condoleezza Rice, na semana passada. Israel teria também o consentimento de muitos países da região, como a Turquia e os árabes de maioria sunita. Alguns deles já estiveram em Jerusalém para dizer que não se oporiam a um ataque ao Irã. Além do pavor de um aiatolá atômico, essas nações possuem minorias xiitas que são ou podem se tornar fonte de problemas. O Irã dá apoio financeiro, armas e treinamento aos terroristas xiitas do Hezbollah, que, a serviço de Teerã, promovem atentados no exterior e impedem a reconciliação entre as várias comunidades religiosas do país. No Iraque, os iranianos sustentam milícias que atacam civis sunitas e soldados iraquianos e americanos. "Os aiatolás querem atacar os americanos em qualquer lugar, menos no Irã", disse a VEJA o sociólogo e filósofo iraniano Mehdi Khalaji, pesquisador do Washington Institute, nos Estados Unidos. "Eles sabem que a primeira conseqüência de um conflito militar direto seria a saída deles do poder." Está cada dia mais difícil para o mundo esperar para saber a que limites pode chegar a loucura nuclear dos aiatolás.
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