A ciência acaba
de dar um novo passo em direção à cura
da distrofia muscular progressiva, uma doença genética
que provoca a degeneração gradual dos músculos.
Uma equipe de pesquisadores da Universidade de São Paulo
(USP) conseguiu, pela primeira vez, melhorar o quadro clínico
de camundongos portadores da doença com a injeção
de células-tronco humanas adultas, que se transformaram
em fibras musculares. O trabalho, liderado pela geneticista
Mayana Zatz, teve outro resultado relevante: não houve
rejeição das células por parte dos camundongos,
o que é muito comum em transplantes. A rejeição
ocorre porque o organismo dos animais e o dos seres humanos
são programados para reagir a qualquer corpo estranho
formando anticorpos. Por esse motivo, pacientes transplantados
têm de tomar drogas que inibem o sistema imunológico.
"A experiência mostrou não apenas que o tratamento
com células-tronco funciona, mas que pode ser possível
injetá-las sem que o paciente precise usar drogas imunossupressoras",
diz a geneticista Natássia Vieira, responsável
pelo estudo, que será publicado na próxima edição
da revista americana Stem Cells.
Na pesquisa da USP,
as células-tronco foram retiradas de tecido adiposo humano
e aplicadas em catorze camundongos, por meio de injeções
na cauda, durante seis meses. O material entrou na corrente
sanguínea dos roedores e se espalhou por vários
órgãos. Nos músculos afetados pela doença,
ele se transformou em células musculares e formou novos
tecidos. Testes realizados até dois meses depois das
aplicações mostraram que os camundongos ficaram
mais fortes e resistentes. Os pesquisadores acreditam que não
houve rejeição porque foram utilizadas células-tronco
especiais chamadas de mesenquimais. Estudos anteriores sugeriram
que, quando retiradas de tecido adiposo, essas células
não ativam o sistema imunológico, pois não
têm antígenos (uma substância que provoca
a produção de anticorpos) em sua superfície.
A experiência comprovou essa hipótese em camundongos.
O próximo passo é repetir o procedimento com cães
e, finalmente, com seres humanos.
A distrofia muscular
atinge 100.000 brasileiros. Há mais de trinta tipos da
doença. O mais comum e também mais grave
é o de Duchenne, que se manifesta apenas em meninos.
Os sintomas iniciais começam a aparecer aos 2 ou 3 anos
fraqueza e dificuldade para realizar movimentos simples,
como pular e subir escadas e pioram progressivamente.
Em geral, na adolescência, o paciente é confinado
a uma cadeira de rodas. Em estágios adiantados, devido
ao enfraquecimento do diafragma, ele passa a ter dificuldade
para respirar. Então, é obrigado a utilizar um
aparelho de respiração assistida até o
fim da vida. Como não há cura, o tratamento consiste
em postergar os sintomas com fisioterapia e o uso de corticóides.
A pesquisa brasileira é um sinal de esperança
para os pacientes de distrofia muscular.
Uma doença
progressiva
A distrofia
muscular progressiva acomete 1 de cada 2 000 brasileiros
Sua variação
mais comum atinge apenas meninos e os sintomas se manifestam,
em geral, aos 3 anos
Freqüentemente,
por volta dos 15 anos, a doença obriga o paciente
a respirar por meio de aparelhos pelo resto da vida
Experiências da USP
Vídeo 1 Em teste da corda, o camundongo
não tratado cai depois de 1 minuto
Video
Vídeo 2 Em teste da corda, o camundongo
tratado consegue erguer o corpo e se segurar
Video
Vídeo 3 Camundongo não tratado, quando
seguro pela cauda, mostra pouca força no tronco
Video
Vídeo 4 Camundongo tratado, seguro
pela cauda: tem mais força no tronco