Uma lápide de
pedra indica que a idéia de um messias sofredor
que ressuscitou ao terceiro dia já existia no judaísmo
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Ecce Homo, de Juan Macip,
conhecido como Juan de Juanes (1510-1579): a redenção
pelo martírio
É o sonho dourado de todo colecionador: descobrir que
o objeto comprado meio que por acaso possui, na verdade, valor
incalculável. Essa é a constatação
a que vários estudiosos estão chegando a respeito
de uma lápide de pedra de menos de 1 metro de altura,
com 87 linhas de texto em hebraico, que o suíço
David Jeselsohn adquiriu há cerca de uma década.
Por muito tempo, a peça passou despercebida. Há
alguns anos, a pesquisadora israelense Ada Yardeni a examinou
e ficou boquiaberta: de acordo com ela, a lápide seria
um equivalente em pedra de um dos manuscritos do Mar Morto,
cujas ligações com as origens do cristianismo
são até hoje, sessenta anos após sua descoberta,
objeto de acalorados debates. O texto pintado na lápide
(e não gravado, como seria habitual) está apagado
em partes, e um fragmento se perdeu. Mas, conforme os vários
estudiosos que analisaram o artefato desde o ano passado, o
texto fala de um messias sofredor, e acredita-se que faça
alusões também à sua ressurreição
no terceiro dia após a morte. Exatamente como teria acontecido
com Cristo, segundo os Evangelhos. Só que a lápide
é anterior em provavelmente várias décadas
ao nascimento de Jesus daí a comoção
que vem causando entre arqueólogos e pesquisadores bíblicos.
Não é,
claro, que a comunidade científica acredite estar diante
de uma "profecia". O texto vem se juntar com grande
peso às evidências cada vez mais numerosas, e polêmicas,
de que o surgimento de Cristo na Palestina de 2.000 anos atrás
não foi um evento isolado e anômalo, mas estaria
ligado de forma estreita à mística judaica do
período e à atmosfera política de uma nação
sob ocupação romana. Um dos mais ardorosos defensores
dessa tese é Israel Kohl, professor de estudos bíblicos
da Universidade Hebraica de Jerusalém. Segundo Kohl,
o messias específico a que a lápide (que vem sendo
denominada "Revelação de Gabriel", já
que o arcanjo seria seu orador) se refere seria um homem chamado
Simão, assassinado pelo exército do rei judeu
(e colaborador romano) Herodes. O texto menciona o sofrimento
como etapa necessária para a redenção
da mesma forma como os cristãos crêem que Cristo
salva a humanidade do pecado com seu martírio. Na tradição
judaica clássica, o messias tem, ao contrário,
uma imagem triunfal.
Dominic
Buettner/The New York Times
Jeselsohn, com a lápide:
objeto sem preço, adquirido ao acaso
A parte mais controvertida
da lápide é o ponto em que aparece a frase "em
três dias". Ada Yardeni e seu co-pesquisador, Binyamin
Elitzur, consideram ilegível o trecho que se segue a
ela; Kohl, especializado na linguagem da Bíblia
e do Talmude, argumenta que ela forma o complemento "você
viverá". Ou seja, ressuscitará. Vistas sob
essa perspectiva, as várias profecias que Jesus fez sobre
sua própria morte ganhariam um outro matiz seriam
não mais vaticínios sem um precedente histórico
e cultural, mas noções já fincadas nas
crenças de seu tempo e lugar. A lápide, é
evidente, deve ensejar décadas de discussão. Mas
sua autenticidade vem sendo dada como genuína
e esse já é um ponto fundamental.