O presidente do Tribunal
Superior Eleitoral defende eleições sem restrição
e diz que os políticos, com exceções, são
epicuristas
Diego Escosteguy
Cristiano Mariz
"Hoje, muitos
tratam a eleição como um velório. Precisamos
mudar isso. O período eleitoral é uma celebração
da democracia"
O novo presidente
do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Carlos Ayres Britto,
tem enfrentado dias turbulentos. Desde que assumiu o posto,
ele se envolveu em embates polêmicos, como a proposta
de divulgação do nome dos candidatos "fichas-sujas"
e a inusitada restrição ao uso da internet como
instrumento de propaganda política. Jurista com vasta
experiência profissional e prolífica produção
acadêmica, Ayres Britto foi nomeado ministro do Supremo
Tribunal Federal há cinco anos, por indicação
do presidente Lula. Ex-militante petista em Sergipe, ele era
uma espécie de cicerone do então sindicalista
Lula sempre que este visitava Aracaju. Carlinhos, como era conhecido,
tinha a tarefa de buscar Lula no aeroporto e conduzi-lo para
cima e para baixo o advogado era o único petista
que tinha carro com ar-condicionado. Dessas caronas ocasionais,
nasceu a amizade entre os dois. Cabe a Ayres Britto, agora,
zelar para que as eleições municipais transcorram
dentro da mais serena normalidade democrática. Se depender
dele, assegura, a transparência será absoluta
o que inclui a polêmica divulgação na internet
dos candidatos que enfrentam processos criminais, mesmo diante
das pesadas críticas que a iniciativa já recebeu
de colegas magistrados. Casado, pai de cinco filhos, poeta eventual
e vegetariano inflexível, Britto recebeu VEJA em seu
apartamento de Brasília.
Veja É
possível fazer uma eleição limpa no Brasil? Britto Estamos
trabalhando para que isso aconteça. A própria
sociedade tem demonstrado que deseja isso. O Brasil quer eleições
eticamente depuradas. Há uma espécie de água
na boca das pessoas por um Brasil passado a limpo, um Brasil
com políticos comprometidos com a causa pública.
Percebe-se nitidamente uma santa curiosidade social pelas coisas
do poder. Isso me encanta. Para que o voto seja consciente,
a Justiça Eleitoral tem de providenciar o acesso desembaraçado
às informações dos candidatos inclusive
quanto a sua biografia e eventuais processos criminais.
Veja O senhor
chegou a anunciar que o TSE iria divulgar a lista dos candidatos
"fichas-sujas", aqueles que têm folha corrida,
mas aparentemente voltou atrás. Britto
Era minha intenção, mas esbarramos numa dificuldade
operacional. Pela lei, as certidões criminais são
anexadas em papel aos registros de cada candidato. Fui informado
de que teríamos de digitar tudo isso. São mais
de 3 000 cartórios no país e correríamos
o risco de erros. Sugeri que escaneassem, mas não teríamos
condições de realizar isso a tempo. Pretendemos
fazer uma resolução para as eleições
de 2010, determinando que os partidos preencham eletronicamente
o conteúdo dessas certidões. E depois divulgaremos
esses dados na internet. Isso tem sido motivo de muitas incompreensões,
como se eu estivesse recuando da minha convicção
de que é dever da Justiça Eleitoral prestar o
máximo de informações ao cidadão.
Minha convicção persiste. De qualquer maneira,
nossas peças de publicidade vão orientar o eleitor
a buscar esses dados nos cartórios.
Veja O presidente
do Supremo, Gilmar Mendes, disse que há um "ímpeto
persecutório" contra os políticos. Chegou
a classificar a idéia de divulgar a lista como "populismo". Britto Estamos
vivendo uma época de afirmação democrática,
na qual o pluralismo se apresenta com mais força. O dissenso
surge em todas as áreas e o Judiciário
não é exceção. É claro que
temos dissenso no Supremo. É saudável que seja
assim. O presidente do Supremo pensa de um jeito. Eu penso de
outro. Compreendo e respeito o receio do ministro, mas discordo
dele. Cada um tem sua maneira de vocalizar suas idéias.
É do estilo dele recorrer a adjetivos fortes. Mas eu
vejo de modo diferente. Acho que os juízes estão
ávidos por tirar a Constituição do papel
e impedir a candidatura de políticos sobre os quais pesem
graves crimes. O juiz contemporâneo é aquele que
abre as janelas do direito para o mundo. Isso não significa
um juiz vassalo da imprensa. Significa um juiz disposto a ouvir
atentamente o que a opinião pública tem a dizer.
Não há mais lugar para o juiz que se tranca numa
torre de marfim ou paira numa esfera olímpica, como um
semideus.
"Meus colegas
entenderam que o político multiprocessado pode se candidatar.
Eu não. Quando um político exibe processos que evidenciam
um namoro com a delituosidade, ele não pode representar
a coletividade"
Veja A divulgação não seria uma condenação
antecipada do candidato? Britto
Fui voto vencido no TSE sobre essa matéria. Meus colegas
entenderam que o político multiprocessado pode se candidatar.
Eu, não. Entendo que o processo penal, que trata do indivíduo,
e o direito eleitoral, que trata da representação
da coletividade, não se comunicam. Eles têm pressupostos
filosóficos diferentes. A regra segundo a qual ninguém
será considerado culpado até o trânsito
em julgado protege o indivíduo. Acho isso correto, claro.
Mas também acredito que o indivíduo não
pode usar essa regra em seu benefício quando pretende
ocupar um cargo eletivo. No direito penal, em dúvida
fica-se a favor do réu. No direito eleitoral, em dúvida
fica-se a favor da sociedade. Quando um político exibe
um número de processos que evidencia um namoro aberto
com a delituosidade, esse político não pode representar
a coletividade.
Veja A transparência,
então, deve ser irrestrita? Britto O escritor
francês Victor Hugo tem uma frase que considero perfeita
para ilustrar a dimensão do que está acontecendo
no Brasil. Ele dizia que "nada é tão irresistível
quanto a força de uma idéia cujo tempo chegou".
Chegou o tempo da transparência. Não podemos ignorar
o anseio do país. Essa idéia tomou de assalto
o espírito da coletividade. A transparência é
a melhor arma no combate à corrupção. Neste
momento, os juízes precisam perceber que não são
ácaros de processo. Eles devem ter senso de realidade
e sensibilidade suficiente para buscar informações
na sociedade. Está entrando em curso uma nova era, de
aproximação do Poder Judiciário com a sociedade,
sem que isso signifique ímpeto persecutório ou
estrelismo de alguns.
Veja
Como é possível motivar a população
a se interessar pelo processo eleitoral num momento de extremo
desencanto com a política? Britto
Hoje, muitos tratam a eleição como um velório.
Precisamos mudar isso. O período eleitoral é uma
festa, uma celebração da democracia. Nossa idéia
é transmitir aos eleitores uma mensagem leve, ressaltando
a votação como um direito e não
como um fardo. O eleitor precisa perceber que essa depuração
ética está nas mãos dele. Para ajudá-lo,
vamos facilitar o acesso à biografia dos candidatos.
Não conseguimos divulgar a lista dos "fichas-sujas",
mas há alternativas. É fundamental, por exemplo,
que os eleitores conheçam a relação dos
administradores que tiveram suas contas rejeitadas em decisão
definitiva dos tribunais de contas. Essa lista está no
site do Tribunal de Contas da União e deve entrar em
breve no site do TSE e dos Tribunais Regionais Eleitorais. Queremos
assegurar que os eleitores tenham acesso ao máximo de
informações sobre os candidatos.
"A vida
comprova que caixa dois é caixa-preta. No auge da campanha,
a tentação de chegar ao poder é muito forte para a fragilidade
humana.
O fato é que os políticos, com exceções, são epicuristas.
Eles cedem e vão atrás do
dinheiro sujo"
Veja
O TSE pode fazer alguma coisa para coibir a prática do
caixa dois? Britto
Essa discussão atrai muitos extremos. A vida comprova
que caixa dois é caixa-preta. No auge da campanha, a
tentação de chegar ao poder é demasiadamente
forte para a fragilidade humana. O fato é que a classe
política, com exceções, segue a máxima
epicurista. Epicuro (de Samos, filósofo grego)
disse que, quando a tentação chegar, ceda logo
antes que ela vá embora. Os políticos brasileiros
são epicuristas. Eles cedem e vão atrás
do dinheiro sujo. Das duas, uma: ou é dinheiro público
obtido ilicitamente ou é privado e neste caso
vem acompanhado da cobrança de favores posteriores aos
candidatos beneficiados. Há uma relação
promíscua nas fontes de financiamento. O doador é
um investidor. Ele quer o retorno de seu dinheiro. Diante dessa
cultura enraizada da promiscuidade, eu adotaria uma solução
radical: exclusivo financiamento público. Esse é
um campo em que a opção é entre o ruim
e o menos ruim. Dizem que seria uma violência para as
pessoas que queiram contribuir. Que seja. Se se transigir, cai-se
na promiscuidade.
Veja Nesta
eleição, espera-se que o presidente Lula seja
um personagem onipresente nos palanques dos candidatos da base
aliada. Não há abuso de poder nessa atitude? Britto Na minha
visão, não há problema em o presidente
subir no palanque dos aliados. Faz parte do jogo político.
Não vejo sentido em cercear isso, desde que, como determina
a lei, ele não vincule diretamente seu governo às
ações do candidato no palanque. A Justiça
Eleitoral não pode agir como um feitor, com chicote na
mão e esporas no pé. Se dependesse de mim, seria
tudo na base do liberou geral claro que sempre dentro
da lei. Mas preciso admitir que minha visão não
é dominante no TSE.
Veja Liberou
geral? Britto É
claro que não estou convidando os políticos a
cometer desvios. Não vamos fechar os olhos para as ilegalidades.
Digo isso como princípio orientador, no sentido de que
estou mais preocupado em estimular o envolvimento do eleitor
do que em restringir essa participação política.
Esse estímulo é especialmente importante na internet.
Acabamos de discutir essa questão no TSE. Pela lei, o
candidato só pode fazer propaganda na sua página.
Meu ponto de vista, que acabou não prevalecendo, é
que deveríamos deixar a internet em paz. É um
erro meter o bedelho nisso. A internet talvez seja hoje o maior
espaço de liberdade individual, um espaço naturalmente
interditado ao poder regulador do estado. Além disso,
é impossível controlar a internet. Quanto aos
excessos, vamos decidir caso a caso.
Veja O Supremo
decidiu recentemente que o mandato pertence ao partido, estrangulando
a prática do velho troca-troca partidário. A Comissão
de Constituição e Justiça da Câmara
aprovou um projeto que restabelece a farra. Britto Esse projeto
me preocupa. Fui relator desse caso no Supremo. Nós demos
um passo largo para o saneamento dos costumes políticos
do país. As urnas têm uma voz ideológica.
A cada quatro anos, elas apresentam um desenho ideológico
do país, por meio do mapa de quantos votos recebeu cada
partido. Esse desenho, que resulta da vontade do eleitor, deve
prevalecer por quatro anos. Não cabe ao candidato alterá-lo
por conta própria. Nós estamos acabando com uma
das maiores distorções da vida política
brasileira: a cooptação do Congresso pelo governo.
Com a nossa decisão, sair de um partido de oposição
e ir para uma legenda do governo ficou mais difícil.
Veja Mas,
mesmo sem a troca de partido, essa cooptação continua,
por meio de cargos, emendas parlamentares, os métodos
de sempre. Britto É verdade.
Não vou exagerar. Realmente não eliminamos o problema,
mas demos um tranco nessa permissividade. Esse projeto da Câmara
é a prova de que incomodamos. É bom lembrar que
essa idéia está surgindo num projeto de lei. Quando
decidimos a favor da fidelidade, nós nos embasamos na
Constituição. Então, se o projeto for aprovado,
vamos averiguar até que ponto ele colide com a Constituição.
Veja O Supremo
vai julgar a constitucionalidade da Lei de Imprensa. Afinal,
é preciso haver uma lei para regular a imprensa? Britto O Supremo
já se manifestou no sentido de que a atual Lei de Imprensa
é incompatível com a Constituição.
O debate se transfere agora para outra arena. Discutiremos se
a generosidade dispensada pela Constituição à
liberdade de expressão e à imprensa é compatível
com a existência de uma lei. O fato é que uma lei
significa restrição, exceções. Não
posso antecipar voto, mas acredito que imprensa e democracia
sejam irmãs siamesas. Nesse ponto, pelo que já
foi manifestado dentro da corte, creio que os ministros do Supremo
não tenham discordâncias expressivas. Certamente
iremos analisar o assunto tendo em perspectiva o espírito
da Constituição.
Veja Nos
últimos anos, multiplicaram-se os casos de corrupção
envolvendo magistrados. Entretanto, houve poucas punições.
O Judiciário faz vista grossa a suas ervas daninhas? Britto É um
assunto gravíssimo. Uma eventual corrupção
no Judiciário produz um estrago na democracia maior do
que em qualquer outro setor. O juiz que faz de sua caneta um
pé-de-cabra é o pior dos bandidos. Para mim, é
triste descobrir que alguns juízes são corruptos
e ladrões. Não se pode tapar o sol com a peneira.
Aqui e ali irrompem evidências de corrupção.
Mas é preciso ter em vista que, historicamente, os focos
de defecção são poucos. A criação
do Conselho Nacional de Justiça é uma resposta
a isso.
Veja Não
é pouco? Britto É
um começo. Está clara, na cúpula do Judiciário,
a compreensão de que a corrupção é
intolerável. Ela produz um abalo sísmico na credibilidade
do nosso poder. Os processos que envolvem corrupção
no Judiciário devem receber tratamento célere.
Devemos ter também uma predisposição mais
forte para investigá-los a fundo. A regra tem de ser
tolerância zero. Não podemos usar como punição
somente aposentadorias compulsórias. Nosso desafio é
explodir os diques do corporativismo.
Veja O senhor
foi filiado durante dezoito anos ao PT. É possível
despir-se da ideologia num dia e vestir a toga no outro? Britto É
possível, sim. Meu temperamento e meu caráter
ajudam. Eu sei virar páginas. Vivi intensamente minha
filiação partidária. Mas, quando fui indicado
para o STF, virei a página. Eu sou um magistrado. Não
sou mais um filiado, um petista. Tenho proibição
até de professar credo partidário. Agora sou um
militante da Constituição. Se vou desagradar ao
PT ou ao PSDB, não estou nem aí.