A prisão do
banqueiro Daniel Dantas, do especulador Naji Nahas e do ex-prefeito
de São Paulo Celso Pitta, acusados de um rol de crimes
que envolvem de corrupção a fraudes financeiras,
vai seguindo um roteiro previsível no caso dos crimes
dos colarinhos-brancos. O juiz decreta a detenção
temporária ou preventiva sem que haja necessidade para
isso, a Polícia Federal protagoniza uma ação
espetaculosa, os presos aparecem de algemas nos jornais e na
televisão, os advogados dos presos entram com pedido
de habeas corpus, uma instância superior o concede, os
presos são libertados para responder ao processo em liberdade
e, depois de anos de refrega jurídica, os acusados
são absolvidos. Na massacrante maioria das vezes, não
porque sejam de fato inocentes, mas porque o inquérito
original, feito a toque de caixa, com falhas e inconsistências
pueris, abre aos advogados de defesa brechas enormes para fazer
a transformação de criminosos em injustiçados.
A lógica mais
banal sugere que deva ser feito o contrário: a polícia
investiga os suspeitos, elabora um inquérito com provas
e argumentos irretocáveis, a peça é examinada
e acolhida pelo juiz, abre-se um processo com os réus
respondendo em liberdade e, só lá no final, em
caso de condenação, os culpados são presos.
Presos de verdade, por anos a fio, e não apenas por alguns
dias, como vem sendo a regra.
No que se refere à
última operação da Polícia Federal,
esses erros de investigação tão comuns
atingem níveis lisérgicos. A pressa em produzir
imagens para a televisão de criminosos de colarinho branco
sendo algemados resultou em um inquérito incompetente
na colheita de provas, indigente em sua compilação
e ágrafo na apresentação final o
que prenuncia vida fácil para a defesa dos acusados quando
as instâncias judiciais começarem a cumprir sua
nobre função. Os policiais produziram 5 000 páginas.
Elas foram reduzidas a 173 no relatório final do juiz,
que teve a sabedoria de rejeitar a imensa quantidade de arbítrios,
julgamentos apressados e convulsões ideológicas
exaradas pelo delegado da Polícia Federal responsável.
Uma reportagem desta edição de VEJA mostra que
essa operação foi feita longe do alcance do diretor-geral
da PF e com a participação indevida de espiões
da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). O
resultado do amadorismo e da incompetência do trabalho
policial será, provavelmente, a impunidade de Dantas,
Nahas e companhia. Uma pena.