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Auto-retrato
Em um dia calmo, ele cuidava das refeições da rainha Elizabeth II. Em um conturbado, preparava jantar para 1 000 convidados no Palácio de Buckingham. Durante quinze anos, essa foi a rotina do ex-chef da família real inglesa, que vem a São Paulo neste mês para, a convite de uma marca de uísque, preparar o banquete de lançamento de uma edição limitada da bebida. De Dallas, Texas, onde mora e trabalha atualmente, ele falou à repórter Bel Moherdaui. A rainha vive basicamente de lagosta e caviar? Não é bem assim. Ela mora em um palácio, mas é a casa dela. Quando chega em casa, principalmente depois de uma ausência mais prolongada, ela, como nós, quer uma comida caseira, um sanduíche de pão com queijo. Mas tem seus pratos preferidos, que são feitos uma ou duas vezes por semana: linguado grelhado, cordeiro, tortas doces. Qual é a comida de que ela mais gosta? A rainha é chocólatra. Adora todas as sobremesas com chocolate. Também aprecia carne de caça. Algum ingrediente é proibido no cardápio? Eu não podia usar alho, que a rainha considera anti-social. Também a cebola é limitada. Como é definido o cardápio do dia-a-dia? Mesmo sendo rainha, não adianta ela acordar com vontade de comer alguma coisa, porque as refeições são decididas com três dias de antecedência. Tínhamos um caderno vermelho chamado "cardápio real", que se abria em duas páginas. À esquerda ficava o menu do dia, com duas opções de entrada, talvez uma salada, uma lista com cinco ou seis pratos, duas opções de sobremesa e, no pé da página, acompanhamentos para o chá da tarde. À direita, seis ou oito pratos para o jantar. A rainha fazia um risco embaixo do que não queria, e estava definido o cardápio para dali a três dias. Quando o príncipe Charles ou os filhos estavam no palácio, ela também escolhia o que eles iam comer. Toda receita nova precisa da aprovação dela antes de ser preparada. A rainha faz algum tipo de dieta? Nenhuma. Come muita cozinha clássica francesa, cheia de manteiga e cremes. Mas sempre moderadamente. Depois de trabalhar onze anos para a rainha Elizabeth, o senhor foi cozinhar para a princesa Diana, no Palácio de Kensington. Como foi a mudança? O estilo era totalmente diferente. A cozinha de Buckingham é muito tradicional, segue o estilo francês. Quando fui para o palácio da princesa, ela estava em sua melhor forma. Só comia alimentos saudáveis e fazia muita ginástica. Lá eu preparava muito mais saladas. A musse de tomate, por exemplo, era completamente light, enquanto a da rainha levava três tipos de gordura. Muitas vezes fiz o mesmo prato para a princesa e seus convidados, só que o dela tinha zero de gordura. A princesa recebia muitos convidados? Não recebia para jantar, só para almoçar. À noite, ela preferia tomar um banho, pôr uma roupa confortável e comer na frente da televisão. Gostava de tomar uma taça de vinho branco; tinto, dizia que lhe dava dor de cabeça, e champanhe, que a fazia ficar tonta e rir à toa. Os príncipes William e Harry ainda eram crianças. Eles comiam muita bobagem? Quando estavam com a rainha ou com o pai, faziam refeições formais, com os talheres apropriados. Já a princesa queria que eles fossem crianças normais, então em algumas noites eu servia pizza, batata frita ou hambúrguer. Na maior parte das vezes, William e Harry comiam com a babá, que era quem decidia o cardápio, sempre saudável. Certa noite, cheguei e havia um recado na minha mesa: "Darren, não faça frango com brócolis para os garotos hoje. Faça pizza. Assinado, a babá". Estava escrito com a letra de uma criança de 7 anos. Por que o senhor declinou o convite de trabalhar para o príncipe Charles após a morte de Diana? Primeiro, porque acho que William e Harry me consideram o chef da mamãe. E também porque acredito que ela está me vendo lá em cima e diria: "Você não vai trabalhar para aquela mulher!".
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