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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
Somos
de fato uma democracia?
"Deputados
e senadores que elegemos
nunca nos consultam sobre coisa alguma.
Eles nem sabem a quem representam,
nem ao menos têm os nossos e-mails. Sob esse
aspecto, nem uma República de fato somos"
Cresce
o número de pessoas influentes que questionam a democracia
argumentando que no fundo ela não funciona. Isso é
muito assustador. Recentemente, em uma importante revista de sociologia,
encontramos frases como esta: "As instituições democráticas
não merecem nenhuma confiança, pois são fatídicas
ou corrompidas".
Intelectuais
sempre questionaram a democracia pela facilidade com que o povo
é manipulado pela mídia e pelo marketing eleitoral.
Chamam-na de "democracia burguesa" e portanto ilegítima.
A direita, como sempre pobre nas suas argumentações,
responde que a democracia é de fato falha, mas continua o
melhor sistema que existe.
Existe
um erro nessas afirmações: o Brasil não é
uma democracia no sentido original da palavra, e sim uma República.
A República Federativa do Brasil.
Numa
democracia, em seu conceito antigo, todos os cidadãos decidiam
todas as questões de Estado, 100%. Numa República,
a decisão coletiva foi reduzida a menos de 1%, resumida no
único ato de eleger um representante que votará todo
o resto em nosso nome. Numa democracia você decide tudo, numa
República você só vota a cada quatro anos. Seu
representante decide tudo em seu nome. Nem tivemos o direito de
aprovar, por plebiscito, a Constituição de 1988.
Ilustração Ale Setti
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Deputados
e senadores que elegemos nunca nos consultam sobre coisa alguma.
Eles nem sabem a quem representam, nem ao menos têm os nossos
e-mails. Sob esse aspecto, nem uma República de fato somos.
Democracias funcionam nas tribos indígenas, ou quando o Estado
é enxuto, como era na Grécia. Hoje, são tantas
as decisões que o Estado precisa tomar que ficaríamos
todos presos de terça a quinta-feira em Brasília,
decidindo coisas mil. Nem nossos deputados dão conta de votar
tanta coisa. Aceitam o voto da liderança.
Em
vez de simplificar o Estado e delegar decisões, substituíram
o sistema democrático pelo sistema republicano. Tomaram lentamente
o poder das nossas mãos, e continuam a chamar esse sistema
de "democracia" republicana só para parecer politicamente
correto.
Boa
parte dos problemas de corrupção, como gastos públicos
descontrolados, dívidas externa e interna, juros altos, advém
do fato de sermos uma República, não do fato de sermos
uma democracia. Nós não decidimos mais nada, não
escolhemos mais nossos médicos, nem os professores de nossos
filhos, nem nossos xerifes, nem nossos gestores de previdência,
como antigamente.
Numa
República, os políticos simplesmente celebram contratos
em nosso nome que duram dez, vinte, trinta anos. Período
que vai muito além de seus mandatos constitucionais. Banqueiros
internacionais adoram argumentar que países e Estados nunca
quebram, que nossos filhos terão de pagar pelas nossas dívidas
e erros. Tese inteligente para legitimar o pagamento de dívidas
que extrapolam os mandatos dos eleitos. Mas será que um contrato
de trinta anos é legítimo, se o mandato constitucional
de quem o assinou era de somente quatro anos? A Lei de Responsabilidade
Fiscal foi feita para coibir os abusos de governos anteriores. Sem
dúvida foi um avanço, mas os governos atuais continuam
devedores de governos anteriores.
Por
isso, temos a eterna alternância de governos gastadores e
governos que nada podem fazer. Muitos prefeitos pouco fazem a não
ser administrar as dívidas de prefeitos anteriores. Esse
problema advém do fato de sermos uma República, e
não uma democracia. Se todos nós pudéssemos
votar democraticamente jamais contrairíamos dívidas
colossais para nossos filhos pagarem.
Se
um governo anterior lhe prometeu uma aposentadoria integral, verifique
se esse governante tinha um mandato de cinqüenta anos para
lhe fazer tal promessa. Ou se ele observou "critérios que
preservem o equilíbrio financeiro e atuarial" para não
comprometer as finanças dos próximos governos como
reza o artigo 201 da Constituição.
Foi
por aí que começaram nossos problemas com a dívida
externa, a dívida interna, estatização, precatórios
e previdência. Portanto, não fale mal da democracia,
um dia ainda poderemos adotá-la no Brasil.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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