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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
O
mundo revisto
e corrigido
A
lista dos países
segundo o IDH
desfaz mitologias e convida
a uma
releitura do planeta
Ué...
A Argentina não era um país em decadência, arrasado
por uma economia em declínio e um irremediável bloqueio
político, sem falar no gosto duvidoso da costeleta de Menem,
da obesidade de Maradona e da mórbida fixação
em Eva Perón e Carlos Gardel? Pois eis que a Argentina desponta,
na classificação dos países pelo Índice
de Desenvolvimento Humano, que a ONU divulgou na semana passada,
entre os países de "elevado desenvolvimento humano", ocupando
um 34º lugar que a situa à frente de gente promissora
como a Polônia, a Hungria e a Eslováquia, integrantes
da "Nova Europa" tão cara ao secretário americano
da Defesa, Donald Rumsfeld, e na liderança folgada do bloco
latino-americano.
Ué... A China não era o gigante enfim desperto, protagonista
de um milagre econômico responsável por sucessivos
recordes de crescimento, país onde o capitalismo, ainda que
selvagem, foi magicamente costurado ao socialismo, ainda que bárbaro?
Pois a China aparece, na mesma classificação, num
humilhante 104º lugar, num total de 175 países, abaixo
do Equador, dos territórios palestinos e escândalo
dos escândalos de Cabo Verde, a antiga colônia
portuguesa na África, situada uma posição à
frente.
O relatório sobre o Índice de Desenvolvimento Humano
(IDH), divulgado a cada ano pelo PNUD, o Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento, pretende captar a qualidade de vida
nos diversos países. Leva em conta não apenas o dado
econômico, mas indicadores sociais como o grau de alfabetização,
a porcentagem de crianças na escola, a expectativa de vida
e a mortalidade infantil. O relatório agora divulgado contém
dados relativos a 2001. Pode-se argumentar, no caso da Argentina,
que não pegou a crise da renúncia de De la Rúa,
em dezembro daquele ano, o "corralito" e o pico do desemprego que
se seguiram. Mas pegou a crise que, em 2001, já era dramática,
e ignorou a recuperação registrada nos últimos
meses, o que leva a crer que os dados não devem diferir muito
dos de hoje.
A leitura da lista dos países, classificados do primeiro
lugar (Noruega) ao 175º (Serra Leoa), e aquinhoados com um
sistema de notas que vai de 0,10 a 1 a Noruega ficou com
0,944, e Serra Leoa com 0,275 , é instrutiva. Desfaz
mitologias e convida a uma releitura do mundo. Tome-se o caso da
Irlanda. A Irlanda é conhecida por duas coisas. Primeiro,
por ser o ghost-writer da Inglaterra. A Inglaterra fica com a fama,
mas quem fornece os escritores que fazem a glória da literatura
inglesa, de Swift (Gulliver) a James Joyce (Ulisses),
passando por Oscar Wilde e Bernard Shaw, é a Irlanda. Segundo,
pelas avassaladoras fomes que conheceu ao longo da história,
responsáveis por mortandades e emigrações tremendas.
Ao entrar na Comunidade Européia, em 1973, a Irlanda vinha
como mendiga, necessitada das migalhas dos outros para sobreviver.
Pois em matéria de IDH, hoje, ela aparece em 12º lugar,
apenas uma posição atrás da Dinamarca, a Dinamarca
da prosperidade e da justiça social características
do paraíso escandinavo, e uma posição à
frente à frente! . da Inglaterra. Atrás
da Irlanda ficam ainda França (17º lugar), Alemanha
(18º), Espanha (19º) e Itália (21º).
Dessas colocações já se extraem novas surpresas.
A Inglaterra, embora superada pela Irlanda, vem à frente
da França e da Alemanha, suas maiores rivais do continente,
das quais um desempenho econômico inferior, nas últimas
décadas, parecia afastá-la cada vez mais. Também
não é do senso comum que a França supera a
Alemanha e que a Espanha supera a Itália, e no entanto, em
matéria de IDH, é isso o que ocorre. Na atual disputa
entre Silvio Berlusconi ("Carrasco nazista!") e Gerhard Shroeder
("Não passo mais as férias aí!"), nenhum dos
dois tem motivos para se vangloriar.
E o Brasil? O lugar do Brasil não representa surpresa. O
melhor que o ranking do IDH faz é contribuir para uma visão
equilibrada da posição do país no mundo, nem
tão ruim como gostariam os catastrofistas, nem tão
boa como cantam os ufanistas. O Brasil aparece em 65º lugar,
quatro posições acima da classificação
anterior. É o 10º colocado entre os 86 países
classificados como de "desenvolvimento humano médio", o que
não é ruim: com 0,777 pontos, está só
um pouco atrás do 0,800 a partir do qual um país é
considerado de "desenvolvimento elevado". Fica uma posição
atrás da Colômbia e duas da Rússia, e oito à
frente da rica Arábia Saudita. Serve para ajustar a cabeça
para a real posição do Brasil no mundo que apareça
muito à frente da decantada China. O lado ruim é que,
além de perder da Argentina, do Uruguai (40º) e do Chile
(43º), ocupe treze posições atrás de Cuba
(52º).
E eis que surgem mais surpresas. O Chile, tido como melhor aluno
da classe, no continente, perde da Argentina e do Uruguai. Quanto
a Cuba, os cubanófilos, ao percorrer a lista de trás
para a frente, terão razões para festa ao vê-la
à frente do Brasil, mas a alegria durará pouco: Cuba
perde, e perde bem, da Costa Rica (42º).
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