Edição 1811 . 16 de julho de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
VEJA on-line
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O mundo revisto
e corrigido

A lista dos países segundo o IDH
desfaz
mitologias e convida a uma
releitura
do planeta

Ué... A Argentina não era um país em decadência, arrasado por uma economia em declínio e um irremediável bloqueio político, sem falar no gosto duvidoso da costeleta de Menem, da obesidade de Maradona e da mórbida fixação em Eva Perón e Carlos Gardel? Pois eis que a Argentina desponta, na classificação dos países pelo Índice de Desenvolvimento Humano, que a ONU divulgou na semana passada, entre os países de "elevado desenvolvimento humano", ocupando um 34º lugar que a situa à frente de gente promissora como a Polônia, a Hungria e a Eslováquia, integrantes da "Nova Europa" tão cara ao secretário americano da Defesa, Donald Rumsfeld, e na liderança folgada do bloco latino-americano.

Ué... A China não era o gigante enfim desperto, protagonista de um milagre econômico responsável por sucessivos recordes de crescimento, país onde o capitalismo, ainda que selvagem, foi magicamente costurado ao socialismo, ainda que bárbaro? Pois a China aparece, na mesma classificação, num humilhante 104º lugar, num total de 175 países, abaixo do Equador, dos territórios palestinos e – escândalo dos escândalos – de Cabo Verde, a antiga colônia portuguesa na África, situada uma posição à frente.

O relatório sobre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), divulgado a cada ano pelo PNUD, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, pretende captar a qualidade de vida nos diversos países. Leva em conta não apenas o dado econômico, mas indicadores sociais como o grau de alfabetização, a porcentagem de crianças na escola, a expectativa de vida e a mortalidade infantil. O relatório agora divulgado contém dados relativos a 2001. Pode-se argumentar, no caso da Argentina, que não pegou a crise da renúncia de De la Rúa, em dezembro daquele ano, o "corralito" e o pico do desemprego que se seguiram. Mas pegou a crise que, em 2001, já era dramática, e ignorou a recuperação registrada nos últimos meses, o que leva a crer que os dados não devem diferir muito dos de hoje.

A leitura da lista dos países, classificados do primeiro lugar (Noruega) ao 175º (Serra Leoa), e aquinhoados com um sistema de notas que vai de 0,10 a 1 – a Noruega ficou com 0,944, e Serra Leoa com 0,275 –, é instrutiva. Desfaz mitologias e convida a uma releitura do mundo. Tome-se o caso da Irlanda. A Irlanda é conhecida por duas coisas. Primeiro, por ser o ghost-writer da Inglaterra. A Inglaterra fica com a fama, mas quem fornece os escritores que fazem a glória da literatura inglesa, de Swift (Gulliver) a James Joyce (Ulisses), passando por Oscar Wilde e Bernard Shaw, é a Irlanda. Segundo, pelas avassaladoras fomes que conheceu ao longo da história, responsáveis por mortandades e emigrações tremendas. Ao entrar na Comunidade Européia, em 1973, a Irlanda vinha como mendiga, necessitada das migalhas dos outros para sobreviver. Pois em matéria de IDH, hoje, ela aparece em 12º lugar, apenas uma posição atrás da Dinamarca, a Dinamarca da prosperidade e da justiça social características do paraíso escandinavo, e uma posição à frente – à frente! –. da Inglaterra. Atrás da Irlanda ficam ainda França (17º lugar), Alemanha (18º), Espanha (19º) e Itália (21º).

Dessas colocações já se extraem novas surpresas. A Inglaterra, embora superada pela Irlanda, vem à frente da França e da Alemanha, suas maiores rivais do continente, das quais um desempenho econômico inferior, nas últimas décadas, parecia afastá-la cada vez mais. Também não é do senso comum que a França supera a Alemanha e que a Espanha supera a Itália, e no entanto, em matéria de IDH, é isso o que ocorre. Na atual disputa entre Silvio Berlusconi ("Carrasco nazista!") e Gerhard Shroeder ("Não passo mais as férias aí!"), nenhum dos dois tem motivos para se vangloriar.

E o Brasil? O lugar do Brasil não representa surpresa. O melhor que o ranking do IDH faz é contribuir para uma visão equilibrada da posição do país no mundo, nem tão ruim como gostariam os catastrofistas, nem tão boa como cantam os ufanistas. O Brasil aparece em 65º lugar, quatro posições acima da classificação anterior. É o 10º colocado entre os 86 países classificados como de "desenvolvimento humano médio", o que não é ruim: com 0,777 pontos, está só um pouco atrás do 0,800 a partir do qual um país é considerado de "desenvolvimento elevado". Fica uma posição atrás da Colômbia e duas da Rússia, e oito à frente da rica Arábia Saudita. Serve para ajustar a cabeça para a real posição do Brasil no mundo que apareça muito à frente da decantada China. O lado ruim é que, além de perder da Argentina, do Uruguai (40º) e do Chile (43º), ocupe treze posições atrás de Cuba (52º).

E eis que surgem mais surpresas. O Chile, tido como melhor aluno da classe, no continente, perde da Argentina e do Uruguai. Quanto a Cuba, os cubanófilos, ao percorrer a lista de trás para a frente, terão razões para festa ao vê-la à frente do Brasil, mas a alegria durará pouco: Cuba perde, e perde bem, da Costa Rica (42º).

 
 
 
 
topo voltar