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Cultura
O
desabafo do pintor
Em
cartas a Mário de Andrade, Portinari
reclama das patrulhas ideológicas

Fernando
Granato
Divulgação
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quadro Café, parte do ciclo de murais para o Ministério
da Educação |
O
pintor Cândido Portinari (1903-1962) não gostava de
escrever. Dizia que se expressava mal com a caneta, que preferia
se comunicar pintando ou falando. Apesar disso, manteve uma significativa
correspondência com o amigo e escritor Mário de Andrade,
composta de 61 cartas, entre os anos de 1934 e 1944. Ao contrário
das de Mário, já publicadas no volume Portinari,
Amico Mio, as cartas do pintor mais popular do país permanecem
inéditas, trancadas no Instituto de Estudos Brasileiros da
Universidade de São Paulo. Há planos para editá-las
em livro ainda neste ano, quando se comemora o centenário
do artista (nesta semana, a reedição de uma célebre
biografia do pintor publicada pelo jornalista Antonio Bento em 1980
e uma exposição no Museu de Arte Moderna, em São
Paulo, fazem parte das celebrações). VEJA teve acesso
às cartas de Portinari, e sua leitura demonstra que o pintor
não estava nem inteiramente certo nem inteiramente errado
ao considerar-se "incapaz" na escrita. As cartas são um testemunho
vívido das mágoas que certas críticas despertaram
nele mas falham em apresentar argumentos conclusivos contra
as acusações que ele julgava equivocadas.
Ao mesmo tempo que desenvolveu uma arte de preocupações
sociais, devotada à denúncia da miséria e das
desigualdades, Portinari retratou com freqüência a elite
econômica do país. Produziu também obras sob
encomenda para a ditadura de Getúlio Vargas, como o mural
para o Monumento Rodoviário, na estrada RioSão
Paulo, e principalmente os afrescos para o edifício do antigo
Ministério da Educação, no Rio de Janeiro.
Essa ambivalência de um pintor que simpatizava com
o comunismo e chegou a filiar-se ao PCB, sem no entanto afastar-se
das camadas abastadas e da oficialidade foi notada pelos
contemporâneos de Portinari e deu início a uma discussão
que ainda continua: até que ponto ele era de fato um contestador?
Arquivo Mario de Andrade
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Começaram
a fazer um retrato meu bastante falso, dizendo que fiquei
rico, que fiquei besta, que só recebo pessoas que me
convêm, que vivo favorecido pelos meios oficiais e isso
tudo é bem mentira. Continuo o mesmo, só que
com menos fé no que faço e com a idéia
de que estou doente.
Carta
de Portinari, em
17 de dezembro de 1943
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É
na correspondência relativa aos murais para o Ministério
da Educação que as queixas de Portinari se tornam
mais patentes. Depois de engajar-se na empreitada, ele começou
a receber críticas ácidas. O escritor Oswald de Andrade,
por exemplo, que antes o defendia, chegou a publicar um texto intitulado
"As pinturas do coronel". Por causa de comentários como esse,
o pintor desabafou a Mário, em outubro de 1944, quando estava
próximo de concluir os murais para o ministério, depois
de oito anos de trabalho: "Começaram a fazer um retrato meu
bastante falso, dizendo que fiquei rico, que fiquei besta, que só
recebo pessoas que me convêm, que vivo favorecido pelos meios
oficiais e isso tudo é bem mentira. Continuo o mesmo, só
que com menos fé no que faço e com a idéia
de que estou doente. Essas duas coisas me perseguem dia e noite".
Em outro trecho, afirma ter tomado partido em tudo o que pintou:
"Creio ter pintado fotograficamente o mundo que me rodeia
a gente pobre com os olhos doentes, com a cara estragada, com o
corpo deformado essa mesma gente se divertindo se
casando, tendo filhos e morrendo. Contrastando fiz gente bonita,
com a pele tratada e bem maquiada com produtos da Rubinstein. Fiz
tudo isso também com algum comentário". Na resposta,
Mário tranqüiliza o amigo: "Ninguém é
forte e de grande valor, sem ter a cachorrada lhe ganindo no calcanhar,
inimigos frouxos e despeitados".
Para o sociólogo Sergio Miceli, professor da Universidade
de São Paulo e autor do livro Imagens Negociadas,
que estuda os retratos que Portinari realizou de figuras influentes
e endinheiradas, as reclamações do pintor enquadram-se
num contexto mais amplo do que o do mero sentimento pessoal. "Costumo
dizer que a cooptação dos intelectuais é um
dado estrutural da vida brasileira desde o Império. No caso
de Portinari, não resta dúvida de que ele foi um artista
oficial da era Vargas." Angustiado com as críticas de cunho
político que considerava injustas, Portinari enxergou ressalvas
a seu trabalho até mesmo num escrito de Mário de Andrade.
A última carta escrita ao amigo foi datada de dezembro de
1944. Portinari, embora afetuoso, reclama de originais que acabava
de ler: um ensaio que Mário escrevia sobre ele, para uma
editora argentina especializada em artes plásticas. "Tem
pedaços que tive vontade de perguntar se você é
meu amigo ou amigo da onça", diz o pintor. Em sua resposta
de 25 de dezembro, Mário que vivia um período
difícil, descrente da arte e dos amigos reconhece
que o ensaio não ficara bom e propõe: "Se quiser desistir,
eu desisto junto, que já disse e repito: acho o meu escrito
infecto". Mário de Andrade morreu pouco depois, em 25 de
fevereiro de 1945. O texto acabou não sendo publicado nem
refeito.
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