Edição 1811 . 16 de julho de 2003

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Cultura
O desabafo do pintor

Em cartas a Mário de Andrade, Portinari
reclama das patrulhas ideológicas


Fernando Granato

 
Divulgação
O quadro Café, parte do ciclo de murais para o Ministério da Educação

Trechos das cartas

O pintor Cândido Portinari (1903-1962) não gostava de escrever. Dizia que se expressava mal com a caneta, que preferia se comunicar pintando ou falando. Apesar disso, manteve uma significativa correspondência com o amigo e escritor Mário de Andrade, composta de 61 cartas, entre os anos de 1934 e 1944. Ao contrário das de Mário, já publicadas no volume Portinari, Amico Mio, as cartas do pintor mais popular do país permanecem inéditas, trancadas no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Há planos para editá-las em livro ainda neste ano, quando se comemora o centenário do artista (nesta semana, a reedição de uma célebre biografia do pintor publicada pelo jornalista Antonio Bento em 1980 e uma exposição no Museu de Arte Moderna, em São Paulo, fazem parte das celebrações). VEJA teve acesso às cartas de Portinari, e sua leitura demonstra que o pintor não estava nem inteiramente certo nem inteiramente errado ao considerar-se "incapaz" na escrita. As cartas são um testemunho vívido das mágoas que certas críticas despertaram nele – mas falham em apresentar argumentos conclusivos contra as acusações que ele julgava equivocadas.

Ao mesmo tempo que desenvolveu uma arte de preocupações sociais, devotada à denúncia da miséria e das desigualdades, Portinari retratou com freqüência a elite econômica do país. Produziu também obras sob encomenda para a ditadura de Getúlio Vargas, como o mural para o Monumento Rodoviário, na estrada Rio–São Paulo, e principalmente os afrescos para o edifício do antigo Ministério da Educação, no Rio de Janeiro. Essa ambivalência – de um pintor que simpatizava com o comunismo e chegou a filiar-se ao PCB, sem no entanto afastar-se das camadas abastadas e da oficialidade – foi notada pelos contemporâneos de Portinari e deu início a uma discussão que ainda continua: até que ponto ele era de fato um contestador?

 
Arquivo Mario de Andrade

Começaram a fazer um retrato meu bastante falso, dizendo que fiquei rico, que fiquei besta, que só recebo pessoas que me convêm, que vivo favorecido pelos meios oficiais e isso tudo é bem mentira. Continuo o mesmo, só que com menos fé no que faço e com a idéia de que estou doente.
Carta de Portinari, em
17 de dezembro de 1943

É na correspondência relativa aos murais para o Ministério da Educação que as queixas de Portinari se tornam mais patentes. Depois de engajar-se na empreitada, ele começou a receber críticas ácidas. O escritor Oswald de Andrade, por exemplo, que antes o defendia, chegou a publicar um texto intitulado "As pinturas do coronel". Por causa de comentários como esse, o pintor desabafou a Mário, em outubro de 1944, quando estava próximo de concluir os murais para o ministério, depois de oito anos de trabalho: "Começaram a fazer um retrato meu bastante falso, dizendo que fiquei rico, que fiquei besta, que só recebo pessoas que me convêm, que vivo favorecido pelos meios oficiais e isso tudo é bem mentira. Continuo o mesmo, só que com menos fé no que faço e com a idéia de que estou doente. Essas duas coisas me perseguem dia e noite".

Em outro trecho, afirma ter tomado partido em tudo o que pintou: "Creio ter pintado fotograficamente o mundo que me rodeia – a gente pobre com os olhos doentes, com a cara estragada, com o corpo deformado – essa mesma gente se divertindo – se casando, tendo filhos e morrendo. Contrastando fiz gente bonita, com a pele tratada e bem maquiada com produtos da Rubinstein. Fiz tudo isso também com algum comentário". Na resposta, Mário tranqüiliza o amigo: "Ninguém é forte e de grande valor, sem ter a cachorrada lhe ganindo no calcanhar, inimigos frouxos e despeitados".

Para o sociólogo Sergio Miceli, professor da Universidade de São Paulo e autor do livro Imagens Negociadas, que estuda os retratos que Portinari realizou de figuras influentes e endinheiradas, as reclamações do pintor enquadram-se num contexto mais amplo do que o do mero sentimento pessoal. "Costumo dizer que a cooptação dos intelectuais é um dado estrutural da vida brasileira desde o Império. No caso de Portinari, não resta dúvida de que ele foi um artista oficial da era Vargas." Angustiado com as críticas de cunho político que considerava injustas, Portinari enxergou ressalvas a seu trabalho até mesmo num escrito de Mário de Andrade. A última carta escrita ao amigo foi datada de dezembro de 1944. Portinari, embora afetuoso, reclama de originais que acabava de ler: um ensaio que Mário escrevia sobre ele, para uma editora argentina especializada em artes plásticas. "Tem pedaços que tive vontade de perguntar se você é meu amigo ou amigo da onça", diz o pintor. Em sua resposta de 25 de dezembro, Mário – que vivia um período difícil, descrente da arte e dos amigos – reconhece que o ensaio não ficara bom e propõe: "Se quiser desistir, eu desisto junto, que já disse e repito: acho o meu escrito infecto". Mário de Andrade morreu pouco depois, em 25 de fevereiro de 1945. O texto acabou não sendo publicado nem refeito.

 

 
 
 
 
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