Edição 1811 . 16 de julho de 2003

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Cidades
Brasil high-tech

Indústria de software avança no país e é
usada até para revitalizar centros históricos


Diogo Schelp


Fotos Eduardo Queiroga/Ag. Lumiar

O Bairro do Recife, transformado em Porto Digital: 58 empresas e cerca de 1 000 profissionais

Entre os processos de revitalização de bairros históricos no país, o caso mais original é o do Bairro do Recife, no centro antigo da capital pernambucana. De 2001 para cá, o lugar de 400 anos deixou de ter movimento apenas noturno, nos bares instalados nos casarões restaurados, e voltou a ter vida também de dia. Hoje, nos armazéns centenários do cais do porto e nos prédios que no passado sediaram alfândega, repartições públicas e residências, trabalham 1.000 empregados de uma indústria responsável por 1% do PIB do Estado: a de software. Sob os paralelepípedos, 26 quilômetros de cabos de fibra ótica dão às 58 empresas de alta tecnologia ali instaladas acesso ao que há de mais moderno em tecnologia de transmissão de dados.

O Porto Digital, como é chamado, é um dos principais pólos de uma indústria que cresce no Brasil a 11% ao ano: a de desenvolvimento de programas de computador e soluções para informática. Essa indústria está pulverizada em uma dezena de pólos regionais, sempre próximos a universidades, que fornecem a mão-de-obra qualificada e fazem parcerias de pesquisa com empresas. O pólo recifense está intimamente ligado à Universidade Federal de Pernambuco, que tem um dos principais centros de estudos em informática do país.

Movimentando 7,7 bilhões de dólares por ano, o Brasil ainda está atrás de outros países em desenvolvimento, como a China (7,9 bilhões) e a Índia (8,2 bilhões), no mercado mundial de software. A produção indiana é mais conhecida internacionalmente porque tem o foco na exportação: o país asiático exporta 6,2 bilhões de dólares por ano em softwares, enquanto o Brasil mal passa dos 100 milhões. Um dos motivos, porém, é o tamanho do mercado brasileiro, que absorve praticamente toda a produção daqui.

Um estudo recente do Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos, sobre a produção de software brasileira, indiana e chinesa, mostrou que o Brasil precisa se organizar para conquistar espaço nesse mercado de 300 bilhões de dólares anuais, antes que o façam outros países em desenvolvimento, como Rússia, Filipinas, Argentina e México. "A indústria de softwares é interessante para países em desenvolvimento porque não exige investimentos altos em equipamentos e tem alta rentabilidade", afirma Giancarlo Stefanuto, coordenador do capítulo brasileiro da pesquisa do MIT. Outros setores, como o de componentes para computadores, requerem um investimento inicial muito alto e larga escala para ser rentáveis. "A tendência é os preços do hardware caírem cada vez mais, enquanto o lucro se concentra no mercado de softwares", diz Stefanuto.

Brasil, China e Índia têm vocação para o software porque dispõem da matéria-prima mais importante para produzir a baixo custo: mão-de-obra qualificada mas barata. O Brasil forma por ano 23.000 profissionais do setor. Só no software já trabalham no país 158.000 pessoas. Ainda é menos da metade do número da Índia, que tem uma vantagem competitiva – lá se fala inglês, o que facilita competir nos Estados Unidos. Mas já é o suficiente para revitalizar áreas como a do Recife.

 
 
 
 
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