Edição 1811 . 16 de julho de 2003

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Prazer e perigo


Diogo Schelp

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Você não gosta de ter suas opiniões contrariadas. Você sonha em se tornar alguém importante, alguém que faça as coisas acontecer. Você gosta de comidas exóticas, sexo variado, viagens a lugares que nunca visitou. Você se entedia com as tarefas repetitivas, quer traçar seu próprio destino, detesta que lhe digam a todo momento o que fazer e como fazer. Pois bem, você é um aventureiro, gosta de correr riscos. Graças a essa característica, a tendência para andar no limite da segurança, a humanidade avançou mais do que as outras espécies. O que são, afinal, os grandes cientistas, os grandes guerreiros, os empresários criativos e os inventores que idealizaram coisas novas senão pessoas que trocam o sedentarismo mental pela aventura? Parece inútil procurar o gene desse impulso numa cabra ou num camelo. Entre os homens e as mulheres, vê-se a todo instante a cintilação da aventura por trás de todas as atividades humanas. Talvez em nenhum campo isso seja mais visível do que nos chamados esportes radicais.

 
Claudio Rossi

"Flutuar entre as copas das árvores é uma das melhores sensações que já tive. Posso conhecer vários ambientes sem tocar os pés no solo."  
Wilton Feitosa, 34 anos, analista de sistemas de São Paulo, que pratica arvorismo

Seus praticantes são como os super-heróis do cinema. Num momento se vestem discretamente e podem ser vistos enfiados em tediosas reuniões, presos no trânsito ou fazendo compras no hipermercado. Quem os vê nos fins de semana nem os reconhece. Um, metido numa espécie de armadura futurista, pula de 5 000 metros de altura e retarda a abertura do pára-quedas até o ponto de sentir o vento deformando-lhe as bochechas. Outro, enrolado em tiras como uma múmia, amarra-se a um elástico pelos tornozelos e se atira num precipício, num vôo cuja última etapa, a freada a alguns metros do solo, faz enorme quantidade de sangue afluir para o cérebro. Há ainda os que, de impermeável e bote coloridos, seguem desgovernadamente sobre corredeiras, no meio do mato, entre pedras e redemoinhos.

Por que eles agem assim? Ou melhor, por que nós agimos assim – considerando que o número de praticantes amadores de esportes radicais cresce perto de 20% ao ano? O que procuram, nessas atividades que envolvem perigo real, pessoas que passam boa parte do tempo se preocupando com o preço do seguro-saúde, a eficiência da blindagem do carro ou até o risco de encontrar uma bala perdida? Há pelo menos 200 000 brasileiros levando essa vida dupla, de cidadão pacato durante a semana e destemido aventureiro aos sábados e domingos. Por que entramos em corridas de carro, por que andamos em montanhas-russas, por que saltamos de pára-quedas? Nós, seres humanos, nos metemos em aventuras gratuitas pelo simples prazer de correr perigo. O que fazemos, ou pelo menos o que muita gente faz, seria considerado pura estupidez ou sinal de loucura por nossos avós. Por que agimos assim?

"A natureza do ser humano explica esse comportamento", diz Ricardo de Figueiredo Lucena, especialista em história do esporte e professor da Universidade Federal de Pernambuco. "No fundo, apesar de todo o processo de civilização, o homem é um animal e precisa dar vazão a sensações e atitudes instintivas de alegria e violência que na sociedade de hoje só costumam ser bem-vistas no esporte." Segundo essa teoria, passamos grande parte do tempo reprimindo reações instintivas, sublimando desafios ou simplesmente submetidos a situações de tédio, quando não de medo. No código genético de cada ser humano ainda está escrito que, diante de um ataque, as opções são reagir com violência ou fugir. Mas no código social, que se sobrepõe, vigora a lei geral do engolimento de sapos, a mesma que nos faz acatar decisões que parecem injustas ou chamar o departamento de manutenção em vez de dar uns pontapés no equipamento que parou de funcionar. De vez em quando, alguém explode na disputa de uma vaga para estacionar no shopping. A maioria, porém, vai acumulando essas frustrações ou combatendo o stress com malhação, futebol e telenovelas.

 

DPPI/Michel Pissotte

"Quando a porta do avião abriu e olhei para baixo, gelei. Mas respirei fundo e joguei-me no ar. Ainda sinto muito medo. Se não sentisse, não teria a menor graça."
Álvaro Calheiros Neto, 25 anos, consultor em turismo do Recife, que pratica pára-quedismo

Alguns seres humanos conseguem enfrentar a aventura nos negócios ou no trabalho. Um cirurgião, abrindo o peito de um paciente para uma operação delicada que poderá salvar-lhe a vida, está no território da aventura e da adrenalina. O tripulante de um avião na guerra também está vivendo sua cota de aventura. Tem medo, pode morrer. Homens de negócio, aqueles que são empreendedores, costumam correr riscos que a maioria dos mortais mal se dá conta. A taxa de risco – e de fracasso – é muito alta entre os aventureiros que colocam seu capital ou o capital alheio numa aposta temerária contra a visão domesticada das pessoas a sua volta. É por isso que muitos desses homens ganham fortunas e perdem fortunas mais de uma vez. As pessoas que dão tudo pela segurança não conseguem entender por que um sujeito milionário não coloca todo seu dinheiro para render juros e, assim, viver no ócio até o fim de seus dias. É justamente por isso, o ócio. E lá vai o milionário arriscar seus milhões outra vez em mais uma aventura.

Para quem não tem milhões ou coragem suficiente para colocar a poupança em risco, sobram o parque de diversões, as aventuras amorosas, a competição no emprego, o enfrentamento social – e, claro, os esportes radicais, a tradução mais efetiva da necessidade que muitos têm de secretar adrenalina e sentir calafrios na barriga. Os novos radicais do esporte perigoso encontraram uma válvula de escape para essas tensões em atividades que, mesmo quando muito arriscadas, são feitas sob alto nível de controle. Com isso, chega-se a uma combinação – a do alto risco mas baixa incidência de acidentes – que permite curtir doses maciças de adrenalina num patamar estatisticamente seguro. "Essa é a característica principal dessas atividades", diz o especialista em sociologia do esporte Valter Bracht, professor da Universidade Federal do Espírito Santo. "Compram-se muita emoção e sensação de perigo, com a promessa do prazer imediato, mas no fundo se acredita que nada pode dar errado."

 

Jader da Rocha

"Isso me dá o maior prazer. É um privilégio controlar o medo e me sentir dono da situação."
Henrique Schimidlin, 72 anos, advogado de Curitiba, que pratica paragliding

Nos esportes em que o perigo é tamanho-família, como o automobilismo, encontram-se definições muito precisas do nível de prazer que se pode ter arriscando o pescoço. "O prazer que tive oportunidade de experimentar foi tão intenso que freqüentemente me apavorava", explicou certa vez o piloto escocês Jackie Stewart, tricampeão de Fórmula 1. O automobilismo, paradoxalmente, o fez gostar mais da vida "do que seria possível se tivesse feito qualquer outra coisa". Ayrton Senna, vítima desse amor pelo risco, dizia que a proximidade da morte era uma grande motivação para continuar competindo.

Tanto para profissionais como para radicais de fim de semana, tão perigoso quanto o esporte em si é o erro na dose de temeridade. Uma característica que às vezes nessas aventuras é chamada de síndrome de super-homem, aquela sensação de grande capacidade que ilude gente com uma vontade enorme de se exibir para o grupo e que pode resultar tanto em bolhas nos pés ou mãos cheias de estrepes quanto em acidentes mais graves, conforme a atividade. "Até esportistas experientes se machucam seriamente porque subestimam os riscos de um obstáculo", diz a médica do esporte Simone Kurotusche, especialista em medicina de áreas remotas.

 

Oscar Cabral

"O prazer de ter o corpo em queda livre é tão grande que não pensamos em nada. Não noto que estou amarrado pelos pés. É como se eu realmente saltasse sem nada me segurando."
Leonardo Dauari Mitrand, 22 anos, de Belo Horizonte, professor de ginástica, que pratica bungee jumping

A antropologia tem boas explicações para essa espécie de atração pelo abismo que anima tanta gente a sentir pelo menos um friozinho na barriga descendo uma montanha-russa. A sensação de risco, quando combinada com a tecnologia da segurança, ressuscita, sem o mesmo perigo, rituais de passagem que milênios atrás simbolizavam a aproximação do homem com o sagrado, com a imortalidade dos deuses. Esse é um princípio que rege qualquer aventura. Desde Ulisses, o herói da Odisséia, de Homero, escrita no século VI antes de Cristo, o homem se encanta com a figura do herói que passa por provações e desafios para se tornar uma pessoa melhor. Na lenda do rei Artur, um grupo de cavaleiros procurava um cálice sagrado que bem podia ser um significado para a existência humana. Melhor ainda que ler histórias ou ver filmes de ação no cinema é a possibilidade de agir de verdade e terminar a aventura com a sensação de ter dominado o medo. "O homem precisa desde sempre sentir que pode vencer os limites que o mundo impõe", diz Ligia Claudia Gomes de Souza, especialista em psicologia social.

A base dessas sensações é puramente química – e pode levar ao vício. Por isso se vê gente em práticas quase suicidas, saindo de um vôo de asa-delta para um mergulho no meio de tubarões. Em situações de perigo e de luta, o corpo produz um coquetel de substâncias entorpecentes ou estimulantes. A adrenalina aguça os sentidos e melhora o rendimento muscular. A serotonina estimula a motivação, a energia e a atenção. Na redução da dor, age a endorfina, enquanto a dopamina regula a atividade motora e as emoções. "Nas sociedades primitivas, o corpo passava por momentos de alta produção dessas substâncias com freqüência", diz o psiquiatra Marcos Tomanik Mercadante, da Universidade Mackenzie, de São Paulo. Assim, as pessoas modernas que entram em situações de risco por vontade própria estão manifestando certa saudade bioquímica e psicológica do passado remoto. Penduradas numa montanha por uma corda, estão conversando com seus ancestrais que enfrentavam feras com um pedaço de pau na mão. "Depois de descer de rapel uma cachoeira de 70 metros, a pessoa se senta e fica calada, observando o obstáculo, com a sensação de que vencê-lo tornou sua vida mais valiosa", afirma Marcelo Salazar, guia especializado em levar grupos de executivos para praticar esportes na natureza. É o que muita gente descreve como sentir-se vivo como nunca.

Praticamente todas as culturas têm rituais que simulam o enfrentamento da morte, num processo para valorizar a vida. As touradas são um exemplo. Terapeutas que recomendam esportes radicais a seus clientes partem desse princípio. Ao vencer o medo de saltar de pára-quedas, a pessoa aprende a lidar também com angústias da vida contemporânea – como o medo da violência urbana. "No esporte, o praticante vence diretamente esse medo, enquanto no dia-a-dia ele jamais vai se sentir triunfante só porque conseguiu chegar em casa, mais uma vez, sem ter sido seqüestrado", diz o psiquiatra Luis Cláudio Figueiredo, professor da Universidade de São Paulo.

Há algo de religioso na vitória sobre obstáculos perigosos. Isso não é uma figura de linguagem. O padre Wilton Araújo dos Santos, da cidade baiana de Paulo Afonso, uma das mecas dos esportes radicais no Brasil, crê que essas atividades fortalecem o caráter de quem as pratica. Elas aumentam a auto-estima, dão segurança, estimulam a solidariedade e promovem a espiritualidade. "A pessoa que aprende mais sobre seus limites entende quanto depende de outras pessoas e se dispõe a ajudar quem depende dela", resume o padre. "Além disso, quem não reflete sobre a Criação no fim de uma grande aventura?" O padre Wilton, de 37 anos, tem em sua paróquia garotos que praticam esportes radicais com o estímulo da igreja – e ele mesmo já andou fazendo rapel para sentir a mesma emoção da garotada.

Há quem identifique a necessidade de vigor físico da maioria dessas atividades como uma manifestação enviesada de masculinidade. Superar algum obstáculo, enfrentar uma prova dura, seria, por essa leitura, uma espécie de afirmação. "É como qualquer demonstração de poder que para ter validade precisa ser vista pelos outros ou narrada para os amigos", explica o psicólogo Marcelo Sodelli, diretor clínico do Núcleo de Estudos e Temas em Psicologia, de São Paulo. "Há quem conte suas proezas sexuais e existem os que se afirmam falando de sua coragem." O fato de haver milhões de mulheres no mundo também envolvidas em práticas esportivas com algum risco não atrapalha esse raciocínio. Essa seria uma manifestação do lado masculino das mulheres, como se vê também em disputas pelo poder, por exemplo. Elas não se tornam menos femininas com isso. Passam a ser mais aventureiras e, portanto, mais interessantes como pessoas que não gostam de conviver com um temperamento acomodado.

A tecnologia possibilitou a qualquer um viver alguma experiência radical. De um lado, deu um nível altíssimo de segurança a boa parte dessas atividades. De outro, criou facilidades para chegar a regiões isoladas, lindas e acidentadas. As duas coisas se combinaram para ajudar na popularização dessas práticas. A maioria das modalidades não exige muito tempo de treinamento. Pode-se praticar rafting, rapel e bungee jumping num mesmo fim de semana, depois de instruções básicas. Não é à toa que os esportes de aventura se tornaram aposta promissora do turismo no Brasil, graças a mais de 55 000 quilômetros de rios, extensas chapadas, cachoeiras em toda parte, 3 400 cavernas, 8 000 quilômetros de costa, a maior floresta tropical do planeta e montanhas de até 3 000 metros de altitude. As quatro maiores empresas especializadas em pacotes ecológicos ou de aventura foram procuradas, no ano passado, por 20 000 pessoas. "Como é um mercado muito pulverizado, estimamos que isso represente apenas 10% do total do turismo de aventura", diz Edgar Werblowsky, diretor da FreeWay Adventures, uma das principais operadoras do ramo. Uma pesquisa feita pela Embratur na Adventure Sports Fair, feira anual de aventura em São Paulo, que recebeu 82 000 pessoas na última edição, revelou que quase metade dos visitantes praticava esportes radicais. Mas 90% sonhavam realizar alguma aventura do tipo.

Para quem precisa de razões sociais mais do que físicas ou químicas para justificar suas atividades esportivas, também é fácil achar motivação. Na família, por exemplo, essas práticas têm ótimo efeito de valorização. "Elas dão aos pais a possibilidade de mostrar aos filhos os grandes heróis que são", explica José Zuquim, diretor da Ambiental Expedições, operadora especializada em ecoturismo. No grupo de amigos, imagine-se, para quem passou o domingo levando o cãozinho para passear, o efeito que resulta a pergunta de um amigo: "Neste fim de semana eu fiz rapel numa cachoeira de 90 metros. E você?".

A vida nos séculos anteriores trazia mais desafios e riscos. Viajar significava atravessar quilômetros a cavalo ou imensidões do mar em barcos a vela. Caçava-se. Terras eram desbravadas por pioneiros, povos de regiões longínquas recebiam a visita de missionários, exploradores e aventureiros. As enchentes, as tempestades e o frio faziam vítimas rotineiramente. O mundo moderno tem suas violências, mas a tecnologia tornou a humanidade mais sedentária e as rotinas mais previsíveis. Até as guerras são hoje mais assépticas. Num mundo assim, não admira que o anseio pela aventura artificial seja crescente. Com bastante segurança, vá lá. Mas com toda a descarga de adrenalina a que o ser humano sempre se acostumou.

 

Com reportagem de Adriana Negreiros

 



 
 
 
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