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Especial
Prazer
e perigo

Diogo
Schelp
Você
não gosta de ter suas opiniões contrariadas. Você
sonha em se tornar alguém importante, alguém que faça
as coisas acontecer. Você gosta de comidas exóticas,
sexo variado, viagens a lugares que nunca visitou. Você se
entedia com as tarefas repetitivas, quer traçar seu próprio
destino, detesta que lhe digam a todo momento o que fazer e como
fazer. Pois bem, você é um aventureiro, gosta de correr
riscos. Graças a essa característica, a tendência
para andar no limite da segurança, a humanidade avançou
mais do que as outras espécies. O que são, afinal,
os grandes cientistas, os grandes guerreiros, os empresários
criativos e os inventores que idealizaram coisas novas senão
pessoas que trocam o sedentarismo mental pela aventura? Parece inútil
procurar o gene desse impulso numa cabra ou num camelo. Entre os
homens e as mulheres, vê-se a todo instante a cintilação
da aventura por trás de todas as atividades humanas. Talvez
em nenhum campo isso seja mais visível do que nos chamados
esportes radicais.
Claudio Rossi
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"Flutuar
entre as copas das árvores é uma das melhores sensações que
já tive. Posso conhecer vários ambientes sem tocar os pés
no solo."
Wilton Feitosa, 34 anos, analista de sistemas de São Paulo,
que pratica arvorismo
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Seus
praticantes são como os super-heróis do cinema. Num
momento se vestem discretamente e podem ser vistos enfiados em tediosas
reuniões, presos no trânsito ou fazendo compras no
hipermercado. Quem os vê nos fins de semana nem os reconhece.
Um, metido numa espécie de armadura futurista, pula de 5
000 metros de altura e retarda a abertura do pára-quedas
até o ponto de sentir o vento deformando-lhe as bochechas.
Outro, enrolado em tiras como uma múmia, amarra-se a um elástico
pelos tornozelos e se atira num precipício, num vôo
cuja última etapa, a freada a alguns metros do solo, faz
enorme quantidade de sangue afluir para o cérebro. Há
ainda os que, de impermeável e bote coloridos, seguem desgovernadamente
sobre corredeiras, no meio do mato, entre pedras e redemoinhos.
Por
que eles agem assim? Ou melhor, por que nós agimos assim
considerando que o número de praticantes amadores
de esportes radicais cresce perto de 20% ao ano? O que procuram,
nessas atividades que envolvem perigo real, pessoas que passam boa
parte do tempo se preocupando com o preço do seguro-saúde,
a eficiência da blindagem do carro ou até o risco de
encontrar uma bala perdida? Há pelo menos 200 000 brasileiros
levando essa vida dupla, de cidadão pacato durante a semana
e destemido aventureiro aos sábados e
domingos. Por que entramos em corridas de carro, por que andamos
em montanhas-russas, por que saltamos de pára-quedas? Nós,
seres humanos, nos metemos em aventuras gratuitas pelo simples prazer
de correr perigo. O que fazemos, ou pelo menos o que muita gente
faz, seria considerado pura estupidez ou sinal de loucura por nossos
avós. Por que agimos assim?
"A
natureza do ser humano explica esse comportamento", diz Ricardo
de Figueiredo Lucena, especialista em história do esporte
e professor da Universidade Federal de Pernambuco. "No fundo, apesar
de todo o processo de civilização, o homem é
um animal e precisa dar vazão a sensações e
atitudes instintivas de alegria e violência que na sociedade
de hoje só costumam ser bem-vistas no esporte." Segundo essa
teoria, passamos grande parte do tempo reprimindo reações
instintivas, sublimando desafios ou simplesmente submetidos a situações
de tédio, quando não de medo. No código genético
de cada ser humano ainda está escrito que, diante de um ataque,
as opções são reagir com violência ou
fugir. Mas no código social, que se sobrepõe, vigora
a lei geral do engolimento de sapos, a mesma que nos faz acatar
decisões que parecem injustas ou chamar o departamento de
manutenção em vez de dar uns pontapés no equipamento
que parou de funcionar. De vez em quando, alguém explode
na disputa de uma vaga para estacionar no shopping. A maioria, porém,
vai acumulando essas frustrações ou combatendo o stress
com malhação, futebol e telenovelas.
DPPI/Michel Pissotte
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"Quando
a porta do avião abriu e olhei para baixo, gelei. Mas respirei
fundo e joguei-me no ar. Ainda sinto muito medo. Se não sentisse,
não teria a menor graça."
Álvaro Calheiros Neto, 25 anos, consultor em turismo do Recife,
que pratica pára-quedismo
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Alguns
seres humanos conseguem enfrentar a aventura nos negócios
ou no trabalho. Um cirurgião, abrindo o peito de um paciente
para uma operação delicada que poderá salvar-lhe
a vida, está no território da aventura e da adrenalina.
O tripulante de um avião na guerra também está
vivendo sua cota de aventura. Tem medo, pode morrer. Homens de negócio,
aqueles que são empreendedores, costumam correr riscos que
a maioria dos mortais mal se dá conta. A taxa de risco
e de fracasso é muito alta entre os aventureiros que
colocam seu capital ou o capital alheio numa aposta temerária
contra a visão domesticada das pessoas a sua volta. É
por isso que muitos desses homens ganham fortunas e perdem fortunas
mais de uma vez. As pessoas que dão tudo pela segurança
não conseguem entender por que um sujeito milionário
não coloca todo seu dinheiro para render juros e, assim,
viver no ócio até o fim de seus dias. É justamente
por isso, o ócio. E lá vai o milionário arriscar
seus milhões outra vez em mais uma aventura.
Para quem não tem milhões ou coragem suficiente para
colocar a poupança em risco, sobram o parque de diversões,
as aventuras amorosas, a competição no emprego, o
enfrentamento social e, claro, os esportes radicais, a tradução
mais efetiva da necessidade que muitos têm de secretar adrenalina
e sentir calafrios na barriga. Os novos radicais do esporte perigoso
encontraram uma válvula de escape para essas tensões
em atividades que, mesmo quando muito arriscadas, são feitas
sob alto nível de controle. Com isso, chega-se a uma combinação
a do alto risco mas baixa incidência de acidentes
que permite curtir doses maciças de adrenalina num patamar
estatisticamente seguro. "Essa é a característica
principal dessas atividades", diz o especialista em sociologia do
esporte Valter Bracht, professor da Universidade Federal do Espírito
Santo. "Compram-se muita emoção e sensação
de perigo, com a promessa do prazer imediato, mas no fundo se acredita
que nada pode dar errado."
Jader da Rocha
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"Isso
me dá o maior prazer. É um privilégio controlar o medo e me
sentir dono da situação."
Henrique Schimidlin, 72 anos, advogado de Curitiba, que pratica
paragliding
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Nos
esportes em que o perigo é tamanho-família, como o
automobilismo, encontram-se definições muito precisas
do nível de prazer que se pode ter arriscando o pescoço.
"O prazer que tive oportunidade de experimentar foi tão intenso
que freqüentemente me apavorava", explicou certa vez o piloto
escocês Jackie Stewart, tricampeão de Fórmula
1. O automobilismo, paradoxalmente, o fez gostar mais da vida "do
que seria possível se tivesse feito qualquer outra coisa".
Ayrton Senna, vítima desse amor pelo risco, dizia que a proximidade
da morte era uma grande motivação para continuar competindo.
Tanto para profissionais como para radicais de fim de semana, tão
perigoso quanto o esporte em si é o erro na dose de temeridade.
Uma característica que às vezes nessas aventuras é
chamada de síndrome de super-homem, aquela sensação
de grande capacidade que ilude gente com uma vontade enorme de se
exibir para o grupo e que pode resultar tanto em bolhas nos pés
ou mãos cheias de estrepes quanto em acidentes mais graves,
conforme a atividade. "Até esportistas experientes se machucam
seriamente porque subestimam os riscos de um obstáculo",
diz a médica do esporte Simone Kurotusche, especialista em
medicina de áreas remotas.
Oscar Cabral
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"O
prazer de ter o corpo em queda livre é tão grande que não
pensamos em nada. Não noto que estou amarrado pelos pés. É
como se eu realmente saltasse sem nada me segurando."
Leonardo Dauari Mitrand, 22 anos, de Belo Horizonte, professor
de ginástica, que pratica bungee jumping
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A
antropologia tem boas explicações para essa espécie
de atração pelo abismo que anima tanta gente a sentir
pelo menos um friozinho na barriga descendo uma montanha-russa.
A sensação de risco, quando combinada com a tecnologia
da segurança, ressuscita, sem o mesmo perigo, rituais de
passagem que milênios atrás simbolizavam a aproximação
do homem com o sagrado, com a imortalidade dos deuses. Esse é
um princípio que rege qualquer aventura. Desde Ulisses, o
herói da Odisséia, de Homero, escrita no século
VI antes de Cristo, o homem se encanta com a figura do herói
que passa por provações e desafios para se tornar
uma pessoa melhor. Na lenda do rei Artur, um grupo de cavaleiros
procurava um cálice sagrado que bem podia ser um significado
para a existência humana. Melhor ainda que ler histórias
ou ver filmes de ação no cinema é a possibilidade
de agir de verdade e terminar a aventura com a sensação
de ter dominado o medo. "O homem precisa desde sempre sentir que
pode vencer os limites que o mundo impõe", diz Ligia Claudia
Gomes de Souza, especialista em psicologia social.
A base dessas sensações é puramente química
e pode levar ao vício. Por isso se vê gente
em práticas quase suicidas, saindo de um vôo de asa-delta
para um mergulho no meio de tubarões. Em situações
de perigo e de luta, o corpo produz um coquetel de substâncias
entorpecentes ou estimulantes. A adrenalina aguça os sentidos
e melhora o rendimento muscular. A serotonina estimula a motivação,
a energia e a atenção. Na redução da
dor, age a endorfina, enquanto a dopamina regula a atividade motora
e as emoções. "Nas sociedades primitivas, o corpo
passava por momentos de alta produção dessas substâncias
com freqüência", diz o psiquiatra Marcos Tomanik Mercadante,
da Universidade Mackenzie, de São Paulo. Assim, as pessoas
modernas que entram em situações de risco por vontade
própria estão manifestando certa saudade bioquímica
e psicológica do passado remoto. Penduradas numa montanha
por uma corda, estão conversando com seus ancestrais que
enfrentavam feras com um pedaço de pau na mão. "Depois
de descer de rapel uma cachoeira de 70 metros, a pessoa se senta
e fica calada, observando o obstáculo, com a sensação
de que vencê-lo tornou sua vida mais valiosa", afirma Marcelo
Salazar, guia especializado em levar grupos de executivos para praticar
esportes na natureza. É o que muita gente descreve como sentir-se
vivo como nunca.
Praticamente todas as culturas têm rituais que simulam o enfrentamento
da morte, num processo para valorizar a vida. As touradas são
um exemplo. Terapeutas que recomendam esportes radicais a seus clientes
partem desse princípio. Ao vencer o medo de saltar de pára-quedas,
a pessoa aprende a lidar também com angústias da vida
contemporânea como o medo da violência urbana.
"No esporte, o praticante vence diretamente esse medo, enquanto
no dia-a-dia ele jamais vai se sentir triunfante só porque
conseguiu chegar em casa, mais uma vez, sem ter sido seqüestrado",
diz o psiquiatra Luis Cláudio Figueiredo, professor da Universidade
de São Paulo.
Há algo de religioso na vitória sobre obstáculos
perigosos. Isso não é uma figura de linguagem. O padre
Wilton Araújo dos Santos, da cidade baiana de Paulo Afonso,
uma das mecas dos esportes radicais no Brasil, crê que essas
atividades fortalecem o caráter de quem as pratica. Elas
aumentam a auto-estima, dão segurança, estimulam a
solidariedade e promovem a espiritualidade. "A pessoa que aprende
mais sobre seus limites entende quanto depende de outras pessoas
e se dispõe a ajudar quem depende dela", resume o padre.
"Além disso, quem não reflete sobre a Criação
no fim de uma grande aventura?" O padre Wilton, de 37 anos, tem
em sua paróquia garotos que praticam esportes radicais com
o estímulo da igreja e ele mesmo já andou fazendo
rapel para sentir a mesma emoção da garotada.
Há quem identifique a necessidade de vigor físico
da maioria dessas atividades como uma manifestação
enviesada de masculinidade. Superar algum obstáculo, enfrentar
uma prova dura, seria, por essa leitura, uma espécie de afirmação.
"É como qualquer demonstração de poder que
para ter validade precisa ser vista pelos outros ou narrada para
os amigos", explica o psicólogo Marcelo Sodelli, diretor
clínico do Núcleo de Estudos e Temas em Psicologia,
de São Paulo. "Há quem conte suas proezas sexuais
e existem os que se afirmam falando de sua coragem." O fato de haver
milhões de mulheres no mundo também envolvidas em
práticas esportivas com algum risco não atrapalha
esse raciocínio. Essa seria uma manifestação
do lado masculino das mulheres, como se vê também em
disputas pelo poder, por exemplo. Elas não se tornam menos
femininas com isso. Passam a ser mais aventureiras e, portanto,
mais interessantes como pessoas que não gostam de conviver
com um temperamento acomodado.
A tecnologia possibilitou a qualquer um viver alguma experiência
radical. De um lado, deu um nível altíssimo de segurança
a boa parte dessas atividades. De outro, criou facilidades para
chegar a regiões isoladas, lindas e acidentadas. As duas
coisas se combinaram para ajudar na popularização
dessas práticas. A maioria das modalidades não exige
muito tempo de treinamento. Pode-se praticar rafting, rapel e bungee
jumping num mesmo fim de semana, depois de instruções
básicas. Não é à toa que os esportes
de aventura se tornaram aposta promissora do turismo no Brasil,
graças a mais de 55 000 quilômetros de rios, extensas
chapadas, cachoeiras em toda parte, 3 400 cavernas, 8 000 quilômetros
de costa, a maior floresta tropical do planeta e montanhas de até
3 000 metros de altitude. As quatro maiores empresas especializadas
em pacotes ecológicos ou de aventura foram procuradas, no
ano passado, por 20 000 pessoas. "Como é um mercado muito
pulverizado, estimamos que isso represente apenas 10% do total do
turismo de aventura", diz Edgar Werblowsky, diretor da FreeWay Adventures,
uma das principais operadoras do ramo. Uma pesquisa feita pela Embratur
na Adventure Sports Fair, feira anual de aventura em São
Paulo, que recebeu 82 000 pessoas na última edição,
revelou que quase metade dos visitantes praticava esportes radicais.
Mas 90% sonhavam realizar alguma aventura do tipo.
Para quem precisa de razões sociais mais do que físicas
ou químicas para justificar suas atividades esportivas, também
é fácil achar motivação. Na família,
por exemplo, essas práticas têm ótimo efeito
de valorização. "Elas dão aos pais a possibilidade
de mostrar aos filhos os grandes heróis que são",
explica José Zuquim, diretor da Ambiental Expedições,
operadora especializada em ecoturismo. No grupo de amigos, imagine-se,
para quem passou o domingo levando o cãozinho para passear,
o efeito que resulta a pergunta de um amigo: "Neste fim de semana
eu fiz rapel numa cachoeira de 90 metros. E você?".
A vida nos séculos anteriores trazia mais desafios e riscos.
Viajar significava atravessar quilômetros a cavalo ou imensidões
do mar em barcos a vela. Caçava-se. Terras eram desbravadas
por pioneiros, povos de regiões longínquas recebiam
a visita de missionários, exploradores e aventureiros. As
enchentes, as tempestades e o frio faziam vítimas rotineiramente.
O mundo moderno tem suas violências, mas a tecnologia tornou
a humanidade mais sedentária e as rotinas mais previsíveis.
Até as guerras são hoje mais assépticas. Num
mundo assim, não admira que o anseio pela aventura artificial
seja crescente. Com bastante segurança, vá lá.
Mas com toda a descarga de adrenalina a que o ser humano sempre
se acostumou.
Com
reportagem de Adriana Negreiros
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