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Previdência
A
reforma que
virou novela
Com
servidores em greve,
o governo recua na mudança da Previdência, ouve gritaria de aliados
–
e já pensa em voltar atrás de novo

Maurício
Lima
A
aposentadoria integral é um luxo em qualquer lugar do mundo.
Existe em países árabes ricos em petróleo,
no Equador e em algumas nações africanas. Em países
adiantados, os aposentados ganham bem, mas, em média, o provento
equivale a 75% do salário da ativa. Quem deseja aposentar-se
com o salário da ativa tem de recorrer a um plano de previdência
privada. No Brasil, as coisas funcionam como nos países árabes
para a corporação dos funcionários públicos.
Até hoje, eles se aposentam com os mesmíssimos salários
que recebiam na ativa, um privilégio que nenhum trabalhador
da iniciativa privada ganha ao vestir o pijama. Quem paga a conta
é o cidadão comum. O déficit da Previdência
pública é o maior fator de instabilidade nas contas
do Brasil e foi por esses motivos privilégio corporativo
e déficit público que o governo Luiz Inácio
Lula da Silva mandou um projeto de reforma previdenciária
ao Congresso. Queria acabar com a injustiça contra o trabalhador
da iniciativa privada, ao mesmo tempo que reduzia o rombo na contabilidade
governamental.
Pois bem: foi só o governo falar em reformar a Previdência
brasileira, para pôr um fim a esse tratamento injusto em favor
dos funcionários, que o mundo desabou. O Judiciário
promoveu reuniões para se agarrar aos antigos privilégios
e até o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro
Maurício Corrêa, saiu a campo para dizer que a função
dos juízes exige salário integral mesmo quando eles
estão aposentados. Além disso, exigiu-se a concessão
de aumento aos inativos toda vez que os funcionários da ativa
tiverem o salário reajustado. Também para defender
o privilégio dos funcionários, promoveu-se uma greve
de servidores de norte a sul do Brasil, com adesão parcial
da categoria. Bandeira da greve: retirar o projeto de reforma do
Congresso. Para sempre.
Devido a essa movimentação, parecia condenado ao malogro,
na semana passada, o plano de reforma enviado aos parlamentares
pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva. Pressionado pelo
Judiciário e pela greve dos funcionários, o governo
começou a fazer concessão atrás de concessão.
Em conversas de bastidores, já abrira mão do teto
de 2.400 reais por mês para aposentadoria de qualquer brasileiro,
fosse ele da iniciativa privada ou do serviço público.
Não apenas isso. Representantes do governo já davam
sinais de que também aceitavam pagar salários integrais
aos futuros servidores, eternamente. Ou seja, teriam direito à
integralidade até mesmo aqueles que nem sequer prestaram
concurso para se tornar funcionários. Na quinta-feira, o
panorama mudou inesperadamente.
Gritaram os governadores, irritados com o Palácio do Planalto
por não ter sido consultados sobre a mudança da proposta
original, previamente chancelada por eles. Gritaram petistas fidelíssimos
ao governo, como José Genoíno, presidente do PT, e
Luiz Marinho, líder da CUT. Gritaram até membros do
governo, como o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que não
quer modificações no projeto original. "Estamos abertos
a modificações, mas elas não podem ser tomadas
unilateralmente", reclamava o governador mineiro Aécio Neves.
"Não podemos romper a confiança entre governo federal
e governos estaduais."
Na proposta original, negociada com os governadores e solenemente
entregue por todos ao Congresso, inclusive com a presença
do presidente da República, os aposentados do serviço
público passariam a ganhar, no máximo, 2.400 reais,
mesmo valor fixado para aposentados na iniciativa privada. "Estamos
matando a reforma", protestou o deputado Roberto Brant ao se referir
à volta da aposentadoria integral, com a autoridade de quem
já foi ministro da Previdência e hoje preside a comissão
especial que estuda a reforma na Câmara. "O governo não
podia ceder tanto", reagiu José Genoíno, presidente
do PT, insatisfeito com a maleabilidade do Palácio do Planalto
diante das pressões do Judiciário e do funcionalismo.
No fim da semana, o governo parecia ter entendido a confusão
que armara e preparava um movimento inusitado: o recuo do
recuo. Com isso, a bandeira da reforma ganhou um novo impulso e
isso é um fato positivo para a credibilidade do governo e
para a estabilidade das finanças públicas.
Quando se vêem greves como a da semana passada, é útil
examinar mais de perto o que acontece no serviço público.
Em primeiro lugar, os servidores são muito bem remunerados
para a realidade brasileira. Em média, o salário de
um servidor é 251% maior que a renda per capita do país.
Nem na França, meca do funcionalismo público, os salários
chegam a um desnível tão grande: os vencimentos dos
servidores franceses são 204% maiores que a renda per capita
do país. A estabilidade no emprego é outra mamata
rara no mundo. Uma emenda, aprovada em 1998, flexibilizou a estabilidade
dos servidores brasileiros, permitindo a demissão por incompetência
ou excesso de despesa, mas a emenda até hoje não foi
regulamentada.
Existem servidores demitidos por excesso de despesa, mas isso decorre
da Lei de Responsabilidade Fiscal, que estabelece limite de gastos
com a folha salarial. Achar um servidor demitido por incompetência,
porém, é tarefa de gincana. Em 1995, o governo até
criou um sistema de avaliação não para
demitir, apenas para estimar se o funcionário merece uma
gratificaçãozinha a mais. Em algumas repartições,
o sistema virou uma piada. Os técnicos da Receita Federal,
por exemplo, são avaliados por seus chefes a cada três
meses. A nota máxima é 51. A mínima
acreditem é 50. As duas notas dão direito a
um troco a mais no fim do mês. Resultado: ninguém é
realmente avaliado e todos embolsam uns caraminguás a mais.
No Ministério do Planejamento, as notas vão de 10
a 100. Parece razoável, mas não é. Uma restrição
orçamentária impede o chefe de dar média de
avaliação superior a 60 pontos para seus subordinados.
Portanto, se o chefe tem três servidores e um deles é
excelente (ganha 100 pontos) e outro é bom (leva 60 pontos),
o terceiro terá, necessariamente, de receber 20 pontos para
não ultrapassar a média. O que os chefes fazem? Dão
60 pontos a todos, e fim de discussão.
De 1980 para cá, desde que se criou a Escola Nacional de
Administração Pública (Enap), alguma coisa
melhorou. A Enap, nesse período, treinou 160.000 funcionários,
ministrando cursos de capacitação, requalificação
e gestão. Mas é pouco. Só para comparar: a
École Nationale d'Administration, a Enap francesa, também
treinou 160.000 servidores, mas em dois anos. Para fazer o mesmo,
o Brasil precisou de quase duas décadas e meia. O consolo
é que o Palácio do Planalto ainda pode corrigir esses
defeitos e, sobretudo, evitar o desastre de renunciar à reforma
previdenciária. Tempo ainda há.
Paulo Lieber/AE
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Berzoini: onde está o discurso de promover
a "justiça previdenciária"? |
Para
entender o movimento de vai-e-vem do governo, basta acompanhar os
acertos de bastidores que vinham sendo combinados nas últimas
semanas. Há quinze dias, os ministros José Dirceu,
da Casa Civil, e Ricardo Berzoini, da Previdência, começaram
uma discreta negociação com membros do Judiciário,
sindicalistas do funcionalismo e líderes políticos.
De início, os ministros entenderam que obteriam um bom naco
de votos no Congresso em favor da reforma caso aliviassem o corte
nas pensões pagas aos dependentes dos servidores, e assim
foi feito. Antes, as pensões sofreriam, todas, corte de 30%.
Agora, a tesourada ficaria maior, de 50%, mas incidindo apenas sobre
o que exceder 2 400 reais. Em seguida, concordaram em manter a aposentadoria
integral, aumentando a idade mínima de vestir o pijama e,
ainda, exigindo que o servidor passe pelo menos vinte anos na mesma
carreira do serviço público e não mais
dez, apenas. O outro ponto em discussão foi a taxação
dos inativos. Aí, porém, pelo menos aí, os
ministros não arredaram pé. A proposta continuou prevendo
que os inativos passarão a contribuir com a Previdência
Social, com uma alíquota de 11% sobre a parcela dos proventos
que excede 1 058 reais.
Com seus recuos, o governo prejudicou sua credibilidade, com repercussão
nos mercados internacionais e no próprio plano político
interno. Quem, de agora em diante, garante que, se bem pressionado,
o Palácio do Planalto não volta atrás na reforma
tributária? Ou em qualquer outra coisa? Na semana passada,
o ministro Ricardo Berzoini, numa tentativa de atenuar o salseiro,
fez questão de dizer que a aposentadoria integral não
criaria um rombo financeiro nas contas da Previdência. Pelos
cálculos oficiais, contabilizando-se os gastos previdenciários
com os servidores do Executivo, apenas do Executivo, o governo economizaria
17,2 bilhões de reais até 2010, mantido o projeto
original. Com as aposentadorias integrais, a economia cairia para
16,5 bilhões, ou seja, apenas 700 milhões de reais
a menos.
O total economizado pelo governo sofreria perdas pequenas devido,
segundo o governo, às compensações criadas
na negociação, como o aumento da idade mínima
e o tempo de serviço para aposentadoria. Além disso,
os futuros servidores públicos, para ter direito à
aposentadoria integral, teriam de trabalhar cinco anos a mais que
os atuais servidores aposentando-se aos 60 anos (mulheres)
e aos 65 (homens). Considerando que a queda na economia seja fiel
à realidade, resta saber por que o governo não apresentou
essa proposta logo no início. Uma alternativa possível
é que o governo pretendia, como vinha dizendo, criar um sistema
previdenciário mais justo, que não tivesse cidadãos
de primeira e segunda classe um ideal que, mantidos os recuos
da semana passada, teria virado pó.
Ao decretar a primeira greve sob o governo Lula, os líderes
sindicais do funcionalismo conseguiram adesão de cerca de
50% da categoria, na melhor das hipóteses. É um saldo
inferior à paralisação anterior, realizada
em novembro de 2001, quando 70% dos servidores cruzaram os braços
e, em algumas cidades, a adesão chegou a 100%. Ainda assim,
a influência da greve sobre o Planalto parece ter sido grande,
já que os primeiros recuos públicos do projeto original
se deram no segundo dia da paralisação. Com a ação
enérgica dos governadores para a manutenção
da reforma nos termos em que foi combinada inicialmente, a questão
pode ser reaberta de novo, em favor de uma mudança radical
no sistema de Previdência. E é justamente isso que
o país quer. Segundo pesquisas, a maioria da sociedade é
a favor da reforma previdenciária. Na semana passada, essa
corrente majoritária foi ouvida novamente.
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