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Conjuntura
No
fundo do poço
Com
servidores em greve,
o governo recua na mudança da Previdência, ouve gritaria de aliados
– e já pensa em voltar atrás de novo

Maurício
Lima
Ayrton Vignola/Folha Imagem
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| Pátio
lotado em São
Bernardo, no
início do mês:
venda caiu 5%
no semestre |
Ninguém
de bom senso poderia esperar um primeiro semestre próspero
para o Brasil. Juros nas alturas, desemprego em alta e renda em
queda só podiam resultar em redução acentuada
no consumo e na produção. Na semana passada, entretanto,
uma enxurrada de más notícias desenhou um quadro mais
sombrio do que as piores previsões permitiam supor. O produto
interno bruto (PIB), que é a soma de tudo o que o país
produz em bens e serviços, recuou pelo segundo trimestre
consecutivo, na projeção do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), ligado ao Ministério do
Planejamento. Os dados do Ipea para o período de abril a
junho mostram ainda que persiste a queda na renda das famílias,
ininterrupta desde meados de 2001. Na seqüência do inferno
astral nacional, a inflação de junho, medida pelo
índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA),
do IBGE, ficou negativa pela primeira vez desde 1998, o que significa
que as empresas não têm mais espaço para aumentar
preços. A tendência de deflação foi confirmada
pela Fipe na sexta-feira passada: na primeira prévia a inflação
de julho mostrou recuo de 0,25% pela segunda vez consecutiva.
Os analistas até divergem quanto ao uso do termo recessão
embora tecnicamente ele se justifique pelo recuo do PIB em
dois trimestres seguidos. Mas ninguém tem dúvida de
que o país chegou ao fundo do poço. A indústria
brasileira, que já vinha devagar, quase parando, cresceu,
até maio, o pífio porcentual de 0,48% em relação
ao ano passado. E não se deve esquecer que nesse porcentual
está incluído o que se produziu para exportação,
um dos solitários setores a manter a chama acesa. A estagnação
da produção industrial é particularmente preocupante
quando se observam os produtos que mais contribuíram para
esse resultado. Foram justamente os chamados bens de consumo que
tiveram queda na produção: automóveis, eletrodomésticos,
roupas, calçados e remédios, por exemplo (veja
quadro). Isso confirma que a perda de poder de compra
do consumidor já obrigou as empresas a pisar fundo no freio.
A indústria automobilística teve o pior mês
de junho em dez anos. A de eletroeletrônicos, uma das que
mais se beneficiaram da estabilização da economia
depois de 1994, enfrenta o terceiro ano consecutivo de queda. "Estamos
voltando a níveis pré-real", diz Paulo Saab, presidente
da Eletros, entidade que reúne as 25 maiores companhias do
setor, responsáveis por 98% da produção brasileira
de eletrodomésticos, aparelhos de som e televisores.
É
um ciclo perverso. Em quase todos os setores há registro
de férias coletivas antecipadas, suspensão de turnos
de trabalho e expectativa de demissões que, se confirmadas,
realimentarão a espiral negativa com renda, consumo e produção
ainda mais baixos. De 360 empresas ouvidas pela Fundação
Getúlio Vargas no início deste mês, 27% tencionam
demitir nos próximos seis meses, e apenas 15% pretendem contratar.
A pesquisa revela que o pessimismo está em alta. Em janeiro,
o mesmo levantamento apontava que 6% das companhias esperavam uma
piora nos seis meses seguintes. Agora, para o segundo semestre,
esse porcentual pulou para 21%. O coordenador da pesquisa, Aloisio
Campelo, acentua que esse é o resultado mais pessimista desde
2000. Não é só uma questão de opinião.
Em razão do pessimismo, as companhias adotam uma atitude
de paralisia nos investimentos. "As empresas tomam providências
de acordo com essas estimativas e acabam tendo um resultado pior
que o esperado", diz José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente
da General Motors do Brasil, empresa que adotou férias coletivas
em algumas unidades de sua fábrica em São José
dos Campos.
Claudio Rossi
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| Liquidação
em loja
de São Paulo: comércio de luxo em
crise |
Efeito
dominó Uma situação como essa contamina
todas as esferas de atividade do país. Os sinais da crise
e da reação a ela são visíveis
nas ruas, na fábrica de automóveis, na lanchonete,
no cabeleireiro, no shopping, no supermercado (veja
quadro).
O grupo Pão de Açúcar resolveu enfrentar a
situação jogando duro na negociação
com os fornecedores. Pressiona por preços mais baixos para
não onerar o consumidor final. O grupo também está
apostando em marcas mais baratas. Coloca em produtos selecionados
por esses critérios os selos "Menor Preço" e "Escolha
Econômica". A maior rede de supermercados do país deu
início ao projeto em abril do ano passado, com apenas vinte
produtos. Hoje, 600 itens estão selados. No grupo Sendas,
que tem 74 supermercados no Rio de Janeiro, as marcas próprias
Sendas e Mais em Conta, que têm preços até 40%
mais baixos que os das marcas líderes, já estão
em mais de 1.000 dos 11.000 itens vendidos na rede. "É preciso
adaptar-se ao poder de compra do consumidor", diz Nelson Sendas,
vice-presidente da empresa. A falta de dinheiro alimenta índices
crescentes de inadimplência. No primeiro semestre, o número
de pessoas e empresas que não conseguiram pagar suas dívidas
aumentou 3,5% em relação ao mesmo período do
ano passado, segundo a Serasa, instituição que mede
o volume de cheques sem fundos, protestos de títulos e outros
indicadores da pindaíba nacional.
Olhado isoladamente, como uma fotografia, o quadro é apavorante.
Observada na perspectiva do tempo, como um filme, a situação
é menos grave, principalmente para um país que já
sobreviveu a tantos solavancos. Basta lembrar o cenário que
se desenhava para o país no segundo semestre do ano passado
para perceber isso. A insegurança quanto aos rumos da economia
no caso de vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na
eleição presidencial fazia vislumbrar o caos para
2003, com dólar a 4 reais, inflação fora de
controle e risco-país na estratosfera. Essas previsões
foram contornadas e, depois, anuladas porque o presidente Lula bancou
uma política econômica austera, sem pirotecnias. O
problema é que na economia, como na vida, é impossível
ter o melhor de dois mundos. Inflação baixa com crescimento
é uma conjugação das mais difíceis.
E o governo optou por atacar o mal maior, o recrudescimento da inflação,
que se anunciava antes da posse de Lula. Para isso, precisou manter
os juros em níveis muito altos. A queda acentuada na atividade
econômica no primeiro semestre é o preço que
o país paga por essa escolha. Um preço que não
pode ser considerado alto demais, afirma o ex-ministro da Fazenda
Mailson da Nóbrega. "Se não tivéssemos feito
isso, estaríamos com inflação anualizada de
30%, 40%. Está em 16,5% já em rota de queda", diz
Mailson.
Oscar Cabral
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DESCONTO
NA TESOURA
O
cabeleireiro Rudi Werner, dono de uma rede de 28 salões
de beleza em quatro Estados, já oferecia 20% de desconto
aos clientes, de segunda a quarta-feira, mas nos últimos
três meses a procura pelos dias de corte barato cresceu
10%. Às quintas-feiras, dia em que ele dá um
tratamento capilar de brinde, o movimento ficou ainda mais
intenso. A negociação caso a caso também
se tornou uma prática. "Com minhas clientes antigas,
preciso ter mais sensibilidade neste momento de crise. Como
vou negar desconto a alguém que corta o cabelo comigo
há uma década?", pergunta Werner.
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Mais
fôlego O cenário para o segundo semestre
aparece menos sombrio. A própria imagem do país no
fundo do poço tem a evidente contrapartida de que a queda
terminou. "A recuperação deve se iniciar no terceiro
trimestre", avalia Paulo Levy, do Ipea. Daqui para a frente, há
sinais de alento. O primeiro é que a queda acentuada da inflação
abre espaço para uma redução mais forte da
taxa de juros espera-se um recuo de 1 a 2 pontos porcentuais
na próxima reunião do Comitê de Política
Monetária, dias 22 e 23. As taxas ainda continuarão
muito altas, mas o mais importante será o sinal positivo
de uma segunda queda consecutiva. Para se ter uma idéia,
a modestíssima queda de 0,5 ponto porcentual na taxa, no
mês passado, já significou redução expressiva
dos juros futuros, para 21% nos contratos de doze meses. Como as
empresas fecham seus negócios com base na projeção
do mercado futuro, isso significa que os juros já estão
mais baixos para elas, o que dá algum fôlego à
atividade econômica.
Outro sinal é que, no segundo semestre, haverá mais
dinheiro circulando na economia. É dinheiro da devolução
do imposto de renda, do reajuste das aposentadorias, do pagamento
de mais uma parcela da reposição das perdas do fundo
de garantia por tempo de serviço, do 13º salário.
E quando o consumidor sai, ainda que um pouquinho, do sufoco o alívio
vai por tabela para as empresas. É o movimento inverso do
que aconteceu no primeiro semestre. Mais dinheiro no bolso e juros
mais baixos formam um panorama favorável ao consumo e ao
crédito, o que é um primeiro passo para reaquecer
a economia. Isso sem contar que, por pior que seja a situação,
o segundo semestre é tradicionalmente melhor que o primeiro.
As vendas de fim de ano dão fôlego ao comércio
e movimentam o mercado de trabalho, com a abertura de vagas temporárias.
Essa perspectiva de melhoria não significa no entanto que
esteja para começar o "espetáculo do crescimento",
prometido pelo presidente Lula para ter início ainda neste
mês. O tal espetáculo depende de outros fatores, entre
os quais se destaca a aprovação das reformas tributária
e da Previdência. São mudanças estruturais,
que vão permitir ao país racionalizar o peso dos impostos
sobre a produção e estancar a sangria que representa
o déficit do sistema previdenciário de 54,4
bilhões de reais só no setor público, em 2002.
A aprovação das reformas, num primeiro momento, tem
mais efeito sobre o ânimo do país e dos investidores
internacionais do que sobre os grandes números da economia.
Parece pouco, mas não é. As empresas, no fundo, se
comportam de maneira muito parecida com a de qualquer consumidor.
Quem não acredita que vai continuar empregado nos próximos
meses não faz compra a prazo. Empresa que não acredita
que vai ter quem compre seus produtos não investe. É
o que anda acontecendo. Os investimentos estão à espera
de um clima mais positivo. Basta ver que a previsão do Banco
Central é que o país receba 9 bilhões de dólares
em investimentos de estrangeiros neste ano, volume 35% menor do
que o recebido em 2002. "Não se constrói uma fábrica
sem um horizonte de pelo menos dez anos", diz Aloisio Campelo, da
Fundação Getúlio Vargas.
Boa notícia O clima sombrio da semana passada
foi quebrado por uma novidade, a divulgação de um
dos estudos mais esperados da Organização das Nações
Unidas: o ranking dos países segundo a qualidade de vida
dos habitantes, o chamado índice de desenvolvimento humano
(IDH). O trabalho mostra que, embora fundamental, o crescimento
econômico não é tudo na vida de um país.
E, apesar de estar longe de poder se considerar um país de
IDH alto, o Brasil aparece como a nação onde a qualidade
de vida mais avançou em todo o mundo, desde 1975, quando
se fez o primeiro levantamento. No período analisado pelo
estudo da ONU, que vai até 2001, o país enfrentou
o desafio da redemocratização, a crise da dívida
externa, o segundo choque do petróleo, a hiperinflação,
a globalização, o impeachment de um presidente e as
quebradeiras internacionais na Ásia, na Rússia e no
México. Ainda assim, saltou 56 posições no
ranking do IDH e colocou-se em 65º lugar. Para formar a listagem,
os técnicos da ONU avaliaram indicadores ligados a educação,
saúde e renda das pessoas em 175 países. E, com o
auxílio de uma fórmula matemática, atribuíram
a cada país uma nota única, que vai de zero a 1. Com
IDH 0,275, Serra Leoa é o lugar com pior qualidade de vida
no mundo, e a Noruega, com 0,944, o melhor.
Se, por hipótese, o país mantivesse ainda hoje a nota
obtida no primeiro ranking, aquele de 28 anos atrás, apareceria
na lista atual em 121º lugar, pouco à frente de Botsuana,
ao lado da Nicarágua e atrás do Gabão. O Brasil
já havia surgido em algumas listagens como um dos campeões
em mobilidade social. Ou seja, já se sabia que quem nasce
no Brasil, mesmo em famílias de origem mais humilde, tem
mais chance de progredir na vida do que se tivesse nascido em algum
outro país. O estudo da ONU, no entanto, é o primeiro
trabalho internacional a apontar o Brasil não como um dos
países de maior mobilidade social no mundo mas como
o mais móvel.
Na primeira edição do trabalho das Nações
Unidas, três de cada dez adultos brasileiros não sabiam
ler ou escrever e somente 2% dos habitantes haviam cursado a universidade.
A renda per capita era de apenas 1.200 dólares e, em função
dos casos de desnutrição e mortalidade infantil elevadas,
além de doenças típicas da pobreza, como poliomielite,
tétano, difteria, rubéola, sarampo, caxumba e as formas
graves de tuberculose, a expectativa de vida do brasileiro era de
60 anos. Foi esse o Brasil avaliado no primeiro IDH. De lá
para cá, o analfabetismo atinge apenas um de cada dez adultos.
A taxa de brasileiros com curso superior triplicou, a renda per
capita dobrou e algumas doenças como a poliomielite estão
erradicadas. A expectativa de vida no Brasil aumentou oito anos.
Poderia ser melhor? Sem dúvida. Mas o avanço obtido
pelo país foi grande.
O resultado alcançado pelo Brasil no ranking da ONU também
pode ser analisado sob a ótica da diferença entre
fotografia e filme. Observado isoladamente, como fotografia, ele
pode ser considerado medíocre. Somente se olhado na perspectiva
do tempo, como um filme, é possível enxergar o progresso.
O que se quer dizer é que a imagem congelada é, muitas
vezes, ilusória. Tome-se o caso do Plano Cruzado como exemplo.
A fotografia do primeiro momento do congelamento de preços,
em 1986, poderia fazer crer que o país entrara no caminho
da felicidade eterna, com inflação de Primeiro Mundo
e todo o povo brasileiro consumindo à vontade. Sem a adoção
das medidas necessárias para equilibrar as contas públicas,
o dragão voltou com força ainda maior e o país
conviveu com o pesadelo inflacionário por oito anos. Nos
dois primeiros anos do Plano Real, a economia viveu um momento excepcional,
com a drástica queda da inflação se refletindo
num aumento de mais de 8% na renda do brasileiro. De 1997 em diante,
no entanto, a renda entrou em declínio e arrastou de roldão
a atividade econômica. A fotografia do Brasil neste exato
momento é péssima. O Brasil está parado. A
chama do crescimento sumiu. A fórmula para sair do buraco
está apresentada na reportagem
seguinte. No longo prazo, o Brasil só crescerá
se, além de conseguir baixar os juros sem risco de recair
na inflação, promover a reformulação
de suas instituições arcaicas. Uma delas é
o injusto e caríssimo sistema de Previdência Social,
que precisa mudar. Outra é o sistema tributário, que
prejudica a produtividade econômica do país. Há
ainda o sistema jurídico, que segura o andamento de tudo
e precisa ser depurado, bem como o cipoal de leis trabalhistas,
que prejudicam a criação de novos empregos e encarecem
o custo dos produtos. Por fim, talvez mais importante que tudo,
o Brasil precisa melhorar a qualidade de seu ensino. Sem essas alavancas,
a economia poderá sofrer recuperações passageiras,
mas sempre voltará a afundar. O Brasil só terá
um desenvolvimento sustentado se reformar suas instituições.
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