Edição 1811 . 16 de julho de 2003

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Conjuntura
No fundo do poço

Com servidores em greve,
o governo recua na mudança da Previdência, ouve gritaria de aliados – e já pensa em voltar atrás de novo


Maurício Lima


Ayrton Vignola/Folha Imagem
Pátio lotado em São Bernardo, no início do mês: venda caiu 5% no semestre

Ninguém de bom senso poderia esperar um primeiro semestre próspero para o Brasil. Juros nas alturas, desemprego em alta e renda em queda só podiam resultar em redução acentuada no consumo e na produção. Na semana passada, entretanto, uma enxurrada de más notícias desenhou um quadro mais sombrio do que as piores previsões permitiam supor. O produto interno bruto (PIB), que é a soma de tudo o que o país produz em bens e serviços, recuou pelo segundo trimestre consecutivo, na projeção do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ligado ao Ministério do Planejamento. Os dados do Ipea para o período de abril a junho mostram ainda que persiste a queda na renda das famílias, ininterrupta desde meados de 2001. Na seqüência do inferno astral nacional, a inflação de junho, medida pelo índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), do IBGE, ficou negativa pela primeira vez desde 1998, o que significa que as empresas não têm mais espaço para aumentar preços. A tendência de deflação foi confirmada pela Fipe na sexta-feira passada: na primeira prévia a inflação de julho mostrou recuo de 0,25% – pela segunda vez consecutiva.

Os analistas até divergem quanto ao uso do termo recessão – embora tecnicamente ele se justifique pelo recuo do PIB em dois trimestres seguidos. Mas ninguém tem dúvida de que o país chegou ao fundo do poço. A indústria brasileira, que já vinha devagar, quase parando, cresceu, até maio, o pífio porcentual de 0,48% em relação ao ano passado. E não se deve esquecer que nesse porcentual está incluído o que se produziu para exportação, um dos solitários setores a manter a chama acesa. A estagnação da produção industrial é particularmente preocupante quando se observam os produtos que mais contribuíram para esse resultado. Foram justamente os chamados bens de consumo que tiveram queda na produção: automóveis, eletrodomésticos, roupas, calçados e remédios, por exemplo (veja quadro). Isso confirma que a perda de poder de compra do consumidor já obrigou as empresas a pisar fundo no freio. A indústria automobilística teve o pior mês de junho em dez anos. A de eletroeletrônicos, uma das que mais se beneficiaram da estabilização da economia depois de 1994, enfrenta o terceiro ano consecutivo de queda. "Estamos voltando a níveis pré-real", diz Paulo Saab, presidente da Eletros, entidade que reúne as 25 maiores companhias do setor, responsáveis por 98% da produção brasileira de eletrodomésticos, aparelhos de som e televisores.

É um ciclo perverso. Em quase todos os setores há registro de férias coletivas antecipadas, suspensão de turnos de trabalho e expectativa de demissões – que, se confirmadas, realimentarão a espiral negativa com renda, consumo e produção ainda mais baixos. De 360 empresas ouvidas pela Fundação Getúlio Vargas no início deste mês, 27% tencionam demitir nos próximos seis meses, e apenas 15% pretendem contratar. A pesquisa revela que o pessimismo está em alta. Em janeiro, o mesmo levantamento apontava que 6% das companhias esperavam uma piora nos seis meses seguintes. Agora, para o segundo semestre, esse porcentual pulou para 21%. O coordenador da pesquisa, Aloisio Campelo, acentua que esse é o resultado mais pessimista desde 2000. Não é só uma questão de opinião. Em razão do pessimismo, as companhias adotam uma atitude de paralisia nos investimentos. "As empresas tomam providências de acordo com essas estimativas e acabam tendo um resultado pior que o esperado", diz José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente da General Motors do Brasil, empresa que adotou férias coletivas em algumas unidades de sua fábrica em São José dos Campos.

 
Claudio Rossi
Liquidação em loja de São Paulo: comércio de luxo em crise

Efeito dominó – Uma situação como essa contamina todas as esferas de atividade do país. Os sinais da crise – e da reação a ela – são visíveis nas ruas, na fábrica de automóveis, na lanchonete, no cabeleireiro, no shopping, no supermercado (veja quadro). O grupo Pão de Açúcar resolveu enfrentar a situação jogando duro na negociação com os fornecedores. Pressiona por preços mais baixos para não onerar o consumidor final. O grupo também está apostando em marcas mais baratas. Coloca em produtos selecionados por esses critérios os selos "Menor Preço" e "Escolha Econômica". A maior rede de supermercados do país deu início ao projeto em abril do ano passado, com apenas vinte produtos. Hoje, 600 itens estão selados. No grupo Sendas, que tem 74 supermercados no Rio de Janeiro, as marcas próprias Sendas e Mais em Conta, que têm preços até 40% mais baixos que os das marcas líderes, já estão em mais de 1.000 dos 11.000 itens vendidos na rede. "É preciso adaptar-se ao poder de compra do consumidor", diz Nelson Sendas, vice-presidente da empresa. A falta de dinheiro alimenta índices crescentes de inadimplência. No primeiro semestre, o número de pessoas e empresas que não conseguiram pagar suas dívidas aumentou 3,5% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo a Serasa, instituição que mede o volume de cheques sem fundos, protestos de títulos e outros indicadores da pindaíba nacional.

Olhado isoladamente, como uma fotografia, o quadro é apavorante. Observada na perspectiva do tempo, como um filme, a situação é menos grave, principalmente para um país que já sobreviveu a tantos solavancos. Basta lembrar o cenário que se desenhava para o país no segundo semestre do ano passado para perceber isso. A insegurança quanto aos rumos da economia no caso de vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial fazia vislumbrar o caos para 2003, com dólar a 4 reais, inflação fora de controle e risco-país na estratosfera. Essas previsões foram contornadas e, depois, anuladas porque o presidente Lula bancou uma política econômica austera, sem pirotecnias. O problema é que na economia, como na vida, é impossível ter o melhor de dois mundos. Inflação baixa com crescimento é uma conjugação das mais difíceis. E o governo optou por atacar o mal maior, o recrudescimento da inflação, que se anunciava antes da posse de Lula. Para isso, precisou manter os juros em níveis muito altos. A queda acentuada na atividade econômica no primeiro semestre é o preço que o país paga por essa escolha. Um preço que não pode ser considerado alto demais, afirma o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. "Se não tivéssemos feito isso, estaríamos com inflação anualizada de 30%, 40%. Está em 16,5% já em rota de queda", diz Mailson.

 

Oscar Cabral

DESCONTO NA TESOURA
O cabeleireiro Rudi Werner, dono de uma rede de 28 salões de beleza em quatro Estados, já oferecia 20% de desconto aos clientes, de segunda a quarta-feira, mas nos últimos três meses a procura pelos dias de corte barato cresceu 10%. Às quintas-feiras, dia em que ele dá um tratamento capilar de brinde, o movimento ficou ainda mais intenso. A negociação caso a caso também se tornou uma prática. "Com minhas clientes antigas, preciso ter mais sensibilidade neste momento de crise. Como vou negar desconto a alguém que corta o cabelo comigo há uma década?", pergunta Werner.

Mais fôlego – O cenário para o segundo semestre aparece menos sombrio. A própria imagem do país no fundo do poço tem a evidente contrapartida de que a queda terminou. "A recuperação deve se iniciar no terceiro trimestre", avalia Paulo Levy, do Ipea. Daqui para a frente, há sinais de alento. O primeiro é que a queda acentuada da inflação abre espaço para uma redução mais forte da taxa de juros – espera-se um recuo de 1 a 2 pontos porcentuais na próxima reunião do Comitê de Política Monetária, dias 22 e 23. As taxas ainda continuarão muito altas, mas o mais importante será o sinal positivo de uma segunda queda consecutiva. Para se ter uma idéia, a modestíssima queda de 0,5 ponto porcentual na taxa, no mês passado, já significou redução expressiva dos juros futuros, para 21% nos contratos de doze meses. Como as empresas fecham seus negócios com base na projeção do mercado futuro, isso significa que os juros já estão mais baixos para elas, o que dá algum fôlego à atividade econômica.

Outro sinal é que, no segundo semestre, haverá mais dinheiro circulando na economia. É dinheiro da devolução do imposto de renda, do reajuste das aposentadorias, do pagamento de mais uma parcela da reposição das perdas do fundo de garantia por tempo de serviço, do 13º salário. E quando o consumidor sai, ainda que um pouquinho, do sufoco o alívio vai por tabela para as empresas. É o movimento inverso do que aconteceu no primeiro semestre. Mais dinheiro no bolso e juros mais baixos formam um panorama favorável ao consumo e ao crédito, o que é um primeiro passo para reaquecer a economia. Isso sem contar que, por pior que seja a situação, o segundo semestre é tradicionalmente melhor que o primeiro. As vendas de fim de ano dão fôlego ao comércio e movimentam o mercado de trabalho, com a abertura de vagas temporárias.

Essa perspectiva de melhoria não significa no entanto que esteja para começar o "espetáculo do crescimento", prometido pelo presidente Lula para ter início ainda neste mês. O tal espetáculo depende de outros fatores, entre os quais se destaca a aprovação das reformas tributária e da Previdência. São mudanças estruturais, que vão permitir ao país racionalizar o peso dos impostos sobre a produção e estancar a sangria que representa o déficit do sistema previdenciário – de 54,4 bilhões de reais só no setor público, em 2002. A aprovação das reformas, num primeiro momento, tem mais efeito sobre o ânimo do país e dos investidores internacionais do que sobre os grandes números da economia. Parece pouco, mas não é. As empresas, no fundo, se comportam de maneira muito parecida com a de qualquer consumidor. Quem não acredita que vai continuar empregado nos próximos meses não faz compra a prazo. Empresa que não acredita que vai ter quem compre seus produtos não investe. É o que anda acontecendo. Os investimentos estão à espera de um clima mais positivo. Basta ver que a previsão do Banco Central é que o país receba 9 bilhões de dólares em investimentos de estrangeiros neste ano, volume 35% menor do que o recebido em 2002. "Não se constrói uma fábrica sem um horizonte de pelo menos dez anos", diz Aloisio Campelo, da Fundação Getúlio Vargas.

 

Boa notícia – O clima sombrio da semana passada foi quebrado por uma novidade, a divulgação de um dos estudos mais esperados da Organização das Nações Unidas: o ranking dos países segundo a qualidade de vida dos habitantes, o chamado índice de desenvolvimento humano (IDH). O trabalho mostra que, embora fundamental, o crescimento econômico não é tudo na vida de um país. E, apesar de estar longe de poder se considerar um país de IDH alto, o Brasil aparece como a nação onde a qualidade de vida mais avançou em todo o mundo, desde 1975, quando se fez o primeiro levantamento. No período analisado pelo estudo da ONU, que vai até 2001, o país enfrentou o desafio da redemocratização, a crise da dívida externa, o segundo choque do petróleo, a hiperinflação, a globalização, o impeachment de um presidente e as quebradeiras internacionais na Ásia, na Rússia e no México. Ainda assim, saltou 56 posições no ranking do IDH e colocou-se em 65º lugar. Para formar a listagem, os técnicos da ONU avaliaram indicadores ligados a educação, saúde e renda das pessoas em 175 países. E, com o auxílio de uma fórmula matemática, atribuíram a cada país uma nota única, que vai de zero a 1. Com IDH 0,275, Serra Leoa é o lugar com pior qualidade de vida no mundo, e a Noruega, com 0,944, o melhor.

Se, por hipótese, o país mantivesse ainda hoje a nota obtida no primeiro ranking, aquele de 28 anos atrás, apareceria na lista atual em 121º lugar, pouco à frente de Botsuana, ao lado da Nicarágua e atrás do Gabão. O Brasil já havia surgido em algumas listagens como um dos campeões em mobilidade social. Ou seja, já se sabia que quem nasce no Brasil, mesmo em famílias de origem mais humilde, tem mais chance de progredir na vida do que se tivesse nascido em algum outro país. O estudo da ONU, no entanto, é o primeiro trabalho internacional a apontar o Brasil não como um dos países de maior mobilidade social no mundo – mas como o mais móvel.

Na primeira edição do trabalho das Nações Unidas, três de cada dez adultos brasileiros não sabiam ler ou escrever e somente 2% dos habitantes haviam cursado a universidade. A renda per capita era de apenas 1.200 dólares e, em função dos casos de desnutrição e mortalidade infantil elevadas, além de doenças típicas da pobreza, como poliomielite, tétano, difteria, rubéola, sarampo, caxumba e as formas graves de tuberculose, a expectativa de vida do brasileiro era de 60 anos. Foi esse o Brasil avaliado no primeiro IDH. De lá para cá, o analfabetismo atinge apenas um de cada dez adultos. A taxa de brasileiros com curso superior triplicou, a renda per capita dobrou e algumas doenças como a poliomielite estão erradicadas. A expectativa de vida no Brasil aumentou oito anos. Poderia ser melhor? Sem dúvida. Mas o avanço obtido pelo país foi grande.

O resultado alcançado pelo Brasil no ranking da ONU também pode ser analisado sob a ótica da diferença entre fotografia e filme. Observado isoladamente, como fotografia, ele pode ser considerado medíocre. Somente se olhado na perspectiva do tempo, como um filme, é possível enxergar o progresso. O que se quer dizer é que a imagem congelada é, muitas vezes, ilusória. Tome-se o caso do Plano Cruzado como exemplo. A fotografia do primeiro momento do congelamento de preços, em 1986, poderia fazer crer que o país entrara no caminho da felicidade eterna, com inflação de Primeiro Mundo e todo o povo brasileiro consumindo à vontade. Sem a adoção das medidas necessárias para equilibrar as contas públicas, o dragão voltou com força ainda maior e o país conviveu com o pesadelo inflacionário por oito anos. Nos dois primeiros anos do Plano Real, a economia viveu um momento excepcional, com a drástica queda da inflação se refletindo num aumento de mais de 8% na renda do brasileiro. De 1997 em diante, no entanto, a renda entrou em declínio e arrastou de roldão a atividade econômica. A fotografia do Brasil neste exato momento é péssima. O Brasil está parado. A chama do crescimento sumiu. A fórmula para sair do buraco está apresentada na reportagem seguinte. No longo prazo, o Brasil só crescerá se, além de conseguir baixar os juros sem risco de recair na inflação, promover a reformulação de suas instituições arcaicas. Uma delas é o injusto e caríssimo sistema de Previdência Social, que precisa mudar. Outra é o sistema tributário, que prejudica a produtividade econômica do país. Há ainda o sistema jurídico, que segura o andamento de tudo e precisa ser depurado, bem como o cipoal de leis trabalhistas, que prejudicam a criação de novos empregos e encarecem o custo dos produtos. Por fim, talvez mais importante que tudo, o Brasil precisa melhorar a qualidade de seu ensino. Sem essas alavancas, a economia poderá sofrer recuperações passageiras, mas sempre voltará a afundar. O Brasil só terá um desenvolvimento sustentado se reformar suas instituições.

 

 
















 
 
 
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