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Diogo
Mainardi
O
Rio dos pornoturistas
"É
tão raro o Brasil sobressair
em algum
campo
que seria justo comemorar
o bom
desempenho
de nossas prostitutas.
O problema é que não lucramos nada com
isso. Somos inaptos para os negócios"
O
Rio de Janeiro é melhor que Cartagena. Também é
melhor que San José e Budapeste. A internet está cheia
de gente debatendo o assunto. Todos os especialistas estrangeiros
concordam num ponto: só Bangcoc é páreo para
o Rio em matéria de pornoturismo.
O pornoturismo carioca se concentra em Copacabana. Os hotéis
mais recomendados nos guias da categoria são o Debret e o
Rio Roiss. Ambos admitem que as prostitutas acompanhem os hóspedes
até os quartos. O roteiro dos pornoturistas começa
na praia, onde os barraqueiros oferecem, além de cadeira
e caipirinha, prostitutas. O barraqueiro Flávio é
particularmente prestativo. A seguir, os pornoturistas se dirigem
ao bar Meia Pataca, no calçadão. Logo são assediados
por garotas de programa de todos os tipos. Como alternativa, podem
visitar uma das muitas saunas da cidade: L'Uomo, Quatro-por-Quatro,
65, Monte Carlo, Centaurus. Os guias reclamam do tamanho dos seios
das prostitutas do Centaurus. Em compensação, elogiam
muito a Roberta, do Monte Carlo.
À
noite, os pornoturistas se reúnem na discoteca Help. Tradicionais
áreas de meretrício como a Vila Mimosa são
desaconselhadas pela falta de higiene. Bem mais seguro é
recorrer a empresas como a Escort Company Girl, que possibilitam
a escolha das mulheres pelo computador, de Paula, a "ninfeta sapeca",
a Lisandra, com "seios à prova de lápis". Um desses
guias de pornoturismo jura que "não há nada igual
ao Rio". Outro, que nossas "prostitutas gostam de seu trabalho".
Outro, que "as brasileiras julgam a prostituição uma
atividade natural".
É
tão raro que o Brasil consiga sobressair em algum campo que
seria justo comemorar o bom desempenho de nossas prostitutas. O
problema é que não lucramos praticamente nada com
isso. A indústria do sexo rende centenas de bilhões
de dólares no mundo todo. O país mais rico, os Estados
Unidos, é também o que mais fatura. Só em San
Fernando Valley, na Califórnia, são feitos 11.000
filmes pornográficos por ano, que empregam 20.000 pessoas
e arrecadam acima de 4 bilhões de dólares. É
mais do que a Volkswagen ganha no Brasil. Estrelas como Jasmin Saint-Claire,
John Stagliano e Rocco Siffredi já ambientaram alguns de
seus filmes no Rio, como os da série Buttman, mas
nossas compatriotas só atuaram em papéis secundários.
A carioca Veronica Brazil chegou a obter algum sucesso lá
fora participando do filme de estréia de John Bobbit, aquele
sujeito que foi emasculado pela mulher, mas ela logo desapareceu.
A leitura dos guias de pornoturismo revela as origens do fracasso
nacional. A gente está sempre disposto a se vender, mas por
um preço baixo demais. Aliamos um temperamento mercenário
à mais absoluta inaptidão para os negócios.
Nossas autoridades toleram todas as formas de abuso, inclusive a
pedofilia e a escravidão, desde que praticadas contra miseráveis.
Em nossa sociedade pré-industrial, não sabemos nem
ao menos fabricar preservativos, considerados "espessos e pouco
confiáveis" pelos turistas estrangeiros. A única contribuição
brasileira ao ramo da pornografia, como acontece em todos os outros
ramos, é fornecer mão-de-obra não qualificada
e mal remunerada. Fernando Gabeira apresentou um projeto de lei
para regulamentar a prostituição. Será muito
mais útil para o Rio do que os Jogos Olímpicos.
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