Edição 1811 . 16 de julho de 2003

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Entrevista:Álvaro Uribe
Agora é guerra

O presidente colombiano diz que as Farc não querem diálogo e pede ajuda internacional para derrotar a guerrilha e o narcotráfico


Raul Juste Lores

AFP

"Fui eleito para dar segurança aos colombianos. Se um dia a guerrilha quiser conversar, estou pronto. Por enquanto, o que faço é combatê-la até derrotá-la"

Álvaro Uribe foi eleito presidente da Colômbia em primeiro turno, no ano passado, com a promessa de combater sem trégua a guerrilha comunista e seus aliados do narcotráfico. Era o que os colombianos queriam ouvir após o fracasso da tentativa de diálogo empreendida pelo antecessor, Andrés Pastrana. Onze meses depois da posse, a popularidade do presidente é superior a 70%, o que não torna mais fácil o desafio de pacificar um país com 3.000 seqüestros e 28.000 homicídios por ano, as maiores taxas do mundo em relação à população. Como se não bastasse, a Colômbia é o maior produtor de cocaína, um negócio bilionário que conta com a proteção das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), cujo contingente é estimado em 20.000 homens. Ex-governador e ex-prefeito de Medellín, que já foi a cidade mais violenta do mundo, Uribe sobreviveu a quinze atentados e teve o pai, um fazendeiro, assassinado por guerrilheiros há vinte anos. Seu vice-presidente, o jornalista Francisco Santos, ficou nove meses seqüestrado por Pablo Escobar. Aos 51 anos, casado e com dois filhos, Uribe recebeu VEJA para esta entrevista no palácio presidencial, a Casa de Nariño, em Bogotá.

Veja – Muitos políticos brasileiros, sobretudo do PT, vêem as Farc como um movimento social, não como um grupo terrorista. O que o senhor tem a dizer para quem pensa assim?
Uribe – O presidente Lula compreendeu muito bem nosso problema e nos ajuda bastante para que a comunidade internacional entenda nossa luta, que é combater o terrorismo. Os guerrilheiros das Farc são simplesmente terroristas. Eles não lutam para solucionar problemas sociais. Na verdade, causam problemas muito maiores. Com suas ações, seus atentados, afugentam os investimentos internos e externos, criam mais pobreza, impedem que a economia cresça e destroem as oportunidades de geração de empregos e de melhoria de vida dos colombianos. Eles extorquem desde os camponeses até os empresários – milhares de camponeses têm de abandonar suas terras. Provocam atentados contra torres de energia elétrica, estações de água, contra a infra-estrutura do país. Contra o que eles lutam? Temos uma democracia aberta, plena, com liberdade de imprensa. O que esses grupos fazem é obstruir o regime democrático e praticar atividades terroristas e de extorsão. Esta terra foi martirizada pela droga e pelo terrorismo, mas ainda tem um ânimo inquebrantável.

Veja – Há diferença entre as Farc e o narcotráfico?
Uribe – O narcotráfico é hoje a principal fonte de financiamento dos grupos guerrilheiros. Logo, estão intimamente ligados. Muitos partidos no exterior falam das Farc como um movimento de esquerda. Quando vão à Europa, os guerrilheiros realmente fazem esse discurso e viram esquerdistas. Mas aqui eles são simplesmente pistoleiros. É muita hipocrisia alguém no exterior defender a guerrilha e esquecer os milhares de vítimas dos guerrilheiros. Felizmente, essa percepção errônea está mudando. Mesmo na Europa já não se defende tanto a guerrilha. Os europeus estão entendendo que aqui não ocorre um conflito social, e sim ações de terrorismo sistemático contra o povo colombiano.

Veja – O senhor acha que os governos vizinhos deveriam coibir a propaganda das Farc em seus países?
Uribe –
Se alguém da oposição colombiana quiser ir a uma universidade estrangeira e criticar nosso governo, que o faça. Essa é uma atitude respeitável. Mas não se pode dar o mesmo espaço e a mesma atenção a quem se dedica a matar e a seqüestrar. Uma coisa é a nobre agitação de idéias, outra é a ação terrorista. Meu pedido a todos os países do mundo é: sempre que chegar um terrorista colombiano, que ele seja preso, sem contemplações.

Veja – O traficante brasileiro Fernandinho Beira-Mar foi preso há dois anos na Colômbia, onde fazia negócios com as Farc. É possível que haja mais brasileiros nessa conexão?
Uribe – Não saberia citar casos específicos, mas temos uma fronteira muito extensa em plena selva amazônica, que é muito difícil de ser controlada. Ambos os países precisam empreender maiores esforços para evitar que o terrorismo faça estragos nos dois lados da fronteira. O presidente Lula já mandou mais tropas para lá.

Veja – O senhor quer ajuda do Brasil para derrotar as Farc e o narcotráfico?
Uribe –
O presidente Lula está nos ajudando bastante nos fóruns internacionais. Ele demonstrou compreensão em relação ao nosso drama e manifestou sua rejeição ao terrorismo colombiano. Vejo que o Brasil tem a intenção de cooperar mais ativamente.

Veja – Que conselho o senhor daria às autoridades brasileiras para evitar que o Brasil seja dominado pelo narcotráfico e pelos seqüestradores?
Uribe – Não me atrevo a dar conselhos. O que posso dizer é que não se deve deixar a indústria do narcotráfico e do seqüestro crescer de forma nenhuma. Esse mal precisa ser erradicado a tempo. É obrigatório ter vontade política para derrotar o narcotráfico. Quando ela existe, surgem todas as medidas que devem ser implementadas, leis mais duras, mais investimento, mais polícia.

Veja – Por que o senhor não acredita em negociações com as Farc?
Uribe –
Muita gente na Colômbia já empreendeu o caminho do diálogo com outros movimentos guerrilheiros, e com bons resultados. Com as Farc isso não acontece. Meu antecessor, Andrés Pastrana, trabalhou com boa-fé e patriotismo. As Farc responderam com moeda falsa. A guerrilha aproveitou-se da boa-fé do presidente Pastrana para se fortalecer e avançar em seu propósito de conquistar o poder de forma violenta. Fez pouco-caso de todos aqueles que tentaram o diálogo como meio de pacificação. Nunca cessaram as hostilidades nem a violência.

Veja – O senhor acha, então, que terá de derrotar os guerrilheiros militarmente?
Uribe –
Eu não acho, tenho certeza, e estou agindo dessa forma. Fui eleito para dar segurança aos colombianos. No dia em que os guerrilheiros quiserem dialogar, estaremos a postos. Por enquanto, o que faço é combatê-los até derrotá-los e desmobilizá-los. Desde agosto, já conseguimos desmobilizar 1.500 guerrilheiros, que abandonaram as armas. Quero fazer com que as Farc se dividam e que fique claro quem é apenas um pistoleiro profissional e quem quer voltar à vida legal.

Veja – Quando os colombianos vão começar a sentir que o país está mais seguro?
Uribe – A batalha é dura e os resultados são lentos. O que o povo já sabe é que estamos decididos a derrotar a droga e o terrorismo. Que vamos combatê-los até o fim. Isso já é uma grande mudança. Até o fim deste ano, a polícia estará presente em 180 municípios, antes abandonados pelo poder público. Criamos comboios e escoltas policiais para proteger aqueles que trafegam pelas principais estradas do país. São vias pelas quais os colombianos saem durante os feriados e as férias, e também onde há maior circulação de mercadorias. O tráfego em muitas estradas já é 65% maior do que há um ano. As pessoas evitavam viajar por medo de ser vítimas de atentados ou seqüestros da guerrilha. A liberdade de viajar produz um grande efeito nas empresas, reativa a economia através do turismo e cria uma relação de confiança entre os cidadãos e as forças públicas. Se os empresários sabem que seu caminhão pode circular entre Medellín a Bogotá e chegar a salvo ao destino, confiam mais nas forças do Estado. Se as famílias saem para fazer turismo vendo policiais e soldados nas estradas, sob sol ou intempérie, começam a confiar mais.

Veja – E quanto a homicídios e seqüestros?
Uribe –
Os homicídios diminuíram 20% e os seqüestros 34% no primeiro semestre deste ano, em relação ao ano passado. É bastante, mas, ao mesmo tempo, ainda é muito pouco. Não deveria haver nenhum caso. Mas são significativos a recuperação da segurança nas estradas e o fato de que a guerrilha não conseguiu tomar nenhum município neste governo. A diminuição de homicídios e seqüestros não ocorre por sorte. É o resultado de ações diárias e contundentes, que temos de melhorar.

Veja – Os Estados Unidos lançaram o Plano Colômbia, de combate ao narcotráfico, e neste ano ajudaram com 95 milhões de dólares. É suficiente?
Uribe –
Com certeza é necessário receber muito mais ajuda nessa guerra. Mas os Estados Unidos nos auxiliam concretamente, enquanto muitos países só fazem discursos. Vou tentar conseguir dinheiro de todo o mundo para essa luta. Espero que a Europa nos ajude. Estamos começando um programa muito bonito em Putumayo, que é o departamento (Estado) colombiano onde começa a bacia amazônica. Três mil famílias de camponeses que antes se dedicavam ao plantio de drogas agora vão cuidar do reflorestamento e com salários pagos pelo Estado. É importante que a comunidade internacional nos ajude a bancar programas assim. As drogas na Colômbia foram semeadas em áreas florestais e já destruíram muita vegetação. Evitar a droga e reflorestar é produzir oxigênio para a humanidade.

Veja – Se o Plano Colômbia for bem-sucedido em erradicar as plantações de coca em território colombiano, não haverá o risco de o narcotráfico migrar para os países vizinhos? Para o Brasil, por exemplo?
Uribe –
Há um enorme risco, com certeza. Por isso, todos devemos estar vigilantes para evitar o narcotráfico em nossos territórios e não permitir que ele migre de país para país.

Veja – A fumigação para exterminar as plantações de coca não pode também devastar a Floresta Amazônica?
Uribe –
Os camponeses que vivem na selva, que conhecem a sabedoria da natureza, são os primeiros a pedir que continuemos a fumigar. O que destruiu a natureza não foi a fumigação, mas o cultivo e o processamento dessas drogas. Nossos rios que levam à Amazônia tinham uma variedade de peixes muito maior do que agora. Muitas substâncias químicas utilizadas na produção de drogas são vertidas nos rios, envenenando a fauna e a flora aquáticas.

Veja – O senhor foi o único presidente sul-americano a apoiar o governo Bush na guerra ao Iraque. Por que tomou essa decisão?
Uribe –
Quem já sofreu o terrorismo por cinqüenta anos não vacila em apoiar a derrota do terrorismo internacional. Apoiei como parte da guerra contra o terror internacional, do qual somos vítimas também.

Veja – De quem é a maior responsabilidade pelo tráfico de cocaína: da Colômbia, como produtora, ou dos Estados Unidos, os maiores consumidores?
Uribe –
Eu acho que os países, tanto produtores quanto consumidores, já estão assumindo suas responsabilidades. Se compartilhamos a culpa, devemos ter responsabilidades solidárias. Os Estados Unidos já estão ajudando. Se puderem auxiliar mais, magnífico. É muito importante a ajuda de outros países que também são mercados consumidores das drogas.

Veja – O senhor acha que a legalização das drogas ajudaria a atividade criminosa?
Uribe – O preço das drogas até poderia cair, mas teríamos uma massificação da produção e do tráfico. Isso me leva a pensar que seria um grande erro. Como pai de família, não posso imaginar a legalização das drogas. A Colômbia já enterrou duas gerações por não ter sido suficientemente eficiente na luta contra as drogas.

Veja – Autoridades colombianas reclamaram que o presidente venezuelano Hugo Chávez permite a entrada de guerrilheiros na Venezuela. O senhor acha que ele colabora com a guerrilha?
Uribe –
Essa pergunta deve ser feita ao presidente Chávez.

Veja – O senhor é a favor da Área de Livre Comércio das Américas (Alca)?
Uribe – Sim, a Colômbia precisa ampliar seus mercados. Precisamos de acordos de livre-comércio que sejam eqüitativos. Como qualquer negócio, tem de ser equilibrado e incluir a defesa racional do segmento competitivo da agricultura colombiana.

Veja – O senhor já sofreu quinze atentados. Como vive com a perspectiva de novas tentativas?
Uribe –
Dou graças a Deus por ter me cuidado. Sempre peço a Ele que continue a me proteger, e que me permita ser útil para a Colômbia. Só que não vou ficar assustado. Deve-se ter mais medo do próprio medo. O maior problema é para minha família. Ela sofre muito, demais até.

Veja – Seu pai foi assassinado pela guerrilha no início dos anos 80. Como essa tragédia influenciou sua vontade de entrar na política?
Uribe –
Até hoje me dói muito. Muito mesmo. Mas 50% das famílias colombianas perderam algum membro vítima da violência. Meu caso não é isolado.

Veja – O senhor preside um país em guerra e precisa se precaver contra atentados. Como faz para controlar a tensão?
Uribe –
Faço ioga e meditação diariamente para controlar a tensão e ordenar o espírito. Enfim, para controlar os nervos. Também faço muitas orações e pratico muito esporte. Ando de bicicleta, faço spinning, corro, ando a cavalo e nado. Pratico esportes cinco vezes por semana. Acordo muito cedo, exercito-me ainda de madrugada.

Veja – Como o presidente Lula, o senhor é conhecido por driblar a segurança para chegar perto dos eleitores. Não é arriscado demais?
Uribe –
Muito. Em um ambiente tão inseguro como a Colômbia, é difícil. Mas hoje em dia os governos não devem ser exercidos sem conexão com o povo. Se permanecer encerrado em um escritório, você fica distante do que acontece e perde a consciência das angústias do povo.

 
 
 
 
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