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Entrevista:Álvaro
Uribe
Agora
é guerra
O
presidente colombiano diz que as Farc não querem diálogo
e pede ajuda internacional para
derrotar a guerrilha e o narcotráfico

Raul
Juste Lores
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AFP

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"Fui
eleito para
dar segurança
aos colombianos. Se um dia a guerrilha quiser
conversar, estou
pronto. Por enquanto, o que faço é combatê-la
até derrotá-la"
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Álvaro
Uribe foi eleito presidente da Colômbia em primeiro turno,
no ano passado, com a promessa de combater sem trégua a guerrilha
comunista e seus aliados do narcotráfico. Era o que os colombianos
queriam ouvir após o fracasso da tentativa de diálogo
empreendida pelo antecessor, Andrés Pastrana. Onze meses
depois da posse, a popularidade do presidente é superior
a 70%, o que não torna mais fácil o desafio de pacificar
um país com 3.000 seqüestros e 28.000 homicídios
por ano, as maiores taxas do mundo em relação à
população. Como se não bastasse, a Colômbia
é o maior produtor de cocaína, um negócio bilionário
que conta com a proteção das Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia (Farc), cujo contingente
é estimado em 20.000 homens. Ex-governador e ex-prefeito
de Medellín, que já foi a cidade mais violenta do
mundo, Uribe sobreviveu a quinze atentados e teve o pai, um fazendeiro,
assassinado por guerrilheiros há vinte anos. Seu vice-presidente,
o jornalista Francisco Santos, ficou nove meses seqüestrado
por Pablo Escobar. Aos 51 anos, casado e com dois filhos, Uribe
recebeu VEJA para esta entrevista no palácio presidencial,
a Casa de Nariño, em Bogotá.
Veja Muitos políticos brasileiros, sobretudo
do PT, vêem as Farc como um movimento social, não como
um grupo terrorista. O que o senhor tem a dizer para quem pensa
assim?
Uribe
O presidente Lula compreendeu muito bem nosso problema e nos ajuda
bastante para que a comunidade internacional entenda nossa luta,
que é combater o terrorismo. Os guerrilheiros das Farc são
simplesmente terroristas. Eles não lutam para solucionar
problemas sociais. Na verdade, causam problemas muito maiores. Com
suas ações, seus atentados, afugentam os investimentos
internos e externos, criam mais pobreza, impedem que a economia
cresça e destroem as oportunidades de geração
de empregos e de melhoria de vida dos colombianos. Eles extorquem
desde os camponeses até os empresários milhares
de camponeses têm de abandonar suas terras. Provocam atentados
contra torres de energia elétrica, estações
de água, contra a infra-estrutura do país. Contra
o que eles lutam? Temos uma democracia aberta, plena, com liberdade
de imprensa. O que esses grupos fazem é obstruir o regime
democrático e praticar atividades terroristas e de extorsão.
Esta terra foi martirizada pela droga e pelo terrorismo, mas ainda
tem um ânimo inquebrantável.
Veja
Há diferença entre as Farc e o narcotráfico?
Uribe
O narcotráfico é hoje a principal fonte de financiamento
dos grupos guerrilheiros. Logo, estão intimamente ligados.
Muitos partidos no exterior falam das Farc como um movimento de
esquerda. Quando vão à Europa, os guerrilheiros realmente
fazem esse discurso e viram esquerdistas. Mas aqui eles são
simplesmente pistoleiros. É muita hipocrisia alguém
no exterior defender a guerrilha e esquecer os milhares de vítimas
dos guerrilheiros. Felizmente, essa percepção errônea
está mudando. Mesmo na Europa já não se defende
tanto a guerrilha. Os europeus estão entendendo que aqui
não ocorre um conflito social, e sim ações
de terrorismo sistemático contra o povo colombiano.
Veja
O senhor acha que os governos vizinhos deveriam coibir
a propaganda das Farc em seus países?
Uribe
Se alguém da oposição colombiana quiser ir
a uma universidade estrangeira e criticar nosso governo, que o faça.
Essa é uma atitude respeitável. Mas não se
pode dar o mesmo espaço e a mesma atenção a
quem se dedica a matar e a seqüestrar. Uma coisa é a
nobre agitação de idéias, outra é a
ação terrorista. Meu pedido a todos os países
do mundo é: sempre que chegar um terrorista colombiano, que
ele seja preso, sem contemplações.
Veja
O traficante brasileiro Fernandinho Beira-Mar foi preso
há dois anos na Colômbia, onde fazia negócios
com as Farc. É possível que haja mais brasileiros
nessa conexão?
Uribe
Não
saberia citar casos específicos, mas temos uma fronteira
muito extensa em plena selva amazônica, que é muito
difícil de ser controlada. Ambos os países precisam
empreender maiores esforços para evitar que o terrorismo
faça estragos nos dois lados da fronteira. O presidente Lula
já mandou mais tropas para lá.
Veja
O senhor quer ajuda do Brasil para derrotar as Farc e
o narcotráfico?
Uribe
O presidente Lula está nos ajudando bastante nos fóruns
internacionais. Ele demonstrou compreensão em relação
ao nosso drama e manifestou sua rejeição ao terrorismo
colombiano. Vejo que o Brasil tem a intenção de cooperar
mais ativamente.
Veja Que conselho o senhor daria às autoridades
brasileiras para evitar que o Brasil seja dominado pelo narcotráfico
e pelos seqüestradores?
Uribe
Não me atrevo a dar conselhos. O que posso dizer é
que não se deve deixar a indústria do narcotráfico
e do seqüestro crescer de forma nenhuma. Esse mal precisa ser
erradicado a tempo. É obrigatório ter vontade política
para derrotar o narcotráfico. Quando ela existe, surgem todas
as medidas que devem ser implementadas, leis mais duras, mais investimento,
mais polícia.
Veja Por que o senhor não acredita em negociações
com as Farc?
Uribe
Muita
gente na Colômbia já empreendeu o caminho do diálogo
com outros movimentos guerrilheiros, e com bons resultados. Com
as Farc isso não acontece. Meu antecessor, Andrés
Pastrana, trabalhou com boa-fé e patriotismo. As Farc responderam
com moeda falsa. A guerrilha aproveitou-se da boa-fé do presidente
Pastrana para se fortalecer e avançar em seu propósito
de conquistar o poder de forma violenta. Fez pouco-caso de todos
aqueles que tentaram o diálogo como meio de pacificação.
Nunca cessaram as hostilidades nem a violência.
Veja
O senhor acha, então, que terá de derrotar
os guerrilheiros militarmente?
Uribe
Eu não acho, tenho certeza, e estou agindo dessa forma. Fui
eleito para dar segurança aos colombianos. No dia em que
os guerrilheiros quiserem dialogar, estaremos a postos. Por enquanto,
o que faço é combatê-los até derrotá-los
e desmobilizá-los. Desde agosto, já conseguimos desmobilizar
1.500 guerrilheiros, que abandonaram as armas. Quero fazer com que
as Farc se dividam e que fique claro quem é apenas um pistoleiro
profissional e quem quer voltar à vida legal.
Veja Quando os colombianos vão começar
a sentir que o país está mais seguro?
Uribe
A batalha é dura e os resultados são lentos. O que
o povo já sabe é que estamos decididos a derrotar
a droga e o terrorismo. Que vamos combatê-los até o
fim. Isso já é uma grande mudança. Até
o fim deste ano, a polícia estará presente em 180
municípios, antes abandonados pelo poder público.
Criamos comboios e escoltas policiais para proteger aqueles que
trafegam pelas principais estradas do país. São vias
pelas quais os colombianos saem durante os feriados e as férias,
e também onde há maior circulação de
mercadorias. O tráfego em muitas estradas já é
65% maior do que há um ano. As pessoas evitavam viajar por
medo de ser vítimas de atentados ou seqüestros da guerrilha.
A liberdade de viajar produz um grande efeito nas empresas, reativa
a economia através do turismo e cria uma relação
de confiança entre os cidadãos e as forças
públicas. Se os empresários sabem que seu caminhão
pode circular entre Medellín a Bogotá e chegar a salvo
ao destino, confiam mais nas forças do Estado. Se as famílias
saem para fazer turismo vendo policiais e soldados nas estradas,
sob sol ou intempérie, começam a confiar mais.
Veja E quanto a homicídios e seqüestros?
Uribe
Os homicídios diminuíram 20% e os seqüestros
34% no primeiro semestre deste ano, em relação ao
ano passado. É bastante, mas, ao mesmo tempo, ainda é
muito pouco. Não deveria haver nenhum caso. Mas são
significativos a recuperação da segurança nas
estradas e o fato de que a guerrilha não conseguiu tomar
nenhum município neste governo. A diminuição
de homicídios e seqüestros não ocorre por sorte.
É o resultado de ações diárias e contundentes,
que temos de melhorar.
Veja
Os Estados Unidos lançaram o Plano Colômbia,
de combate ao narcotráfico, e neste ano ajudaram com 95 milhões
de dólares. É suficiente?
Uribe
Com certeza é necessário receber muito mais ajuda
nessa guerra. Mas os Estados Unidos nos auxiliam concretamente,
enquanto muitos países só fazem discursos. Vou tentar
conseguir dinheiro de todo o mundo para essa luta. Espero que a
Europa nos ajude. Estamos começando um programa muito bonito
em Putumayo, que é o departamento (Estado) colombiano
onde começa a bacia amazônica. Três mil famílias
de camponeses que antes se dedicavam ao plantio de drogas agora
vão cuidar do reflorestamento e com salários pagos
pelo Estado. É importante que a comunidade internacional
nos ajude a bancar programas assim. As drogas na Colômbia
foram semeadas em áreas florestais e já destruíram
muita vegetação. Evitar a droga e reflorestar é
produzir oxigênio para a humanidade.
Veja
Se o Plano Colômbia for bem-sucedido em erradicar
as plantações de coca em território colombiano,
não haverá o risco de o narcotráfico migrar
para os países vizinhos? Para o Brasil, por exemplo?
Uribe
Há
um enorme risco, com certeza. Por isso, todos devemos estar vigilantes
para evitar o narcotráfico em nossos territórios e
não permitir que ele migre de país para país.
Veja
A fumigação para exterminar as plantações
de coca não pode também devastar a Floresta Amazônica?
Uribe
Os camponeses que vivem na selva, que conhecem a sabedoria da natureza,
são os primeiros a pedir que continuemos a fumigar. O que
destruiu a natureza não foi a fumigação, mas
o cultivo e o processamento dessas drogas. Nossos rios que levam
à Amazônia tinham uma variedade de peixes muito maior
do que agora. Muitas substâncias químicas utilizadas
na produção de drogas são vertidas nos rios,
envenenando a fauna e a flora aquáticas.
Veja
O senhor foi o único presidente sul-americano a
apoiar o governo Bush na guerra ao Iraque. Por que tomou essa decisão?
Uribe
Quem já sofreu o terrorismo por cinqüenta anos não
vacila em apoiar a derrota do terrorismo internacional. Apoiei como
parte da guerra contra o terror internacional, do qual somos vítimas
também.
Veja De quem é a maior responsabilidade pelo
tráfico de cocaína: da Colômbia, como produtora,
ou dos Estados Unidos, os maiores consumidores?
Uribe
Eu acho que os países, tanto produtores quanto consumidores,
já estão assumindo suas responsabilidades. Se compartilhamos
a culpa, devemos ter responsabilidades solidárias. Os Estados
Unidos já estão ajudando. Se puderem auxiliar mais,
magnífico. É muito importante a ajuda de outros países
que também são mercados consumidores das drogas.
Veja O senhor acha que a legalização
das drogas ajudaria a atividade criminosa?
Uribe
O preço das drogas até poderia cair, mas teríamos
uma massificação da produção e do tráfico.
Isso me leva a pensar que seria um grande erro. Como pai de família,
não posso imaginar a legalização das drogas.
A Colômbia já enterrou duas gerações
por não ter sido suficientemente eficiente na luta contra
as drogas.
Veja Autoridades colombianas reclamaram que o presidente
venezuelano Hugo Chávez permite a entrada de guerrilheiros
na Venezuela. O senhor acha que ele colabora com a guerrilha?
Uribe
Essa pergunta deve ser feita ao presidente Chávez.
Veja O senhor é a favor da Área de Livre
Comércio das Américas (Alca)?
Uribe
Sim, a Colômbia precisa ampliar seus mercados. Precisamos
de acordos de livre-comércio que sejam eqüitativos.
Como qualquer negócio, tem de ser equilibrado e incluir a
defesa racional do segmento competitivo da agricultura colombiana.
Veja O senhor já sofreu quinze atentados. Como
vive com a perspectiva de novas tentativas?
Uribe
Dou graças a Deus por ter me cuidado. Sempre peço
a Ele que continue a me proteger, e que me permita ser útil
para a Colômbia. Só que não vou ficar assustado.
Deve-se ter mais medo do próprio medo. O maior problema é
para minha família. Ela sofre muito, demais até.
Veja Seu pai foi assassinado pela guerrilha no início
dos anos 80. Como essa tragédia influenciou sua vontade de
entrar na política?
Uribe
Até hoje me dói muito. Muito mesmo. Mas 50% das famílias
colombianas perderam algum membro vítima da violência.
Meu caso não é isolado.
Veja O senhor preside um país em guerra e precisa
se precaver contra atentados. Como faz para controlar a tensão?
Uribe
Faço
ioga e meditação diariamente para controlar a tensão
e ordenar o espírito. Enfim, para controlar os nervos. Também
faço muitas orações e pratico muito esporte.
Ando de bicicleta, faço spinning, corro, ando a cavalo e
nado. Pratico esportes cinco vezes por semana. Acordo muito cedo,
exercito-me ainda de madrugada.
Veja Como o presidente Lula, o senhor é conhecido
por driblar a segurança para chegar perto dos eleitores.
Não é arriscado demais?
Uribe
Muito.
Em um ambiente tão inseguro como a Colômbia, é
difícil. Mas hoje em dia os governos não devem ser
exercidos sem conexão com o povo. Se permanecer encerrado
em um escritório, você fica distante do que acontece
e perde a consciência das angústias do povo.
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