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EM
FOCO: Sergio Abranches
Crescimento
e desenvolvimento humano
"O
Brasil está melhor que há dez,
vinte ou
trinta anos. Apesar das
conjunturas negativas, não paramos
de superar obstáculos"
Ilustração Ale Setti
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É
possível se desenvolver, mudar, sem crescer economicamente?
A resposta convencional é não. A resposta certa é
sim. O crescimento, sobretudo medido pela renda per capita, ajuda,
acelera, mas sua ausência não impede progresso em muitos
campos importantes. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)
do Brasil retrata, exatamente, um país que muda e se desenvolve
em aspectos cruciais, apesar do baixo crescimento médio.
Por causa dessa mudança, acumula condições
para maior e mais sustentável crescimento futuro.
É
verdade que se pode reduzir a pobreza sem melhorar a desigualdade,
como fizemos? É. Igualdade e pobreza não são
siamesas nem estão necessariamente associadas. Pobreza não
gera necessariamente desigualdade, nem desigualdade leva sempre
à pobreza. País pobre, com baixa desigualdade: Cuba.
País rico, com relativa alta desigualdade de renda: Estados
Unidos.
Um país, para chegar à afluência, precisa superar
determinados obstáculos estruturais. Sua remoção
impulsiona fatores não materiais indutores do bem-estar coletivo.
O cientista político Harold Wilenski demonstra que todas
as democracias hoje ricas econômica e socialmente falando
passaram por pelo menos nove mudanças estruturais
de fôlego, com alguma variação de velocidade.
São elas: redução do tamanho das famílias;
expansão da educação de massas; diversificação
da estrutura ocupacional, com expansão e diferenciação
das classes médias e redução de camponeses
e trabalhadores não qualificados; mudanças na organização
e na jornada do trabalho; incorporação das mulheres
à força de trabalho; tendência à redução
das desigualdades de gênero e adoção progressiva
de ações afirmativas para inclusão de minorias
étnicas ou culturais; criação de uma rede de
proteção social; circulação da informação
política e cultural pela via dos meios de comunicação
de massas; e crescimento dos setores intelectuais, científicos
e de especialização técnica na classe média.
O Brasil vem melhorando em todos esses pontos, nas últimas
três ou quatro décadas. A taxa de fecundidade, que
determina o tamanho das famílias, caiu de perto de cinco
filhos por mulher, nos anos 70, para dois. O número de pessoas
na família caiu de mais cinco para três. Já
temos um sistema de educação de massas no ensino fundamental.
Falta ampliá-lo para os graus seguintes, tornando o acesso
a eles mais igualitário, e investir na qualidade e no conteúdo
do ensino. A taxa de escolarização no ensino fundamental
subiu de 80% nos anos 80 para 95% em 2000. No ensino médio,
ela ainda é inferior a 35%, embora fosse de 14% na década
de 80. Os brasileiros brancos nascidos em 1944 têm, em média,
seis anos de estudo e os negros, três e meio os que
nasceram em 1974, oito anos e meio e seis, respectivamente. As mulheres
são 41% da força de trabalho, hoje. Eram 21% em 1975.
Têm maior escolaridade que os homens. Mas seu salário
ainda é 70% do masculino. Avanços? Sim. Insuficientes?
Sim. Desiguais? Sim.
O Brasil apresenta uma rede de proteção social ainda
frágil e marcada por distorções distributivas
que a tornam menos eficaz para os mais pobres. Praticamente 90%
dos domicílios brasileiros possuem aparelhos de TV. Os meios
de comunicação de massa dominam o processo de circulação
de informação. Ela se torna, por isso, disponível
a todos. Temos uma rede de cientistas e intelectuais de alta qualidade
e nossas classes médias pública e privada
têm estratos técnicos especializados qualificados.
Os empregados da agricultura na força de trabalho, de todos
os níveis, não passam de 20%.
Vamos ser exigentes: comparar só os 99 países que
estiveram no estudo desde 1975. O Brasil encontra-se entre os 48
que melhoraram de posição e tiveram ganhos de qualidade
de vida nesses 26 anos. Subiu seis posições, da 46ª
para a 40ª. Saiu de 0,643 de IDH para 0,777, muito perto da
faixa do IDH alto, que é 0,8. Foram 47 os que perderam posição,
a maioria países africanos que perderam qualidade de vida.
Quatro não se moveram. A Venezuela caiu sete posições,
porque quase não avançou.
O Brasil está melhor que há dez, vinte ou trinta anos.
Apesar das conjunturas negativas, não paramos de superar
obstáculos. Nosso maior desafio, a desigualdade, pressupõe
que antes reconheçamos que ela tem raízes profundas
na discriminação dos negros. Com o crescimento, se
ele for descentralizado, é possível reduzir a desigualdade
territorial da renda, mas, se não adotarmos uma atitude afirmativa
com relação a essa imensa minoria negra, quase a metade
de nós, a metade mais apartada de nós, continuaremos
muito desiguais. Todos melhoraremos, porém numa paralela
que denunciará, sempre, nossa desigualdade mais durável.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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