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Quem fica sofrePesquisa mostra como a ausência
do pai Thaís Oyama
Os brasileiros que trabalham no Japão, os chamados dekasseguis, viajaram em busca de solução para seus problemas financeiros, mas podem estar gerando um outro problema, de natureza emocional. É o que revela um trabalho realizado em São Paulo entre filhos de dekasseguis que não acompanharam os pais e permanecem no Brasil. Estima-se que pelo menos 40.000 crianças e adolescentes estejam nessa situação, sendo criados por tios ou avós. O resultado do trabalho mostra que 30% dos jovens pesquisados apresentavam comportamento agressivo e 60% tinham sinais acentuados de apatia. "O motivo é a desagregação familiar que produziu nas crianças dificuldades brutais de relacionamento", afirma a psicóloga paulista Kioko Nakagawa, responsável pelo estudo. Há um ano, a psicóloga interessou-se em estudar as conseqüências emocionais do fenômeno dekassegui. Visitando escolas públicas de São Paulo e do Paraná, Kioko aplicou alguns testes em crianças com idade entre 7 e 11 anos cujos pais trabalham no Japão. Quando perguntava aos "órfãos" se sentiam saudade do pai ou da mãe, as respostas eram: "não sei" ou "mais ou menos". Kioko achou que havia algo errado. Os orientais são em geral mais contidos que os ocidentais, mas aquele tipo de resposta era moderada demais. "As crianças pareciam não se importar com o fato de encontrar os pais uma vez por ano, e isso não é um padrão normal de comportamento", afirma Kioko. O garoto paulista Felipe Chinen, de 11 anos, é um dos filhos de dekassegui que mudaram de comportamento após a viagem do pai para o Japão. Seu desempenho escolar não foi alterado. Mas em casa ficou mais calado e passou a pedir com freqüência à madrasta que apostasse na loteria. Dizia que assim poderia juntar dinheiro e trazer o pai de volta. Quatro meses depois da partida do pai, Felipe acabou adoecendo. O administrador de empresas Naotaka Chinen retornou ao país assim que soube da notícia. "A gente faz sacrifícios pensando em melhorar a vida da família, mas, às vezes, acaba é prejudicando." Todas as pessoas são sensíveis às mudanças. Quem já trocou de escola, de bairro, de cidade ou de Estado sabe disso. Quando a alteração interfere na família, o problema se agrava. Se um amigo faz falta, imagine um pai ou uma mãe. Nas crianças, o efeito é mais dramático. Quando pai ou mãe estão longe, vai com eles um referencial fundamental de proteção. No caso dos dekasseguis, isso produz um dilema de arrepiar. Se viajam, criam um problema emocional para os filhos. Se não viajam, não conseguem juntar dinheiro. Muitos brasileiros tentaram conciliar as coisas e mudaram-se para o Japão com toda a família. Para as crianças, é ótimo. Embora elas tenham de se adaptar a um novo país, um novo idioma, novos amigos e novos hábitos, o conforto emocional é estupendo. Além disso, já há no Japão escolas particulares próprias para os filhos de brasileiros, com aulas em português. O problema é que, como a vida no Japão é muito cara, quem leva os filhos acaba economizando menos, tornando a viagem não tão vantajosa. Decisão dura, essa.
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