Maílson da Nóbrega
A prioridade invertida
"A opção preferencial pelos idosos não
se justifica
sequer
pelo lado do combate à pobreza, pois 94,7%
dos
que
recebem
benefícios previdenciários não são pobres"
A sociedade deve optar pelas crianças ou pelos idosos?
Resposta óbvia: pelos dois. Os idosos, de qualquer nível social,
merecem uma velhice decente, sejam os que se prepararam para a aposentadoria,
sejam os que, sem condições de fazê-lo, recebem uma renda
mínima do estado. Uma opção não pode se sobrepor
à outra.
No Brasil, todavia, a opção é pelos idosos.
A partir da Constituição de 1988, o Congresso e o Executivo, sob
pressão de lobbies ou por irresponsabilidade fiscal, se engajaram numa
marcha da insensatez que fez dos aposentados um grupo privilegiado da sociedade.
Ainda mais privilegiados, muitos servidores públicos recebem aposentadorias
mensais de mais de 20 000 reais, sem terem contribuído para tanto.
Um novo passo nessa marcha foi dado pelo Congresso ao aumentar
em 7,7% as aposentadorias superiores a um salário mínimo e eliminar
o fator previdenciário. Por essas e outras, de 1988 para cá os
gastos previdenciários saltaram de 4,5% para 11,2% do PIB. Os do INSS,
aí incluídos, subiram de 2,5% para 7,2% do PIB, por conta, sobretudo,
dos aumentos reais do salário mínimo, que reajusta dois em cada
três de seus benefícios.
Entre 1994 e 2010, descontada a inflação, o mínimo
cresceu 125% e os gastos previdenciários passaram de 84 bilhões
para 248 bilhões de reais. Tornamo-nos um país jovem que gasta
nesse campo como nação madura. Com sobrevida pós-aposentadoria
semelhante à dos habitantes dos países ricos, os brasileiros se
aposentam precocemente por tempo de serviço: as mulheres aos 51 anos
e os homens aos 54. Naqueles países, aposenta-se por idade, entre 60
e 67 anos.
A Coreia do Sul gasta 1,4% do PIB com previdência. A China,
2,7% do PIB. Sua razão de dependência demográfica - população
entre 15 e 64 anos dividida pela de 65 anos e mais - é 12,5 e 10,6, respectivamente.
Brasil: 9,1. Calcula-se que nossa razão justificaria gastos previdenciários
de no máximo 3,5% do PIB.
Há muitos mitos em torno do assunto. Fala-se que o idoso
ganha pouco, mas na média se percebe mais na aposentadoria do que no
trabalho: 121% do rendimento dos trabalhadores industriais. Nos Estados Unidos,
essa relação é de 50%. Na Suécia, é de menos
de 70%.
Quem se aposentou com mais de um salário mínimo
reclama de perdas nos últimos quinze anos. Estaria recebendo um número
menor de mínimos. Outro mito. No período, os reajustes superaram
a inflação em 25,2%. Fabio Giambiagi tem um exemplo didático:
se esse raciocínio valesse para o aluguel de um imóvel em reais,
o proprietário diria que recebe hoje um número menor de mínimos,
o que não faz sentido.
A esquerda propaga outro mito: a ausência de déficit
no INSS. Contribuições sociais, que integram a "seguridade
social", estariam sendo usadas para pagar juros e outras despesas. Sem
a tungada, a Previdência teria superávit. Tese furada. Mudar o
lugar do déficit não refresca a situação do Tesouro.
Mais um mito: há déficit por causa da sonegação,
como se a fiscalização não tivesse melhorado.
A opção preferencial pelos idosos não se
justifica sequer pelo lado do combate à pobreza, pois 94,7% dos que recebem
benefícios previdenciários não são pobres. Enquanto
isso, 44% das crianças de até 14 anos são pobres, das quais
perto de 20% são extremamente pobres. Per capita, o estado gasta com
idosos pobres cerca de trinta vezes o que gasta com crianças pobres.
É uma prioridade completamente invertida.
Alheio a tudo isso, o Congresso, por certo considerando que crianças
não votam, tem agido persistentemente em favor dos idosos. Sua contrarreforma
pode acelerar a ruína previdenciária. A menos que acordemos para
a gravidade da situação e elejamos líderes transformadores,
o problema pode ficar insolúvel até o desastre final.
Saiu excelente livro sobre o tema, de Fabio Giambiagi e Paulo
Tafner: Demografia, a Ameaça Invisível (Editora Campus/Elsevier).
Foi a inspiração desta coluna. A obra inclui manifestação
favorável de ministros da Fazenda dos últimos seis governos. O
diagnóstico e as ideias de reforma - constantes do livro - têm,
pois, o apoio de distintas correntes de opinião.
É preciso insistir nas disfunções do sistema
previdenciário e na necessidade de reforma, sem a qual o futuro será
negro para as próximas gerações.
Maílson da Nóbrega é economista
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