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Home  »  Revistas  »  Edição 2169 / 16 de junho de 2010


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Tecnologia

Os novos donos do espaço

O lançamento do foguete Falcon 9, cujo objetivo é
substituir os ônibus espaciais da Nasa, marca o início
dos voos orbitais feitos por empresas privadas


Alexandre Salvador

Fotos Michal Czerwonka /Redux e John Raoux /AP
Negócios à vista
O milionário Elon Musk, que construiu o Falcon 9: "Ou o setor privado assume as viagens espaciais, ou ficaremos presos à Terra"


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Um foguete lançado da Flórida na sexta-feira 4 cruzou os céus até um ponto a 250 quilômetros da Terra e deu início a uma nova era na exploração do espaço. O foguete, batizado de Falcon 9, em fase de testes, é o primeiro construído pela iniciativa privada que poderá num futuro próximo transportar astronautas e colocá-los em órbita terrestre. Hoje, apenas a Nasa, a agência espacial americana, sua equivalente russa e a Agência Espacial Europeia constroem naves capazes de abastecer a Estação Espacial Internacional (ISS), em órbita 340 quilômetros acima da superfície do planeta. Há quatro meses, o presidente americano Barack Obama anunciou que a construção de naves para essa tarefa - e também para outras aventuras tripuladas no cosmo - será entregue a empresas privadas. Os ônibus espaciais, que hoje se desincumbem da tarefa, serão aposentados ainda neste ano: apenas dois outros voos estão previstos. A razão da mudança é a despesa. Cada lançamento dos ônibus espaciais custa aos cofres do governo 450 milhões de dólares. As viagens da Soyuz, a nave russa que transporta carga e astronautas para a ISS, custam em média 50 milhões de dólares por tripulante. O foguete Falcon 9 e a cápsula que ele vai transportar, a Dragon, deverão realizar o mesmo serviço a 20 milhões de dólares por tripulante.

O foguete Falcon 9 e a cápsula Dragon foram construídos pela SpaceX, uma das várias empresas americanas que pretendem ganhar dinheiro com as novas diretrizes do governo dos EUA para a exploração espacial. À frente dessas companhias estão empreendedores ousados e de cofre recheado, que investem pesado para se tornar os novos donos do espaço. O criador da SpaceX é o engenheiro Elon Musk, de 38 anos, um sul-africano de trajetória pouco convencional no mundo dos negócios. Musk fez fortuna ao criar um novo sistema de pagamentos pela internet chamado PayPal, vendido ao eBay por 1,5 bilhão de dólares em 2002. Musk decidiu então diversificar sua área de atuação. Hoje, é dono de duas empresas inovadoras além da SpaceX: a Tesla, fábrica de carros elétricos, que recentemente selou uma parceria com a Toyota, e a SolarCity, que desenvolve painéis de energia solar. A SpaceX, contudo, é a empresa que mais desperta seu entusiasmo e na qual já investiu do próprio bolso 100 milhões de dólares. "Temos duas possibilidades para o futuro das viagens espaciais", disse Musk a VEJA. "Ou transferimos o transporte para o setor privado, reduzindo drasticamente os custos operacionais, ou ficaremos presos à Terra."

Fotos National News/Zuma Press e divulgação
Diversão nas alturas
Richard Branson, do grupo Virgin: turismo em voos suborbitais a 200 000 dólares por bilhete


O grande desafio dos novos empreendedores do espaço é construir foguetes potentes o bastante para entrar em órbita. Para percorrer uma rota que circunde a Terra numa altitude constante, o foguete, quando posicionado paralelamente ao planeta, precisa ter velocidade suficiente para se manter estável. Quanto menor a altitude em que se encontra a espaçonave, maior deve ser sua velocidade para superar a força da gravidade e o próprio peso. Os foguetes que levarão astronautas e carga até a Estação Espacial Internacional deverão estar equipados com motores suplementares, menores que os de propulsão. Sua função é controlar a velocidade de aproximação e acoplagem com a ISS. Foguete e estação estarão viajando na órbita terrestre a uma velocidade altíssima, por isso os controles devem ser suaves e precisos. Essa é a grande dificuldade desse tipo de missão.

Com o voo inaugural do foguete Falcon 9, a SpaceX toma a dianteira na disputa pelo contrato com a Nasa para o uso pela agência das primeiras naves espaciais privadas. O contrato inclui doze missões à ISS ao preço de 1,6 bilhão de dólares. Para se habilitar à bolada, o concorrente precisa fazer três voos de demonstração bem-sucedidos na órbita da Terra. A principal rival da SpaceX é a Orbital, empresa do estado da Virgínia especializada no lançamento de satélites meteorológicos e de comunicação. O fundador do site de compras Amazon, o americano Jeff Bezos, também está de olho na privatização dos voos espaciais. Bezos é o principal acionista da empresa Blue Origin, que recentemente fechou um contrato de 3,7 milhões de dólares com a Nasa para o desenvolvimento de uma cápsula de resgate de astronautas em órbita. Dezenas de outras pequenas empresas de tecnologia tentam abocanhar um contrato com a agência espacial americana para o desenvolvimento de componentes tecnológicos.

O mundo dos negócios espaciais inclui também o turismo. O inglês Richard Branson, dono do conglomerado Virgin, pretende enviar voos de passageiros ao espaço. A bordo da nave SpaceShipTwo, quem desembolsar 200 000 dólares poderá viver a experiência de um voo suborbital, ou seja, subir a mais de 100 quilômetros de altitude, atingindo o limite da atmosfera. Durante a viagem, os passageiros sentirão os efeitos da gravidade zero, além de viajar por oito segundos acima da velocidade do som. A nave encontra-se atualmente em fase de testes e seu primeiro voo está programado para 2011. Com o sucesso da SpaceX, as portas para a exploração espacial comercial estão finalmente abertas.


A estação espacial portátil e inflável

Isaac Brekken/The New York Times
Conforto a bordo
Os dois módulos da Sundancer: capacidade para 36 tripulantes, seis vezes a da ISS

A Bigelow Aerospace, companhia de tecnologia sediada em Las Vegas, planeja desempenhar um papel especial entre as empresas que vão explorar o espaço. Seu principal projeto, batizado de Sundancer, é estabelecer a primeira estação espacial privada na órbita da Terra. O dono da companhia, o empresário do ramo hoteleiro Robert Bigelow, pretende alugar a base espacial a países que desejem mandar astronautas ou desenvolver pesquisas na gravidade zero. Se tudo correr de acordo com o cronograma, o lançamento da primeira base será em 2014, a bordo de um foguete Falcon 9, da SpaceX. As operações comerciais teriam início em 2016. Atualmente, existem dois protótipos da estação (Genesis I e II) em órbita.

Bigelow já investiu 180 milhões de dólares na empresa, valor que inclui a compra da patente da tecnologia, que era da Nasa. Na década de 60, a agência americana desenvolveu um protótipo de estação espacial feito de balões de borracha, mas a ideia foi abandonada. Trinta anos depois, a Nasa a resgatou no projeto TransHab, que usava o kevlar, o mesmo material dos capacetes e coletes à prova de bala dos soldados americanos, em lugar de borracha. O projeto foi novamente abortado em 1998 e a patente acabou nas mãos de Bigelow. Os protótipos da Sundancer são feitos com vectran, uma fibra ainda mais resistente que o kevlar. Por ser essencialmente um balão, a Sundancer é portátil o suficiente para viajar no compartimento de carga de um foguete como o Falcon 9.

A estação espacial da Bigelow é composta de dois módulos interligados e comportará ao todo 36 pessoas, seis vezes a capacidade da Estação Espacial Internacional. A empresa já estabeleceu o preço da estada mensal na Sundancer: 25 milhões por pessoa, transporte incluso. Em caso de um contrato mais longo, de quatro anos de duração, o país ou empresa que fizer um pagamento anual de 395 milhões de dólares poderá manter em caráter permanente seis pessoas a bordo do módulo espacial. Se tiver sucesso com sua primeira estação espacial, o empreendedor planeja oferecer à Nasa uma base fixa na superfície da Lua.

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