Copa
Dunga, o maquiavélico
Isolado
com os fiéis jogadores que escolheu,
o técnico brasileiro mostra
que muitas de suas ações
são inspiradas
nos ensinamentos de O Príncipe

Carlos Maranhão,
de Johannesburgo
Foto s AKG/Latin Stock e Mike Hutchings/Reuter

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O
mestre e o zangado
Nos quatro anos em que morou em Florença, Dunga
apaixonou-se pela cidade de Dante,
Da Vinci e, como faz questão de
acrescentar, de Maquiavel (à esq.), o filósofo que
ensinava
a conquistar e manter o poder. Ele passou a admirá-lo |
Em uma noite fria
do mês passado, no bar de um elegante hotel da região dos Jardins,
em São Paulo, o técnico Dunga, enquanto bebia uma taça de
cabernet sauvignon chileno e beliscava porções de queijo camembert,
fez uma revelação que ajuda a entender sua postura à frente
da seleção brasileira. Quase quatro anos atrás, ele assumiu
o cargo que já foi ocupado por personagens tão diversos como o intransigente
cultor do futebol-arte Telê Santana, o supersticioso Zagallo e o carismático
Felipão, entre os treze treinadores que comandaram os canarinhos em dezoito
Copas do Mundo. Não se parece em nada com nenhum deles. O gaúcho
Carlos Caetano Bledorn Verri, nascido em 1963 no Dia das Bruxas, tem sido, aos
olhos de muitos torcedores e da imensa maioria dos jornalistas esportivos, uma
figura antipática, arrogante e teimosa. Dá raras entrevistas, não
gosta da mídia em geral, despreza seus críticos, não cede
ao clamor popular, não abre mão das próprias convicções
e só pensa naquilo: ganhar. É um objetivo que, para ele, não
passa pelo jogo bonito, pela ousadia criativa, pelo encanto do drible, pelo espetáculo,
enfim, por nenhuma das fascinantes características que construíram
a magia e a saga do futebol do Brasil. "Vivem fazendo comparações
com a seleção de 1982, que jogava bonito", ele recordou. "Mas
qual foi sua grande atuação, além de vitórias contra
Escócia e Nova Zelândia, mais uma virada difícil diante da
União Soviética, antes da derrota para a Itália? Só
nos 3 a 1 com a Argentina. E quem foi nosso grande jogador naquele dia, hein?"
Ele tomou um gole antes de citar com prazer o volante Batista, cujo estilo lembrava
o seu.
Goste-se ou não, as opções de Dunga
até agora estão dando certo. Nos 55 jogos em que ficou no banco
da seleção, grande parte do tempo em pé, com seu cabelo espetado
e suas camisas de cores que cobrem o espectro do arco-íris, venceu 71%
deles e em 56% a equipe não tomou gol. É um desempenho e tanto.
Para trilhar o caminho da vitória, ele acredita em outros fatores. Disciplina,
muito trabalho, a entrega, a lealdade e a obediência tática de seus
comandados e sobretudo foco, foco absoluto no que pretende alcançar,
a ponto de isolar os jogadores do país e do mundo, proibindo-os de abrir
a boca fora das desinteressantes entrevistas coletivas, de tuitar ou de escrever
blogs, enquanto ele mesmo declarou que durante o período da Copa não
pretende sequer ficar ligando para a mulher, pois não foi à África
do Sul para isso.
Mudemos por completo de cenário, com
o convite para que o leitor se transporte para Florença, na Itália.
Ele viveu lá entre 1988 e 1992, período em que jogou na equipe da
Fiorentina. Ficou apaixonado por esse monumento da Renascença, da arte,
da cultura, da ciência, a cidade dos maravilhosos quadros de Botticelli
expostos na Galleria degli Uffizi, do inebriante pôr do sol no Rio Arno,
de Dante Alighieri, Leonardo da Vinci, Galileu, a família Médici...
"E de Maquiavel", acrescentou de bate-pronto, citando o filósofo
e político italiano (1469-1527) que escreveu O Príncipe, uma obra-prima sobre a natureza do poder. "Em Florença eu aprendi
a língua, vi os melhores museus, inclusive nos horários em que estavam
fechados para o público, pois os diretores do clube me conseguiam esse
privilégio, e descobri quem era Maquiavel", explicou.
Na passagem mais famosa da obra, Maquiavel coloca uma eterna questão: para
o príncipe, é melhor ser amado ou ser temido? Conclui que o melhor
é ser as duas coisas, mas, na impossibilidade, deve-se escolher a segunda
opção. Para conservar o mando, ele será obrigado a agir com
sutileza e mesmo com astúcia e crueldade. Em outro ensinamento clássico,
Maquiavel mostra como selecionar uma equipe, ou melhor, ministros e auxiliares.
"Quando vires o ministro pensar mais em si do que em ti, e que em todas as
ações procura o seu interesse próprio, podes concluir que
este jamais será um bom ministro e nele nunca poderás confiar."
Dunga pensa e age assim. Tornou-se temido, sabe ser mau quando julga necessário
e fez um pacto com os jogadores em quem confia, o que o levou, por exemplo, a
convocar o terceiro goleiro Doni e a escalar o volante Felipe Melo, duas de suas
mais contestadas escolhas. É essa então a sua fonte de inspiração?
O treinador esboça um sorriso e não responde diretamente. "Não
tenho muita instrução", admite. "Estudei apenas até
o 2º grau. Mas sou inteligente, tenho experiência e aprendi."
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