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Oscar
Cabral![]() |
"Marx está certo ao criticar o capitalismo do século XIX. Quando propõe a sociedade futura, está errado" |
Este é um grande ano para o poeta
Ferreira Gullar, 79 anos. O autor de A Luta Corporal acaba de ganhar o
Prêmio Camões, a mais importante distinção literária
da língua portuguesa. Será também um grande ano para seus
leitores: no segundo semestre, ele publica Em Alguma Parte Alguma, primeiro
livro de poemas em mais de dez anos. "Só escrevo quando sou convocado
pela poesia", diz ele. A edição da revista cultural Dic-ta&Con-tradicta que será lançada nesta semana traz uma longa entrevista com
o autor. VEJA antecipa, a seguir, alguns trechos:
Criação poética
O
poema não tem plano. Escrevo meio cego. É uma descoberta passo a
passo, algo que vai sendo revelado a mim mesmo a cada momento. Eu nunca presto
atenção no modo como construo um poema. O poema, para mim, é
a grande aventura de como fazer. Costumo dizer em palestras para estudantes
que, quando vou escrever um poema, a página está em branco, e isso
significa que todas as possibilidades estão abertas, são infinitas.
No momento em que sorteio uma palavra, reduzo as possibilidades, o acaso é
menor. Mas não sei o que vai acontecer.
A alegria da
escrita
O poema é cura, não doença. Escrevo
para ser feliz, para me libertar do sofrimento, não para sofrer. É
a alquimia da dor em alegria estética. Mesmo quando a coisa é doída,
amarga, naquele momento a transformo no ouro que é o poema.
Engajamento
Quando escrevi romances de
cordel na época da ditadura, queria fazer mais subversão
do que arte. Estava usando a minha poesia para fazer política. A preocupação
principal era levar as pessoas a ter consciência dos problemas sociais,
como a reforma agrária, as favelas, a desigualdade. Não havia uma
preocupação estética. (...) Lembro-me de quando fomos, com
o Centro Popular de Cultura, à favela da Praia do Pinto, para fazer um
espetáculo, um auto antiamericano, anti-imperialista. Quando chegamos lá,
todos os adultos foram embora, ficaram só as crianças ouvindo o
Vianinha (o dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho) berrar contra o imperialismo.
Olhava aquilo e ficava pensando: "O que é isso? Pregando o anti-imperialismo
para menino de 5 anos na favela da Praia do Pinto?". Isso foi a um mês
do golpe de 1964. Comecei a perceber que a ideia de fazer arte com baixa qualidade
só para atingir o povo era falsa.
Enganos da esquerda
Vivi
a experiência da União Soviética, em Moscou, e depois vivi
o drama e a derrota do (presidente) Allende no Chile eu estava lá
quando ele foi derrubado. Tudo isso me levou a ter uma visão crítica
em relação à revolução, em relação
às coisas em que nós acreditávamos, aos procedimentos que
adotávamos. Aprendi que a coisa era muito mais complexa do que imaginávamos.
Sonhávamos em chegar ao poder e então chegamos ao poder no
Chile, com Salvador Allende. E aí? O que aconteceu? Houve uma grande confusão:
as esquerdas não se entendiam. Os radicais queriam obrigar Allende a fazer
o que não podia ser feito o que ele sabia que não podia fazer,
porque seria derrubado. No fim, foi a própria esquerda que causou a queda
de Allende. Aquilo me deixou arrasado. Sacrifiquei minha vida, meus filhos, para
me meter numa confusão dessas.
Comunismo
Um
professor meu de economia política marxista lá em Moscou me disse
o seguinte: "Você sabe quanto tempo levou para que em Paris houvesse,
todo dia, às 8 da manhã, croissant para todo mundo, leite para todo
mundo, pão para todo mundo, café para todo mundo, e tudo saindo
na hora? Alguns séculos". A revolução desmonta uma coisa
que os séculos criaram. Agora, o Partido resolve, e não vai ter
café, não vai ter pão, leite, nada. Resultado? Trinta anos
de fome na União Soviética. Você desmonta a vida! E havia
outra porção de erros: afirmavam que quem faz a riqueza é
o trabalhador. Mentira! O trabalhador também faz isso, mas, se não
existe um Henry Ford, não existe a fábrica de automóvel e
não vai ter emprego para você. Nem todo mundo pode ser Bill Gates,
nem todo mundo pode inventar uma coisa. Marx está correto quando critica
o capitalismo selvagem do século XIX. Quando propõe a sociedade
futura, está completamente errado.
Invenção
da realidade
Discordo quando dizem que a arte revela a realidade. Na verdade, a arte inventa a realidade. Afirmam que Shakespeare
revelou a complexidade da alma humana; não, ele inventou
a
complexidade da alma humana. Nós vivemos no mundo da cultura. Quem
vive na natureza é macaco e maçã. O índio já
tem os mitos e já está dentro do mundo cultural dele, que foi
inventado. A poesia é uma dessas criações, no terreno da
fantasia, que existe porque a vida não basta. Eu escrevo para ser
feliz, escrevo porque estou me inventando, para ser melhor do que sou.
Incoerência
Eu
sou incoerente, e a minha obra é incoerente. A Luta Corporal é
muito diferente da minha fase de poesia concreta. O livro seguinte a essa fase, Dentro da Noite Veloz, é diferente do próximo, e assim por
diante. Não tenho a preocupação da coerência. Se há
alguma, está na busca, que muda sempre, porque, enquanto vivo, critico,
penso, repenso e invento as coisas que experimentei. Se você quer ser poeta,
se quer fazer poesia, se sente dentro de si essa necessidade, deve se entregar
a ela sempre com paixão, pois não se inventa a realidade de graça.