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dos mercados
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"Temos de continuar ajudando os mais pobres. Temos de garantir que os 190 milhões de brasileiros virem consumidores" |
Sergio
Dutti![]() |
No começo, Dilma Rousseff estranhou o papel de candidata à Presidência da República. Em comparação com o cotidiano acelerado de ministra-chefe da Casa Civil do governo Lula, as primeiras semanas de pré-campanha lhe pareceram umas férias sem muita graça. Na semana que precedeu sua indicação oficial pelo PT, ela tinha voltado ao ritmo de multitarefas e a mente estava ocupada com os mais diversos assuntos. "Estamos retomando o poder territorial dos bandidos no Rio de Janeiro. Droga se combate com inteligência, força e dando opções de trabalho e lazer aos jovens", diz ela, animada com os resultados da parceria do governo federal com o governador Sérgio Cabral. Dilma criticou José Serra, o candidato do PSDB, por ter fustigado o governo da Bolívia e sua leniência no combate ao tráfico de drogas. "Lá também vamos precisar de parceria para destruir os centros de refino de coca, e brigar com o governo boliviano não é um bom caminho." Dilma falou a VEJA sobre drogas, PMDB, juros, inflação, crescimento e sua vida na prisão por crimes políticos no regime militar.
A senhora tem uma vantagem clara
sobre o candidato Lula na eleição de 2002. Ninguém fala agora
de um "Risco Dilma". Por quê?
Primeiro, porque não
existe Risco Brasil. Nós nos destacamos no cenário mundial como
uma nação que tem um rumo, e esse rumo é o correto, com crescimento
econômico, estabilidade, instituições sólidas e democracia.
O mundo vê isso e sente que não será uma eleição
presidencial que vai colocar essas conquistas a perder. Não tem
"Risco Dilma" e não tem "Risco Guerra" (referência
ao senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, que em entrevista a VEJA em janeiro disse que se seu partido vencer as eleições vai "mexer
na taxa de juros, no câmbio e nas metas de inflação"). Ele falou tudo aquilo e o mercado nem se tocou. Não aconteceu nadinha de
nada.
Estamos de acordo que os alicerces
dessa robustez foram lançados durante os oito anos do governo Fernando
Henrique Cardoso?
Discordo. Hoje nós temos estabilidade macroeconômica.
Nós recebemos um governo sem estabilidade, com apenas 36 bilhões
de dólares de reservas. O endividamento do Brasil crescendo, a inflação
ameaçando sair de controle, uma fragilidade externa monumental que a gente
não podia nem mexer, o dólar a 4 reais. Qual é o alicerce?
A
autonomia operacional do Banco Central, as metas de inflação, o
câmbio flutuante, a responsabilidade fiscal...
Não tem
risco hoje porque nós do governo Lula construímos um país
robusto. O que vocês chamavam de "Risco Lula" em 2002 se devia
menos ao candidato do que às condições do país naquele
momento. Nós recebemos do governo anterior um Brasil frágil. Tínhamos
reservas de pouco mais de 36 bilhões de dólares. Hoje temos
250 bilhões de dólares em reservas. O presidente disse
que a crise financeira mundial de 2008 era uma marola. Se você comparar
com o tsunami que houve nos Estados Unidos e com as ondas que ainda atingem a
Europa, nós não tivemos mesmo mais que uma marola. Tanto que a discussão
agora é outra. É discutir os 9% de crescimento.
É
ritmo de crescimento para chinês nenhum botar defeito. Mas é sustentável?
O prudente para o Brasil nas condições atuais é ter um crescimento
de até 6% ao ano. Portanto, esses 9% tendem a baixar. O ritmo de crescimento
tende a desacelerar-se progressivamente rumo ao patamar de 6%.
Esse valor de 6% de crescimento seria o tão falado
quanto imponderável PIB potencial, acima do qual a inflação
dispararia?
Não me sinto confortável com essa noção
de PIB potencial, mas está mais do que provado que não podemos abrir
mão do controle da inflação se quisermos crescimento com
distribuição de renda. Temos de ter uma meta inflacionária
e persegui-la. Com inflação, a renda das pessoas, em especial a
das mais pobres, escoa. Controlar a inflação é distribuir
renda.
Qual seria a política de juros de um eventual
governo Dilma?
A taxa de juros real, descontada a inflação,
baixou muito no governo Lula. Na verdade, ela nunca foi tão baixa quanto
agora. Já foi de 20%, 15% e agora está em 5% a 6%. É um tremendo
avanço. Mas dá para melhorar. A maneira de fazer isso é a
redução disciplinada e sistemática da relação
da dívida líquida sobre o PIB. Nós saímos de 60,6%
em 2002 para 40,7% em 2010. A meta é chegar a 2014 com esse valor
em 28%. A consequência inexorável disso é a queda dramática
da taxa de juros.
A senhora pretende
manter o Bolsa Família nos moldes atuais?
Temos de continuar
ajudando os mais pobres. Temos de garantir que os 190 milhões de brasileiros
virem consumidores. Isso não é possível sem programas sociais.
Agora, vocês me digam: tem maior porta de saída do que o crescimento
do emprego nos níveis atuais? Tem porta de saída melhor do que o
investimento em ensino profissionalizante? Essas são as melhores portas
de saída. O Brasil tem escassez de mão de obra em muitos setores.
Cortador de cana no Nordeste está virando soldador, operário qualificado.
Por isso mesmo, será que não
é hora, para o bem dos próprios beneficiados, de deixar que
caminhem com as próprias pernas, que se independam do governo?
Ainda tem muita gente no Brasil com renda de um quarto do salário mínimo.
São quase 19 milhões de pessoas nessa situação. Por
isso não podemos cortar os programas de distribuição de renda.
Sob muitos pontos de vista, para um político é
melhor suceder na Presidência a um antecessor fracassado do que a outro,
como é o caso de Lula, que, além de bem-sucedido, é popular
e carismático. Isso pesaria muito sobre seus ombros em caso de vitória
nas eleições deste ano?
Acho ótima essa
herança. O governo do presidente Lula pertence uma parte a mim. Eu não
sou uma pessoa que está olhando para o governo com distanciamento. Eu não
tenho distanciamento nenhum do governo do presidente Lula. Eu lutei para esse
governo ser esse sucesso todo. Honra minha biografia ter participado desse governo
e o Lula ter me honrado com a escolha como candidata. Tenho certeza de que o presidente
Lula participará do sucesso do meu governo porque ele construiu as bases
para eu concorrer. Ele deu condições para que eu faça uma
coisa que é dificílima: superar a nós mesmos. O governo Dilma
pode superar o governo Lula porque nós construímos um alicerce para
isso acontecer. O meu projeto é o dele. E o dele é o meu.
Seu aliado, o PMDB, sempre impediu que a reforma política
andasse. Por que com a senhora seria diferente?
Já foi diferente
com o Lula, embora muita gente insista em negar essa realidade. O que caracteriza
o governo Lula foi ter construído uma aliança em torno da governabilidade
e de projetos. Os ministros do PMDB demonstraram a mesma dedicação
aos projetos que os ministros do nosso partido.
Falando
em aliados, como a senhora lidaria com Hugo Chávez, o venezuelano que ignora
os princípios democráticos básicos?
Não
é preciso concordar com as práticas dele, mas não podemos
interferir diretamente no que ele está fazendo. O Brasil é um modelo
de país que respeita a liberdade de imprensa, que respeita empresas, que
respeita contratos, que defende e aprimora a democracia. Tenho certeza de que
nosso modelo acabará influenciando positivamente nossos vizinhos e aliados.
O Brasil pode dar o exemplo pelo diálogo e pelo respeito. O que não
pode fazer é impor.
Como a
senhora avalia o episódio recente do pedido de demissão do jornalista
que, a serviço de seu partido, contratou arapongas para espionar adversários
e até aliados?
É muito difícil essa conversa. É
um assunto que girou em torno de documentos que ninguém viu nem sequer
sabe se existem e de uma coisa que nunca chegou a se concretizar. Por isso prefiro
concentrar minha resposta sobre a linha de conduta geral da campanha. Na minha
campanha, não vou admitir nenhuma prática que não respeite
o adversário, que não tenha princípios éticos claros
e que não honre o fato de termos o governo com a maior aprovação
da história recente deste país. A minha decisão é
manter uma campanha de alto nível.
De
tanto cumprir cadeia política durante a ditadura Vargas, o grande escritor
Graciliano Ramos, um tipo depressivo, saiu-se com essa: "É-me indiferente
estar preso ou solto". A senhora chegou a ter um sentimento parecido?
Não.
Nos cárceres da ditadura militar, sempre ansiei pela liberdade. Mas entendo
bem a que o Graciliano se refere. Existe a figura do preso velho, conhecedor dos
caminhos dentro da cadeia. Isso dá uma certa sensação de
controle que, ao final da minha pena de três anos, tornava a prisão
menos insuportável. Eu tinha um esconderijo de livros e, com a ajuda do
dentista da penitenciária, trocava bilhetes com meu marido, preso na ala
masculina. Contávamos com algumas boas almas entre os carcereiros, e o
capelão militar deu-me uma Bíblia, que, para passar pela
fresta da porta da cela, teve sua capa arrancada. Um sargento detonou, sem querer,
uma bomba de gás lacrimogêneo perto das celas e abriram um inquérito
para apurar responsabilidades. Nós, as presas, sabíamos quem era
o culpado, mas decidimos não identificá-lo. Com isso caímos
nas graças dos sargentos. Enfim, o preso velho começa a acomodar
seus ossos naquele ambiente.
Em situações extremas
as pessoas costumam ter reações inesperadas. Quem era forte revela-se
um fraco. O frágil se transforma em valente. A senhora se viu
na cadeia, sob tortura, tendo reações surpreendentes?
É um pouco mais complexo do que você imagina. Depende muito
do seu momento. A mesma pessoa pode estar forte um dia e em outro desabar
ou estar entregue e, de repente, encontrar forças descomunais
que não sabia possuir. É o momento que manda, e você não manda no seu momento.
A sua opção
pela luta armada na juventude vai ser um assunto da campanha eleitoral.
As pessoas querem saber se a senhora deu tiros, explodiu bombas ou sequestrou.
Estou
pronta para esse debate. Pertenci a organizações políticas
que praticaram esses atos. Mas eu jamais me envolvi pessoalmente em alguma ação
violenta. Minha função era de retaguarda. Os processos militares
que resultaram em minha condenação mostram isso com clareza. Nunca
fui processada por ações armadas. Tenho muito orgulho de ter combatido
a ditadura do primeiro ao último dia. A ditadura foi muito ruim. Cassaram
os partidos políticos, fecharam órgãos de imprensa, criaram
mecanismos de censura, torturaram... Mas o pior de tudo é que tiraram a
esperança da minha geração. Quem tinha 15 ou 16 anos de idade
quando foi dado o golpe de 64 não enxergava o fim do túnel. De um
jovem cheio de energia e sem esperança podem-se esperar reações
radicais.
É fácil falar vendo o filme de trás
para a frente, mas hoje parece indiscutível que o pessoal da luta armada
não queria a volta da democracia, mas apenas trocar uma ditadura de direita
por outra de esquerda. A senhora tinha consciência disso?
Olha
aqui, no meio da luta essas coisas nunca ficavam claras. O objetivo prioritário
era nos livrar da ditadura, e lutamos embalados por um sentimento de justiça,
de querer melhorar a vida dos brasileiros. Foi um período histórico
marcante em todo o mundo. Os jovens franceses estavam nas barricadas de maio de
68. Jovens americanos morriam baleados pela polícia nos câmpus universitários
em protesto contra a Guerra do Vietnã, a mais impopular das guerras
dos Estados Unidos, um conflito que aos nossos olhos tinha uma potência
tecnomilitar agressora sendo derrotada por um país pequenino, mas valente.
Nossa simpatia com o lado mais fraco era óbvia. Depois daquela fase eu
continuei lutando pela democracia no antigo MDB e no PDT. Nesse processo, eu mudei
com o Brasil, mas jamais mudei de lado.