Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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DVDs

O Inocente (L'Innocente, Itália/França, 1976. Versátil) – Tullio (Giancarlo Giannini) quer tudo e mais um pouco: quer só para si a amante e quer que sua mulher, Giuliana (Laura Antonelli), dê-lhe compreensão e apoio e ouça suas indiscretas confidências amorosas. Quando Tullio vê sua mulher pelos olhos de outro homem, porém, esse quadro se inverte – tarde demais e com conseqüências funestas. Luchino Visconti dirigiu seu último filme já entrevado e, mais ainda que de hábito, ele está repleto de pensamentos de morte e arrependimento. O protagonista – um burguês que vê o privilégio como direito e é incapaz de se comover com os desejos alheios – tem, claro, um viés político. Mas, acima de tudo, aquilo de que o diretor trata aqui são os sentimentos tortuosos e abismos intransponíveis que vêm na esteira de uma traição.

Divulgação
Sob o Olhar do Mar: um Kurosawa póstumo


Sob o Olhar do Mar
(Umi Wa Miteita,
Japão, 2002. Columbia) – A prostituta que se apaixona por um dos homens que atende é um tema tão clássico que poderia já estar esgotado. Mas, nesse roteiro deixado pelo diretor Akira Kurosawa (1910-1998) – que muito raramente se interessava por histórias protagonizadas por mulheres – junto com profusos desenhos e notas de produção, ele ganha novos contornos. Da desilusão da jovem O-Shin com um samurai caído em desgraça até o desastre natural que compõe o trecho final do filme – e que, de forma literal, varre o passado dos personagens –, a história percorre um arco inesperado. Ainda que falte a Sob o Olhar do Mar a centelha que o próprio Kurosawa poderia ter imprimido a ele, é um trabalho tocante e elegante. Trailer.

 

LIVROS

O Dia do Casamento, de John Berger (tradução de Roberto Grey; Rocco; 170 páginas; 24 reais) – Quando começa a namorar o italiano Gino, a jovem grega Ninon não sabe que contraiu o vírus HIV em um encontro sexual furtivo anos antes. O Dia do Casamento é a história triste mas esperançosa do amor entre Gino e Ninon. O inglês Berger causou polêmica quando, ao ganhar o prestigioso prêmio Booker pelo romance G, em 1972, doou parte do dinheiro aos Panteras Negras, grupo negro radical. Desta vez, sua generosidade encontrou um fim menos controverso. Nos países onde o livro é publicado, Berger doa a maior parte dos direitos autorais a associações de assistência às vítimas da aids.

Dia de Folga, de Jacques Prévert (tradução de Carlito Azevedo; Cosac & Naify; 47 páginas; 25,50 reais) – O francês Jacques Prévert (1900-1977) gostava de pássaros. São eles os principais personagens dessa coletânea, que se abre com o encantador Para Fazer o Retrato de um Pássaro. Os dezesseis poemas foram selecionados pelo poeta e ilustrador holandês Wim Hofman pensando no público infantil. Mas o leitor adulto também pode derivar prazer do lirismo de Prévert. Com um toque de crueldade pedagogicamente incorreta – mas que não é estranha ao universo da fábula e do conto infantil –, o poeta conta de um gato que comeu metade de um passarinho e de uma baleia que esfaqueou o pescador que a perseguia. Leia trecho.

Lugar Público, de José Agrippino de Paula (Papagaio; 267 páginas; 32 reais) – Nascido em 1937, o autor hoje vive recluso em Embu das Artes, interior de São Paulo. Esquizofrênico, tem mania de perseguição e demonstra pouco contato com a realidade. Nos anos 60, porém, Agrippino de Paula foi ligado ao movimento tropicalista, fez teatro e dirigiu um filme, Hitler Terceiro Mundo. A reedição de seus livros foi iniciada em 2001 com seu segundo romance, PanAmérica. Lançado em 1965, Lugar Público – que só agora ganha uma segunda edição – foi sua estréia na ficção. A obra, que acompanha um grupo de jovens sem rumo por uma grande cidade, tornou-se um clássico da contracultura brasileira.

 

DISCOS

 
Jorge Rosenberg
Donato: um disco cheio de parcerias inspiradas  

Lugar Comum, João Donato (Dubas) – Lançado originalmente em 1975, esse álbum do amazonense João Donato esteve disponível em CD apenas no Japão por vários anos. Por isso, costumava ser disputado a tapa pelos fãs de MPB. O disco, que ganha finalmente uma edição nacional, é uma das obras mais inspiradas desse cantor, pianista e arranjador conhecido pelo refinamento, que esteve na linha de frente da bossa nova. Ele apresenta aqui parcerias com vários letristas. O principal colaborador é Gilberto Gil, que criou oito letras e participa de três faixas. Os versos de Gil são, em boa parte, jogos de palavras que se casam à perfeição com a música de Donato. Há ainda canções em que ele divide a autoria com Caetano Veloso e Guarabira. O encarte traz um depoimento do artista sobre as gravações.

On My Way, Ben Kweller (BMG) – Esse roqueiro texano absorveu fartas doses de música de qualidade em sua formação. Ainda na infância, ele deu seus primeiros passos no métier musical guiado por ninguém menos do que Bruce Springsteen – o contato entre ambos se deu porque o guitarrista da banda desse último era amigo do pai de Kweller. Hoje, aos 22 anos, ele faz canções marcadas por teclados vigorosos que remetem aos melhores momentos de Elton John e Billy Joel. On My Way, seu segundo disco-solo, traz faixas de apelo radiofônico e outras em que Kweller demonstra toda a sua energia de multiinstrumentista. O CD tem duas baladas perfeitas, Hear Me Out e Different But the Same.

 

 

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