Sob o Olhar do Mar (Umi Wa Miteita, Japão, 2002.
Columbia) A prostituta que se apaixona por um dos homens
que atende é um tema tão clássico que poderia
já estar esgotado. Mas, nesse roteiro deixado pelo diretor
Akira Kurosawa (1910-1998) que muito raramente se interessava
por histórias protagonizadas por mulheres junto com
profusos desenhos e notas de produção, ele ganha novos
contornos. Da desilusão da jovem O-Shin com um samurai caído
em desgraça até o desastre natural que compõe
o trecho final do filme e que, de forma literal, varre o
passado dos personagens , a história percorre um arco
inesperado. Ainda que falte a Sob o Olhar do Mar a centelha
que o próprio Kurosawa poderia ter imprimido a ele, é
um trabalho tocante e elegante. Trailer.
LIVROS
O
Dia do Casamento, de John Berger (tradução
de Roberto Grey; Rocco; 170 páginas; 24 reais) Quando
começa a namorar o italiano Gino, a jovem grega Ninon não
sabe que contraiu o vírus HIV em um encontro sexual furtivo
anos antes. O Dia do Casamento é a história
triste mas esperançosa do amor entre Gino e Ninon. O inglês
Berger causou polêmica quando, ao ganhar o prestigioso prêmio
Booker pelo romance G, em 1972, doou parte do dinheiro aos
Panteras Negras, grupo negro radical. Desta vez, sua generosidade
encontrou um fim menos controverso. Nos países onde o livro
é publicado, Berger doa a maior parte dos direitos autorais
a associações de assistência às vítimas
da aids.
Dia
de Folga, de Jacques Prévert (tradução
de Carlito Azevedo; Cosac & Naify; 47 páginas; 25,50
reais) O francês Jacques Prévert (1900-1977)
gostava de pássaros. São eles os principais personagens
dessa coletânea, que se abre com o encantador Para Fazer
o Retrato de um Pássaro. Os dezesseis poemas foram selecionados
pelo poeta e ilustrador holandês Wim Hofman pensando no público
infantil. Mas o leitor adulto também pode derivar prazer
do lirismo de Prévert. Com um toque de crueldade pedagogicamente
incorreta mas que não é estranha ao universo
da fábula e do conto infantil , o poeta conta de um
gato que comeu metade de um passarinho e de uma baleia que esfaqueou
o pescador que a perseguia. Leia
trecho.
Lugar
Público, de José Agrippino de Paula (Papagaio;
267 páginas; 32 reais) Nascido em 1937, o autor hoje
vive recluso em Embu das Artes, interior de São Paulo. Esquizofrênico,
tem mania de perseguição e demonstra pouco contato
com a realidade. Nos anos 60, porém, Agrippino de Paula foi
ligado ao movimento tropicalista, fez teatro e dirigiu um filme,
Hitler Terceiro Mundo. A reedição de seus livros
foi iniciada em 2001 com seu segundo romance, PanAmérica.
Lançado em 1965, Lugar Público que
só agora ganha uma segunda edição foi
sua estréia na ficção. A obra, que acompanha
um grupo de jovens sem rumo por uma grande cidade, tornou-se um
clássico da contracultura brasileira.
DISCOS
Lugar Comum, João Donato (Dubas)
Lançado originalmente em 1975, esse álbum do
amazonense João Donato esteve disponível em CD apenas
no Japão por vários anos. Por isso, costumava ser
disputado a tapa pelos fãs de MPB. O disco, que ganha finalmente
uma edição nacional, é uma das obras mais inspiradas
desse cantor, pianista e arranjador conhecido pelo refinamento,
que esteve na linha de frente da bossa nova. Ele apresenta aqui
parcerias com vários letristas. O principal colaborador é
Gilberto Gil, que criou oito letras e participa de três faixas.
Os versos de Gil são, em boa parte, jogos de palavras que
se casam à perfeição com a música de
Donato. Há ainda canções em que ele divide
a autoria com Caetano Veloso e Guarabira. O encarte traz um depoimento
do artista sobre as gravações.
On
My Way, Ben Kweller (BMG) Esse roqueiro texano absorveu
fartas doses de música de qualidade em sua formação.
Ainda na infância, ele deu seus primeiros passos no métier
musical guiado por ninguém menos do que Bruce Springsteen
o contato entre ambos se deu porque o guitarrista da banda
desse último era amigo do pai de Kweller. Hoje, aos 22 anos,
ele faz canções marcadas por teclados vigorosos que
remetem aos melhores momentos de Elton John e Billy Joel. On
My Way, seu segundo disco-solo, traz faixas de apelo radiofônico
e outras em que Kweller demonstra toda a sua energia de multiinstrumentista.
O CD tem duas baladas perfeitas, Hear
Me Out e Different
But the Same.