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Ponto
de vista: Lya Luft
Sobre pais e filhos
"O mundo é informe quando se está começando
a caminhar por ele: quem poderia sugerir formas, apontar caminhos,
discutir questões, escutar e dialogar está tão inseguro quanto os
que mal acabaram de nascer"
"Por que as crianças hoje são
tão malcriadas e os adolescentes tão agressivos?"
A pergunta mexeu com todos. Alguns aplaudiram,
outros deram risada (solidária, não irônica),
e pareceu correr pela sala uma onda de alívio: o problema
não era a dor secreta de cada um, mas uma aflição
geral. Minha resposta não foi nada sofisticada. Saltou espontânea
de trás de tudo o que li sobre educação e psicologia:
"Porque a gente deixa".
E a gente deixa porque talvez uma generalizada
troca de papéis nos confunda. Por exemplo, a que ocorre entre
público e privado. Vivemos uma ânsia de expor o que
pensamos sobre os outros, achando que nos resguardamos da opinião
alheia. No entanto, essa é uma forma de botar a cara na janela,
tornar-se cabide dos fantasmas alheios uma verdade mais contundente
do que imaginam os que nunca se debruçaram em nenhum parapeito.
Ilustração Ale Setti
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Quando pequena, numa cidade do interior, era engraçado no
fim da tarde, no sobrado de meus avós, subir numa banqueta
e, cotovelos apoiados em almofadas, ficar olhando pela janela o
que se passava na rua. Até que descobri que eu é que
estava sendo olhada: eu me expunha. Eu, tímida e assustada,
era personagem, não platéia. E a janela perdeu a graça.
Filhos malcriados e agressivos... O problema
da autoridade em crise não é do vizinho, não
acontece no exterior, não é confortavelmente longínquo.
É nosso. Parece que criamos um bando de angustiados, mais
do que seria natural. Sim, natural, pois, sobretudo na juventude,
plena de incertezas e objeto de pressões de toda sorte, uma
boa dose de angústia é do jogo e faz bem.
Mas quando isso nos desestabiliza, a nós,
adultos, e nos isola desses de quem estamos ainda cuidando, a quem
devemos atenção e carinho, braço e abraço,
é porque, atordoados pelo excesso de psicologismo barato,
talvez tenhamos desaprendido a dizer não. Nem distinguimos
quando se devia dizer sim. Estamos tão desorientados quanto
esses que têm vinte, trinta anos menos do que nós.
Assim é instalada a inversão, e esta pode ser bem
dolorosa.
Muitas vezes crianças são excessivamente
malcriadas e adolescentes agressivos demais porque têm medo.
Ser insolente, testar a autoridade adulta, quebrar a cara e bater
pé, tudo isso faz parte do crescimento, da busca saudável
de um lugar no mundo. Mas não ter limites é assustador.
Ser superprotegido fragiliza. O mundo é informe quando se
está começando a caminhar por ele: quem poderia sugerir
formas, apontar caminhos, discutir questões, escutar e dialogar
está tão inseguro quanto os que mal acabaram de nascer.
Teorias mal explicadas, mal digeridas e mais
mal aplicadas geraram o medo de magoar, de afastar, de "perder"
o filho. A fuga da responsabilidade, o receio de desagradar (todos
temos de ser bonzinhos) aliam-se ao conformismo, o "hoje em dia
é assim mesmo". Ninguém mais quer ser responsável:
é cansativo, é tedioso, dá trabalho, causa
insônia. Queremos ser amiguinhos, mas os filhos precisam de
pais. E, intuindo nossa aflição, esperneiam, agridem,
se agridem talvez por não confiarem o suficiente em
nós.
Ter um filho é, necessariamente, ser
responsável. Ensinar numa escola é ser responsável.
Estar vivo, enfim, é uma grave responsabilidade. Não
basta tentar salvar a própria pele nessa guerrilha social,
econômica, ética e concreta em que estamos metidos.
Trata-se de ter ao menos um pequeno facho de confiança, generosidade
e experiência, e colocá-lo nas mãos das crianças
e dos jovens que, queiram eles ou não, se voltam para nós
antes de se voltarem contra nós.
Lya Luft é escritora
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