Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
A herança de
Ronald Reagan

Ele encenou a volta a uma política de
prepotência que vai desembocar em
W. Bush
e na Guerra do Iraque

Todo mundo fica bonzinho quando morre, como se sabe, mas Ronald Reagan conseguiu muito mais. Ele ficou não só bom como enorme, "o maior presidente da segunda metade do século XX", segundo Charles Krauthammer, colunista da revista Time, uma "figura cuja carreira interessará os historiadores por séculos e séculos", segundo George F. Will, colunista da revista Newsweek. Só uns raros obituários, na imprensa americana, ficaram abaixo disso. Virtualmente todos repetiram que Reagan foi "o homem que fez os americanos acreditarem de novo em si mesmos". Chegou-se ao máximo quando, de diversas fontes, começou a pingar, e ganhou ímpeto, a proposta de imprimir a imagem de Reagan no dinheiro americano, nem que fosse numa moeda de meio dólar. Meio dólar? Seria pouco. Logo a proposta dominante era de que ele tomasse o lugar de Alexander Hamilton na nota de 10 dólares. Afinal, Hamilton, se foi herói da independência e um dos principais formuladores da Constituição americana, além de primeiro secretário do Tesouro do país, nunca foi presidente. Já Reagan foi -- e que presidente!

Que fez ele para morrer imerso em tal mar de glória? Basicamente lhe atribuem dois grandes feitos. Primeiro, o de ter mudado o humor do país, combalido com o duplo golpe do escândalo de Watergate e da derrota no Vietnã, e, segundo, ter derrotado a União Soviética e o império comunista no Leste Europeu, pondo fim à Guerra Fria. Começando pelo segundo, se realmente tivesse sido ele o vencedor da União Soviética, que proeza! Mereceria não a de 10, mas a nota de 100 dólares, no lugar do amado Benjamin Franklin, que afinal, como lembrou um editorial do New York Times, também não foi presidente. Reagan sem dúvida adotou uma política de visceral anticomunismo e acelerou a corrida armamentista até o ponto do delírio, ao imaginar ser possível construir um mecanismo, batizado de "Guerra nas Estrelas", pelo qual uma espécie de escudo espacial protegeria os EUA de ataques nucleares. Mas a União Soviética já vinha suficientemente corroída por dentro e carcomida pelas bordas para se supor com segurança que, mesmo sem Reagan, e mesmo com um presidente americano que adotasse políticas opostas, não escaparia ao destino que afinal a relegou ao arquivo morto da história.

O outro ponto, a questão do moral americano, que Reagan teria resgatado, parte de uma comparação entre sua Presidência e a do antecessor, Jimmy Carter. Carter convidou os americanos a um exame de consciência. Se a Guerra do Vietnã conduzira ao maior desastre militar da história do país, era hora de rever a política de beligerante intervencionismo levada a efeito desde a II Guerra Mundial. Se a política de intransigente anticomunismo tinha levado os EUA a apoiar sangrentas ditaduras na América Latina, era hora de revertê-la em nome de valores como a liberdade e o respeito à vida. Os direitos humanos foram a bandeira maior da política externa de Carter. Com ela, pressionou as ditaduras, inclusive a brasileira, e ajudou a derrubá-las. No plano interno, Carter convidava os americanos a outro tipo de moderação. Pregava que não gastassem tanto petróleo. Aconselhava o uso da energia solar para o aquecimento doméstico.

Reagan veio com filosofia oposta. Chega de purgação, é hora de levantar a cabeça, eis sua mensagem. "Renovemos nossa fé e nossa esperança", disse, no discurso de posse, em 1981. "Temos todo o direito de sonhar nossos heróicos sonhos." Em 1983, ordenou a intervenção em Granada, minúsculo país caribenho onde um governo esquerdista tomara o poder. Foi um episódio grotesco, dadas a desproporção de forças e a desimportância da ilhota invadida, mas comemorado como uma vitória militar de épicas proporções. Valeu como símbolo e recado ao mundo. A purgação pós-Vietnã tinha passado. O mundo estava avisado de que a velha política externa estava de volta, arrogante, prepotente e sem medo das aventuras militares. No plano interno, para ficar na questão da energia que tanto preocupara Carter, Reagan propunha, na campanha eleitoral, que se abolisse o limite de velocidade nas estradas.

Os americanos gostaram. Reagan ganhou dois mandatos e saiu do segundo com 65% de aprovação popular. Mais do que a ideologia, ajudou o fato de ser um tipo simpático e alegre, espontâneo, nem um pouco intelectual, desencucado. Ele era o "grande comunicador", insuperável na arte de cativar. Mas, bem espremidas as coisas, Carter, tido como perdedor, encarnou uma vertente humanista da política americana, representada lá atrás por Woodrow Wilson, outro tanto por Franklin Roosevelt, talvez um pouco por John Kennedy. Esses presidentes tinham em mente um mundo mais igualitário e mais parceiro. Já Reagan, tido por vencedor, ressuscitou, e fez inchar, uma vertente de onipotência, de beligerância e de império que vai desembocar em George W. Bush, na Guerra do Iraque e, em sua mais feia ramificação, nos acontecimentos da prisão de Abu Ghraib.

 
 
 
 
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