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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A herança de
Ronald Reagan
Ele encenou a volta a uma política
de
prepotência que vai desembocar em
W. Bush e na Guerra do
Iraque
Todo mundo fica bonzinho quando morre, como
se sabe, mas Ronald Reagan conseguiu muito mais. Ele ficou não
só bom como enorme, "o maior presidente da segunda metade
do século XX", segundo Charles Krauthammer, colunista da
revista Time, uma "figura cuja carreira interessará
os historiadores por séculos e séculos", segundo George
F. Will, colunista da revista Newsweek. Só uns raros
obituários, na imprensa americana, ficaram abaixo disso.
Virtualmente todos repetiram que Reagan foi "o homem que fez os
americanos acreditarem de novo em si mesmos". Chegou-se ao máximo
quando, de diversas fontes, começou a pingar, e ganhou ímpeto,
a proposta de imprimir a imagem de Reagan no dinheiro americano,
nem que fosse numa moeda de meio dólar. Meio dólar?
Seria pouco. Logo a proposta dominante era de que ele tomasse o
lugar de Alexander Hamilton na nota de 10 dólares. Afinal,
Hamilton, se foi herói da independência e um dos principais
formuladores da Constituição americana, além
de primeiro secretário do Tesouro do país, nunca foi
presidente. Já Reagan foi -- e que presidente!
Que fez ele para morrer imerso em tal mar
de glória? Basicamente lhe atribuem dois grandes feitos.
Primeiro, o de ter mudado o humor do país, combalido com
o duplo golpe do escândalo de Watergate e da derrota no Vietnã,
e, segundo, ter derrotado a União Soviética e o império
comunista no Leste Europeu, pondo fim à Guerra Fria. Começando
pelo segundo, se realmente tivesse sido ele o vencedor da União
Soviética, que proeza! Mereceria não a de 10, mas
a nota de 100 dólares, no lugar do amado Benjamin Franklin,
que afinal, como lembrou um editorial do New York Times,
também não foi presidente. Reagan sem dúvida
adotou uma política de visceral anticomunismo e acelerou
a corrida armamentista até o ponto do delírio, ao
imaginar ser possível construir um mecanismo, batizado de
"Guerra nas Estrelas", pelo qual uma espécie de escudo espacial
protegeria os EUA de ataques nucleares. Mas a União Soviética
já vinha suficientemente corroída por dentro e carcomida
pelas bordas para se supor com segurança que, mesmo sem Reagan,
e mesmo com um presidente americano que adotasse políticas
opostas, não escaparia ao destino que afinal a relegou ao
arquivo morto da história.
O outro ponto, a questão do moral americano,
que Reagan teria resgatado, parte de uma comparação
entre sua Presidência e a do antecessor, Jimmy Carter. Carter
convidou os americanos a um exame de consciência. Se a Guerra
do Vietnã conduzira ao maior desastre militar da história
do país, era hora de rever a política de beligerante
intervencionismo levada a efeito desde a II Guerra Mundial. Se a
política de intransigente anticomunismo tinha levado os EUA
a apoiar sangrentas ditaduras na América Latina, era hora
de revertê-la em nome de valores como a liberdade e o respeito
à vida. Os direitos humanos foram a bandeira maior da política
externa de Carter. Com ela, pressionou as ditaduras, inclusive a
brasileira, e ajudou a derrubá-las. No plano interno, Carter
convidava os americanos a outro tipo de moderação.
Pregava que não gastassem tanto petróleo. Aconselhava
o uso da energia solar para o aquecimento doméstico.
Reagan veio com filosofia oposta. Chega de
purgação, é hora de levantar a cabeça,
eis sua mensagem. "Renovemos nossa fé e nossa esperança",
disse, no discurso de posse, em 1981. "Temos todo o direito de sonhar
nossos heróicos sonhos." Em 1983, ordenou a intervenção
em Granada, minúsculo país caribenho onde um governo
esquerdista tomara o poder. Foi um episódio grotesco, dadas
a desproporção de forças e a desimportância
da ilhota invadida, mas comemorado como uma vitória militar
de épicas proporções. Valeu como símbolo
e recado ao mundo. A purgação pós-Vietnã
tinha passado. O mundo estava avisado de que a velha política
externa estava de volta, arrogante, prepotente e sem medo das aventuras
militares. No plano interno, para ficar na questão da energia
que tanto preocupara Carter, Reagan propunha, na campanha eleitoral,
que se abolisse o limite de velocidade nas estradas.
Os americanos gostaram. Reagan ganhou dois
mandatos e saiu do segundo com 65% de aprovação popular.
Mais do que a ideologia, ajudou o fato de ser um tipo simpático
e alegre, espontâneo, nem um pouco intelectual, desencucado.
Ele era o "grande comunicador", insuperável na arte de cativar.
Mas, bem espremidas as coisas, Carter, tido como perdedor, encarnou
uma vertente humanista da política americana, representada
lá atrás por Woodrow Wilson, outro tanto por Franklin
Roosevelt, talvez um pouco por John Kennedy. Esses presidentes tinham
em mente um mundo mais igualitário e mais parceiro. Já
Reagan, tido por vencedor, ressuscitou, e fez inchar, uma vertente
de onipotência, de beligerância e de império
que vai desembocar em George W. Bush, na Guerra do Iraque e, em
sua mais feia ramificação, nos acontecimentos da prisão
de Abu Ghraib.
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