Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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Diogo Mainardi
O diogomainardismo

"Assim como o termo malufismo ganhou
a conotação de desvio de dinheiro público,
o diogomainardismo pode ser
definido
como
uma difamação espalhafatosa
na tentativa de chamar atenção"

Virei um insulto. Tutty Vasques assinalou o fato. Quando os leitores querem insultá-lo por causa de um artigo, já não ofendem sua mãe, como antes, mas o comparam a mim. Chamam-no de Diogo Mainardi. Assim como o termo malufismo ganhou a conotação de desvio de dinheiro público, diogomainardismo pode ser definido como uma difamação espalhafatosa na tentativa de chamar atenção. Foi com esse significado nada lisonjeiro que meu nome entrou para o dicionário. Acompanhado por adjetivos como derrotista, frustrado, invejoso, ególatra, leviano, oportunista, mal-humorado. Pouco importa que eu não me reconheça na descrição. Diogo Mainardi se tornou uma entidade maior do que eu. Como Pelé, posso começar a falar a meu respeito na terceira pessoa.

O epíteto Diogo Mainardi é aplicado a qualquer coitado que reclame publicamente de alguma coisa. Do jornalista que denuncia nossa falta de jeito para o cinema ao blogueiro adolescente que se recusa a gostar de uma determinada banda musical. Em geral, trata-se de gente inofensiva que se limita a soltar um comentário gratuito sobre um tema desimportante. Basta pouco para estimular a ultrajante comparação. Atribuíram-me o monopólio do protesto. Desse modo, qualquer um que proteste é automaticamente associado a mim, com tudo o que isso tem de negativo. Os brasileiros sempre preferiram o conchavo e o corporativismo à discussão e à insubordinação. Apesar dessa nossa propensão à canalhice, tivemos grandes contestadores no passado, sobretudo na imprensa. Aparentemente não sobrou nenhum. Ou melhor, só sobrei eu, um palerma, uma caricatura grosseira de quem me precedeu.

Pelas contas de Tutty Vasques, 96% dos cariocas cassariam meu visto e me mandariam embora do Rio de Janeiro. Certamente os mesmos 96% que apoiavam Lula no começo do mandato. A eleição de Lula representou o triunfo do diogomainardismo. Peguei no pé do presidente desde os primeiros tempos, para contrastar a euforia plebiscitária que se formou ao seu redor. Agora a euforia passou. As pessoas se encheram de Lula e, conseqüentemente, encheram-se de mim, identificando-me como uma espécie de parasita do insucesso petista. Cresci como um verme solitário na barriga do governo, alimentando-me da figura de bom selvagem de Lula, com seu palavreado primário e sua malandragem brasileira. Quando Lula acabou, acabei junto. Virei um palavrão. Daqui a alguns anos, por sorte, ninguém mais se lembrará de nós.

Claro que ser identificado como único opositor do Brasil me envaidece. Claro também que não é bom para o país. A identidade cultural brasileira não se baseou em idéias, mas em um ou dois acordes de violão. A falta de idéias não criou o hábito da contraposição, da reivindicação, da argumentação. Quem não está acostumado a argumentar é facilmente enganado. Por isso o Brasil não funciona. Porque a gente forma espontaneamente maiorias bovinas de 96%. Cultura não é rebolar na rua. Cultura é reclamar, achincalhar, protestar, caluniar. Lamento muito que meu nome seja usado para ofender os mais inconformados. Se alguém o chamar de Diogo Mainardi, porém, não se desespere. Eu já fui comparado até a Aracy de Almeida.

 

 
 
 
 
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