Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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Entrevista: Kofi Annan
O diálogo nos salvará

O número 1 da ONU diz que o mundo
está retomando aos poucos o senso
de solidariedade internacional


Eduardo Salgado

Aos 66 anos, Kofi Annan, o secretário-geral das Nações Unidas, poderia estar gozando de uma confortável e merecida aposentadoria. Em mais de quarenta anos de ONU, trabalhou preferencialmente em áreas de conflito em todos os continentes. Está no segundo mandato. Em 2001, dividiu o Prêmio Nobel da Paz com a organização que representa. Seu cotidiano é dominado atualmente por problemas que vão da aids à guerra no Iraque. Nascido em Gana, Annan chegou aos Estados Unidos como bolsista aos 21 anos. Formou-se em economia e fez mestrado em gerenciamento pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Há vinte anos, divide o mesmo teto com a segunda mulher, Nane, uma sueca que deixou a advocacia para se dedicar à arte. Annan recebeu VEJA em sua ensolarada sala no 38º andar da sede da ONU, em Nova York, antes de embarcar para o Brasil, onde participa da conferência da Unctad, órgão dedicado ao estudo e aprimoramento das relações econômicas entre países.

Veja – O senhor conhece de perto alguns dos mandatários mais cruéis dos últimos anos. Qual foi sua impressão de Saddam Hussein e do deposto presidente iugoslavo Slobodan Milosevic?
Annan – A aparência de Saddam Hussein era a de um homem comum. Tinha fala mansa, calma, lenta. Quase não gesticulava enquanto falava. Nada na sua fisionomia ou comportamento delatava suas idéias. Uma vez, durante um encontro, comecei a pensar como pode um homem daqueles fazer tanta crueldade contra seu próprio povo. Milosevic é um sujeito muito mais expansivo. Tem assunto, gosta de argumentar, apresentar seus pontos de vista. É outra personalidade. Ambos, no entanto, têm algo em comum: destruíram seu país. Uma das facetas de meu trabalho é ter de manter contato pessoal com esse tipo de gente. É mais ou menos como falar com o diabo. Faço isso apenas para tentar salvar vidas.  

Veja – O que mais pesou no sucesso de sua carreira: os valores tribais de sua herança africana ou os anos de estudo em universidades americanas?
Annan – Minha herança africana é muito importante. Mesmo depois de todos esses anos nos EUA, eu me vejo como um africano. Sou filho da tradição, da cultura e dos valores que aprendi com minha família. Isso é parte de minha constituição moral e está muito vivo. Tive a felicidade de estudar e trabalhar nos Estados Unidos e na Europa. Fui influenciado pelos dois lugares, mas a cultura africana foi a que teve o maior impacto. Em Gana, aprendi a ouvir. Quando há um problema, meu povo se reúne e fala, fala, fala até encontrar uma solução. Esse tipo de postura incentiva as soluções em conjunto e a cooperação. Tem a ver com a proposta da ONU.

Veja – Como o senhor ficou sabendo da morte de Sérgio Vieira de Mello, o brasileiro que trabalhava para a ONU e foi morto em Bagdá no ano passado?
Annan – Estava de férias com minha mulher numa ilha perto da costa da Finlândia quando recebi um telefonema. Naquele momento, as coisas ainda não estavam claras. Tinha falado com meu amigo Sérgio no dia anterior. Liguei para ele, disse que estava na Europa e que gostaria que ele saísse de Bagdá e me encontrasse. Disse que ligaria no dia seguinte para acertar quando e onde seria nosso encontro. Recebi o telefonema sobre a explosão que o matou antes de voltar a ligar para ele. Voei direto para Nova York para tomar conta da situação.  

Veja – O senhor pede conselhos a sua mulher?
Annan – Ela faz de tudo para não se envolver no meu trabalho. Mas, algumas vezes, debato um pouco com ela, pergunto sua opinião. Ela reluta. Diz que tem a vida dela. Era advogada, tornou-se artista. Mas eu, de qualquer forma, insisto. Valorizo a sinceridade e a honestidade dela. Nem todo mundo teria a coragem de falar com tanta franqueza.  

Veja – Como o senhor hierarquiza os principais problemas mundiais da atualidade?
Annan – A meu ver, a pobreza e a desigualdade ocupam o primeiro lugar. A degradação do meio ambiente e a exploração não sustentada dos nossos recursos naturais vêm logo depois. Colocaria em terceiro os conflitos, em geral guerras civis em que morrem mais crianças e mulheres do que soldados. Em quarto lugar, o terrorismo e a proliferação de armas de destruição em massa. Finalmente, a desconfiança entre pessoas de diferentes religiões, o que torna nosso mundo mais complicado e intolerante.  

Veja – Dois desses problemas – o terrorismo e o conflito das religiões – tornaram-se bem maiores depois que o senhor assumiu a ONU. O mundo hoje é um lugar pior do que era em 1997?
Annan – O mundo anda muito confuso. No fim da Guerra Fria, houve um período de muita euforia. Acreditava-se, sem muita justificativa, que o mundo seria um lugar melhor para viver. Não havia mais divisões. Antigos inimigos estavam começando a trabalhar juntos. Isso aconteceu também no Conselho de Segurança, o órgão da ONU que decide sobre intervenções militares e sanções econômicas. Mas o sonho do mundo melhor não se materializou. Vários países continuaram marginalizados. Acho que em algum ponto do caminho perdemos nosso senso de solidariedade internacional.  

Veja – E dá para mudar?
Annan – Há vários caminhos. Na área econômica, o mais importante deles é ter um sistema de comércio justo. É preciso acabar com os subsídios pagos aos agricultores dos países ricos. Nos últimos tempos, americanos e europeus mostraram uma pequena flexibilidade nesse ponto. Vamos ver o que os representantes dos países ricos têm a dizer no encontro da Unctad em São Paulo. Espero de coração que seja algo significativo.

Veja – Esse é o momento mais difícil de sua vida de diplomata?
Annan – Sim, nunca passamos por um período como esse. É uma época difícil para a instituição ONU e para mim pessoalmente. Tratamos de vários assuntos delicados e de grande impacto na imprensa mundial. Não falo apenas da guerra no Iraque, mas do Afeganistão, do Haiti, da África. Sem contar todo o problema da aids, que está dizimando países inteiros e poderá matar ainda mais. As respostas e soluções que estamos conseguindo dar a esses problemas precisam ser muito melhores. O desrespeito às leis internacionais está aumentando. Estamos numa situação muito complexa.

Veja – O sentimento antiamericano cresce no mundo ao mesmo tempo que um sentimento antimundo aumenta nos EUA. Como reverter isso?
Annan – Imediatamente depois dos ataques de 11 de setembro de 2001 a reação foi de solidariedade. Manifestações de apoio ao povo americano se espalharam por todo o mundo. Quando alguns amigos americanos me perguntam por que tanta gente os odeia, eu respondo com mais perguntas. Por que pessoas de várias partes do mundo deixaram de lado a solidariedade aos americanos? Como os americanos perderam isso? É preciso haver mais diálogo entre os líderes. E os americanos deveriam ouvir um pouco mais o que os outros têm a dizer. A guerra no Iraque prejudicou muito a imagem dos EUA. A interpretação do que foi o 11 de setembro é diferente nos EUA e em outros lugares. Para o resto do mundo, os ataques mudaram os EUA. Para os americanos, os terroristas mudaram o mundo. Essas percepções desiguais tiveram impacto nas relações entre os líderes dos países. Hoje já há mais diálogo. A própria resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre o período de transição do Iraque, aprovada por unanimidade na terça-feira passada, foi muito negociada.  

Veja – Qual o impacto da guerra no Iraque na imagem da ONU?
Annan – Pagamos um preço também. Os que eram contra a guerra nos criticaram severamente por não termos conseguido pará-la. Nos EUA, fomos criticados por não termos dado apoio à guerra. Fomos atacados por ambos os lados. Agora isso começa a mudar. Já estão vendo que estamos lutando para que os iraquianos tenham a soberania de volta, escolham o governo que mais lhes convier e sejam responsáveis pelo próprio destino.

Veja – Ao entrar no Iraque, a ONU não corre riscos altos demais de manchar ainda mais sua reputação? Ela não pode ser vista como um agente dos americanos?
Annan – Infelizmente, muita gente acha que a ONU e os EUA são a mesma coisa. Apesar disso, a ONU não pode ficar de fora de uma crise como a do Iraque. Um Iraque estável é do interesse da paz mundial e de todas as nações. Além do bem-estar dos iraquianos, há questões de interesse econômico para todo o mundo. Recentemente, todos ficamos preocupados com o barril do petróleo atingindo a marca dos 40 dólares. Se o Iraque e a região entrarem numa rota de instabilidade, estaremos falando de preços muito maiores. Tenho de pensar no impacto que isso teria na economia mundial e nos níveis de emprego. A ONU entrou nesse período de transição política do Iraque porque é o momento crucial. O Iraque tem muita gente competente. Se os iraquianos começarem a tomar conta do próprio país, talvez se consiga baixar o nível de violência e se estabilize a situação. Agora, que fique claro: o Conselho de Segurança não votou a favor da guerra e não fazemos parte da ocupação.

Veja – A resolução sobre o Iraque aprovada na semana passada não é apenas a chancela da ONU à ocupação americana?
Annan – De forma alguma. É uma tentativa da comunidade internacional de devolver a soberania aos iraquianos. A intenção é acabar com a ocupação, não legitimá-la. Você precisava ter visto as discussões dos representantes de países do Conselho de Segurança aqui. Um dos pontos em que mais se insistiu foi para que a transferência de poder aos iraquianos fosse completa.  

Veja – Ha vários anos o Brasil pleiteia um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (apenas EUA, China, França, Inglaterra e Rússia são permanentes. Os outros dez membros são provisórios e cumprem períodos de dois anos). Quais são as reais chances?
Annan – Um grupo de notáveis deve me apresentar sugestões sobre as mudanças necessárias na ONU para encarar os desafios do século XXI. Um dos assuntos é justamente a expansão do conselho. Acredito que a estrutura atual reflita a realidade de 1945, não a de hoje. O mundo mudou. Precisamos mudá-lo para torná-lo mais democrático e representativo. Isso dará mais legitimidade à instituição. Alguns países são considerados potências regionais. No passado, já se falou sobre a necessidade de criar assentos permanentes para cada uma das regiões: América Latina, África, Ásia... Também já se falou em Japão e Alemanha.  

Veja – Do ponto de vista da ONU, qual seria a vantagem de ter países sem poder econômico nem militar no conselho, como o Brasil e a África do Sul?
Annan – A questão é de representatividade. Os princípios democráticos também valem aqui. O paralelo com as eleições presidenciais é adequado nesse caso. Se poder econômico fosse um pré-requisito, muitos cidadãos de várias partes do mundo não poderiam votar.  

Veja – O Brasil está comandando as forças de paz da ONU no Haiti. Como se justifica que a vida de soldados brasileiros seja colocada em risco para tentar salvar um país com o qual temos pouquíssimas relações históricas, comerciais e políticas?
Annan – Estou muito orgulhoso do Brasil. É um sinal de solidariedade importante. Nenhum de nós pode permitir a existência de Estados falidos. O Afeganistão nos ensinou essa lição. Foi ignorado, tornou-se um Estado falido e o cenário de preparação de grupos terroristas.

Veja – Há dez anos, o mundo assistiu impassível ao genocídio de Ruanda, para muitos uma mancha em seu currículo. Qual é seu maior arrependimento?
Annan – O que aconteceu em Ruanda tem sido um pesadelo para mim e, acredito, para muitas pessoas na ONU. Talvez pudesse ter gritado mais. Reuni oitenta países, mas nenhum me deu tropas para intervir. Alguns países dizem que não tinham informações suficientes para decidir sobre o que estava acontecendo. Mas, quando ficavam sabendo, o que faziam? Simplesmente mandavam aviões para buscar seus compatriotas.

Veja – De acordo com alguns assessores de Madeleine Albright, a secretária de Estado de Bill Clinton, as discussões entre ela e o senhor eram muitas vezes aos berros. Qual era o grau de dificuldade de trabalhar com ela?
Annan – Já nos conhecíamos muito bem antes de Madeleine Albright assumir a Secretaria de Estado. Tínhamos nossas diferenças. Algumas vezes de forma passional. Mas nunca deixamos isso interferir em nossa amizade. 

Veja – O senhor consegue se desligar do noticiário nas férias e nos fins de semana?
Annan – Não aceito convites para jantares e recepções nos fins de semana. Sofro muita pressão no trabalho e preciso de um tempo para mim e para minha família. Para nós, existe o mundo lá fora, no qual somos figuras públicas, e nosso mundo da intimidade, de onde tiro a força e o equilíbrio. Quando saímos de Nova York para fazer longas caminhadas no interior, tento me desligar. Sou daqueles que sentem a pressão da avalanche de notícias que nos cercam 24 horas por dia. Antes de assumir o cargo de secretário-geral, conseguia deixar os problemas do trabalho no escritório na sexta-feira e retomá-los na segunda. Agora é muito mais difícil.

 
 
 
 
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