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Entrevista: Kofi Annan
O diálogo nos salvará
O número 1 da ONU diz que
o mundo
está retomando aos poucos o senso
de solidariedade internacional

Eduardo Salgado
Aos 66 anos, Kofi Annan, o secretário-geral
das Nações Unidas, poderia estar gozando de uma confortável
e merecida aposentadoria. Em mais de quarenta anos de ONU, trabalhou
preferencialmente em áreas de conflito em todos os continentes.
Está no segundo mandato. Em 2001, dividiu o Prêmio
Nobel da Paz com a organização que representa. Seu
cotidiano é dominado atualmente por problemas que vão
da aids à guerra no Iraque. Nascido em Gana, Annan chegou
aos Estados Unidos como bolsista aos 21 anos. Formou-se em economia
e fez mestrado em gerenciamento pelo Instituto de Tecnologia de
Massachusetts (MIT). Há vinte anos, divide o mesmo teto com
a segunda mulher, Nane, uma sueca que deixou a advocacia para se
dedicar à arte. Annan recebeu VEJA em sua ensolarada sala
no 38º andar da sede da ONU, em Nova York, antes de embarcar
para o Brasil, onde participa da conferência da Unctad, órgão
dedicado ao estudo e aprimoramento das relações econômicas
entre países.
Veja O senhor
conhece de perto alguns dos mandatários mais cruéis
dos últimos anos. Qual foi sua impressão de Saddam
Hussein e do deposto presidente iugoslavo Slobodan Milosevic?
Annan A aparência de Saddam Hussein era
a de um homem comum. Tinha fala mansa, calma, lenta. Quase não
gesticulava enquanto falava. Nada na sua fisionomia ou comportamento
delatava suas idéias. Uma vez, durante um encontro, comecei
a pensar como pode um homem daqueles fazer tanta crueldade contra
seu próprio povo. Milosevic é um sujeito muito mais
expansivo. Tem assunto, gosta de argumentar, apresentar seus pontos
de vista. É outra personalidade. Ambos, no entanto, têm
algo em comum: destruíram seu país. Uma das facetas
de meu trabalho é ter de manter contato pessoal com esse
tipo de gente. É mais ou menos como falar com o diabo. Faço
isso apenas para tentar salvar vidas.
Veja O que mais
pesou no sucesso de sua carreira: os valores tribais de sua herança
africana ou os anos de estudo em universidades americanas?
Annan Minha herança africana é muito
importante. Mesmo depois de todos esses anos nos EUA, eu me vejo
como um africano. Sou filho da tradição, da cultura
e dos valores que aprendi com minha família. Isso é
parte de minha constituição moral e está muito
vivo. Tive a felicidade de estudar e trabalhar nos Estados Unidos
e na Europa. Fui influenciado pelos dois lugares, mas a cultura
africana foi a que teve o maior impacto. Em Gana, aprendi a ouvir.
Quando há um problema, meu povo se reúne e fala, fala,
fala até encontrar uma solução. Esse tipo de
postura incentiva as soluções em conjunto e a cooperação.
Tem a ver com a proposta da ONU.
Veja Como o
senhor ficou sabendo da morte de Sérgio Vieira de Mello,
o brasileiro que trabalhava para a ONU e foi morto em Bagdá
no ano passado?
Annan Estava de férias com minha mulher numa
ilha perto da costa da Finlândia quando recebi um telefonema.
Naquele momento, as coisas ainda não estavam claras. Tinha
falado com meu amigo Sérgio no dia anterior. Liguei para
ele, disse que estava na Europa e que gostaria que ele saísse
de Bagdá e me encontrasse. Disse que ligaria no dia seguinte
para acertar quando e onde seria nosso encontro. Recebi o telefonema
sobre a explosão que o matou antes de voltar a ligar para
ele. Voei direto para Nova York para tomar conta da situação.
Veja O senhor
pede conselhos a sua mulher?
Annan Ela faz de tudo para não se envolver
no meu trabalho. Mas, algumas vezes, debato um pouco com ela, pergunto
sua opinião. Ela reluta. Diz que tem a vida dela. Era advogada,
tornou-se artista. Mas eu, de qualquer forma, insisto. Valorizo
a sinceridade e a honestidade dela. Nem todo mundo teria a coragem
de falar com tanta franqueza.
Veja Como o
senhor hierarquiza os principais problemas mundiais da atualidade?
Annan A meu ver, a pobreza e a desigualdade ocupam
o primeiro lugar. A degradação do meio ambiente e
a exploração não sustentada dos nossos recursos
naturais vêm logo depois. Colocaria em terceiro os conflitos,
em geral guerras civis em que morrem mais crianças e mulheres
do que soldados. Em quarto lugar, o terrorismo e a proliferação
de armas de destruição em massa. Finalmente, a desconfiança
entre pessoas de diferentes religiões, o que torna nosso
mundo mais complicado e intolerante.
Veja Dois desses
problemas o terrorismo e o conflito das religiões
tornaram-se bem maiores depois que o senhor assumiu a ONU.
O mundo hoje é um lugar pior do que era em 1997?
Annan O mundo anda muito confuso. No fim da Guerra
Fria, houve um período de muita euforia. Acreditava-se, sem
muita justificativa, que o mundo seria um lugar melhor para viver.
Não havia mais divisões. Antigos inimigos estavam
começando a trabalhar juntos. Isso aconteceu também
no Conselho de Segurança, o órgão da ONU que
decide sobre intervenções militares e sanções
econômicas. Mas o sonho do mundo melhor não se materializou.
Vários países continuaram marginalizados. Acho que
em algum ponto do caminho perdemos nosso senso de solidariedade
internacional.
Veja E dá
para mudar?
Annan Há vários caminhos. Na área
econômica, o mais importante deles é ter um sistema
de comércio justo. É preciso acabar com os subsídios
pagos aos agricultores dos países ricos. Nos últimos
tempos, americanos e europeus mostraram uma pequena flexibilidade
nesse ponto. Vamos ver o que os representantes dos países
ricos têm a dizer no encontro da Unctad em São Paulo.
Espero de coração que seja algo significativo.
Veja Esse é
o momento mais difícil de sua vida de diplomata?
Annan Sim, nunca passamos por um período como
esse. É uma época difícil para a instituição
ONU e para mim pessoalmente. Tratamos de vários assuntos
delicados e de grande impacto na imprensa mundial. Não falo
apenas da guerra no Iraque, mas do Afeganistão, do Haiti,
da África. Sem contar todo o problema da aids, que está
dizimando países inteiros e poderá matar ainda mais.
As respostas e soluções que estamos conseguindo dar
a esses problemas precisam ser muito melhores. O desrespeito às
leis internacionais está aumentando. Estamos numa situação
muito complexa.
Veja O sentimento
antiamericano cresce no mundo ao mesmo tempo que um sentimento antimundo
aumenta nos EUA. Como reverter isso?
Annan Imediatamente depois dos ataques de 11 de
setembro de 2001 a reação foi de solidariedade. Manifestações
de apoio ao povo americano se espalharam por todo o mundo. Quando
alguns amigos americanos me perguntam por que tanta gente os odeia,
eu respondo com mais perguntas. Por que pessoas de várias
partes do mundo deixaram de lado a solidariedade aos americanos?
Como os americanos perderam isso? É preciso haver mais diálogo
entre os líderes. E os americanos deveriam ouvir um pouco
mais o que os outros têm a dizer. A guerra no Iraque prejudicou
muito a imagem dos EUA. A interpretação do que foi
o 11 de setembro é diferente nos EUA e em outros lugares.
Para o resto do mundo, os ataques mudaram os EUA. Para os americanos,
os terroristas mudaram o mundo. Essas percepções desiguais
tiveram impacto nas relações entre os líderes
dos países. Hoje já há mais diálogo.
A própria resolução do Conselho de Segurança
da ONU sobre o período de transição do Iraque,
aprovada por unanimidade na terça-feira passada, foi muito
negociada.
Veja Qual o
impacto da guerra no Iraque na imagem da ONU?
Annan Pagamos um preço também. Os
que eram contra a guerra nos criticaram severamente por não
termos conseguido pará-la. Nos EUA, fomos criticados por
não termos dado apoio à guerra. Fomos atacados por
ambos os lados. Agora isso começa a mudar. Já estão
vendo que estamos lutando para que os iraquianos tenham a soberania
de volta, escolham o governo que mais lhes convier e sejam responsáveis
pelo próprio destino.
Veja Ao entrar
no Iraque, a ONU não corre riscos altos demais de manchar
ainda mais sua reputação? Ela não pode ser
vista como um agente dos americanos?
Annan Infelizmente, muita gente acha que a ONU
e os EUA são a mesma coisa. Apesar disso, a ONU não
pode ficar de fora de uma crise como a do Iraque. Um Iraque estável
é do interesse da paz mundial e de todas as nações.
Além do bem-estar dos iraquianos, há questões
de interesse econômico para todo o mundo. Recentemente, todos
ficamos preocupados com o barril do petróleo atingindo a
marca dos 40 dólares. Se o Iraque e a região entrarem
numa rota de instabilidade, estaremos falando de preços muito
maiores. Tenho de pensar no impacto que isso teria na economia mundial
e nos níveis de emprego. A ONU entrou nesse período
de transição política do Iraque porque é
o momento crucial. O Iraque tem muita gente competente. Se os iraquianos
começarem a tomar conta do próprio país, talvez
se consiga baixar o nível de violência e se estabilize
a situação. Agora, que fique claro: o Conselho de
Segurança não votou a favor da guerra e não
fazemos parte da ocupação.
Veja A resolução
sobre o Iraque aprovada na semana passada não é apenas
a chancela da ONU à ocupação americana?
Annan De forma alguma. É uma tentativa
da comunidade internacional de devolver a soberania aos iraquianos.
A intenção é acabar com a ocupação,
não legitimá-la. Você precisava ter visto as
discussões dos representantes de países do Conselho
de Segurança aqui. Um dos pontos em que mais se insistiu
foi para que a transferência de poder aos iraquianos fosse
completa.
Veja Ha vários
anos o Brasil pleiteia um assento permanente no Conselho de Segurança
da ONU (apenas EUA, China, França, Inglaterra e Rússia
são permanentes. Os outros dez membros são provisórios
e cumprem períodos de dois anos). Quais são as reais
chances?
Annan Um grupo de notáveis deve me apresentar
sugestões sobre as mudanças necessárias na
ONU para encarar os desafios do século XXI. Um dos assuntos
é justamente a expansão do conselho. Acredito que
a estrutura atual reflita a realidade de 1945, não a de hoje.
O mundo mudou. Precisamos mudá-lo para torná-lo mais
democrático e representativo. Isso dará mais legitimidade
à instituição. Alguns países são
considerados potências regionais. No passado, já se
falou sobre a necessidade de criar assentos permanentes para cada
uma das regiões: América Latina, África, Ásia...
Também já se falou em Japão e Alemanha.
Veja Do ponto
de vista da ONU, qual seria a vantagem de ter países sem
poder econômico nem militar no conselho, como o Brasil e a
África do Sul?
Annan A questão é de representatividade.
Os princípios democráticos também valem aqui.
O paralelo com as eleições presidenciais é
adequado nesse caso. Se poder econômico fosse um pré-requisito,
muitos cidadãos de várias partes do mundo não
poderiam votar.
Veja O Brasil
está comandando as forças de paz da ONU no Haiti.
Como se justifica que a vida de soldados brasileiros seja colocada
em risco para tentar salvar um país com o qual temos pouquíssimas
relações históricas, comerciais e políticas?
Annan Estou muito orgulhoso do Brasil. É
um sinal de solidariedade importante. Nenhum de nós pode
permitir a existência de Estados falidos. O Afeganistão
nos ensinou essa lição. Foi ignorado, tornou-se um
Estado falido e o cenário de preparação de
grupos terroristas.
Veja Há
dez anos, o mundo assistiu impassível ao genocídio
de Ruanda, para muitos uma mancha em seu currículo. Qual
é seu maior arrependimento?
Annan O que aconteceu em Ruanda tem sido um pesadelo
para mim e, acredito, para muitas pessoas na ONU. Talvez pudesse
ter gritado mais. Reuni oitenta países, mas nenhum me deu
tropas para intervir. Alguns países dizem que não
tinham informações suficientes para decidir sobre
o que estava acontecendo. Mas, quando ficavam sabendo, o que faziam?
Simplesmente mandavam aviões para buscar seus compatriotas.
Veja De acordo
com alguns assessores de Madeleine Albright, a secretária
de Estado de Bill Clinton, as discussões entre ela e o senhor
eram muitas vezes aos berros. Qual era o grau de dificuldade de
trabalhar com ela?
Annan Já nos conhecíamos muito bem
antes de Madeleine Albright assumir a Secretaria de Estado. Tínhamos
nossas diferenças. Algumas vezes de forma passional. Mas
nunca deixamos isso interferir em nossa amizade.
Veja O senhor
consegue se desligar do noticiário nas férias e nos
fins de semana?
Annan Não aceito convites para jantares
e recepções nos fins de semana. Sofro muita pressão
no trabalho e preciso de um tempo para mim e para minha família.
Para nós, existe o mundo lá fora, no qual somos figuras
públicas, e nosso mundo da intimidade, de onde tiro a força
e o equilíbrio. Quando saímos de Nova York para fazer
longas caminhadas no interior, tento me desligar. Sou daqueles que
sentem a pressão da avalanche de notícias que nos
cercam 24 horas por dia. Antes de assumir o cargo de secretário-geral,
conseguia deixar os problemas do trabalho no escritório na
sexta-feira e retomá-los na segunda. Agora é muito
mais difícil.
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