Edição 1858 . 16 de junho de 2004

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André Petry
Asneira internacional

"No estudo da Unicef, lê-se que '22%
das crianças que trabalham no Brasil estão
no serviço doméstico'. E de onde a Unicef
tirou isso? De um estudo anterior da OIT...
Bacana, não?"

Há mais de meio milhão de crianças trabalhando como escravas no Brasil. Exatamente 559.000 crianças e adolescentes, entre 10 e 17 anos. A notícia saiu na semana passada, com base num relatório da Organização Internacional do Trabalho, e informa que o Brasil disputa a liderança mundial nesse tipo de exploração do trabalho infantil. Deu até manchete de jornal: "Brasil tem meio milhão de crianças escravizadas". O relatório da OIT aborda um drama terrível, que retira as crianças do convívio de sua família, ceifa-lhes a infância, rouba-lhes a inocência, o direito de brincar, o prazer de aprender e descobrir. É uma pena, portanto, que o relatório e o noticiário que ensejou sejam uma besteira colossal.

O Brasil não teve 559.000 crianças escravizadas nem quando os negros moravam nas senzalas. Em 1872, antes portanto da abolição da escravatura, o primeiro censo demográfico realizado no país informou que tínhamos 1 508 566 escravos. Ao todo. Mas, fazendo uma concessão ao absurdo quantitativo, admita-se que o número de 559 000 crianças esteja correto. Resta saber como foi calculado. Afinal, é complicadíssimo descobrir até média salarial das empregadas domésticas do país porque, para tanto, é preciso entrar na intimidade das casas brasileiras. Como, então, a OIT chegou à exatidão de crianças no trabalho doméstico? Em sua versão em inglês, de 121 páginas, o relatório da OIT não diz uma única palavra sobre sua metodologia. Limita-se a informar que o número de 559.000 foi retirado de um estudo anterior da Unicef, outra agência da ONU. No estudo da Unicef, lê-se que "22% das crianças que trabalham no Brasil estão no serviço doméstico". E de onde a Unicef tirou isso? De um estudo anterior da OIT... Bacana, não?

O relatório da OIT até que tenta colocar ordem na baderna. Diz, a certa altura, que há 200 milhões de crianças trabalhando no mundo, mas afirma que "é impossível" saber quantas são exploradas no serviço doméstico. Explica que, "dada a natureza do trabalho doméstico infantil", ou seja, dado o fato de que se realiza entre quatro paredes, os números do relatório não são precisos e devem ser vistos "apenas como indicativos". Mas, ao mesmo tempo que faz esse alerta sensato, o relatório desfila chutes vergonhosos. Diz, por exemplo, que 69% das crianças em trabalho doméstico no Brasil são negras e 31% são brancas. A proporção não é espantosa. Espantosa é a fonte: trata-se de um trabalho que ouviu 200 crianças e adolescentes em trabalho doméstico no Recife. O trabalho é sério. Chama-se "Onde está Kelly?", do pesquisador Maurício Antunes Tavares. O problema é a OIT pegar um dado sobre o Recife, restrito à capital pernambucana, e aplicá-lo ao Brasil todo!

Não é a primeira vez que um absurdo assim é divulgado. A Unicef já disse que o Brasil tinha 500 000 meninas prostitutas! Uma informação como a do meio milhão de prostitutas ou de escravinhos corre o mundo. O Brasil paga um alto preço em termos de imagem internacional cada vez que um burocrata internacional divulga números com objetivo apenas de chocar a opinião pública mundial. Os problemas brasileiros já são grandes demais. Magnificá-los para fingir interesse na realidade do Terceiro Mundo não vai ajudar em nada a resolvê-los.

 
 
 
 
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