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André
Petry
Asneira internacional
"No estudo da Unicef, lê-se que
'22%
das crianças que trabalham no Brasil estão
no serviço doméstico'. E de onde a Unicef
tirou isso? De um estudo anterior da OIT...
Bacana, não?"
Há mais de meio milhão de crianças
trabalhando como escravas no Brasil. Exatamente 559.000
crianças e adolescentes, entre 10 e 17 anos. A notícia
saiu na semana passada, com base num relatório da Organização
Internacional do Trabalho, e informa que o Brasil disputa a liderança
mundial nesse tipo de exploração do trabalho infantil.
Deu até manchete de jornal: "Brasil tem meio milhão
de crianças escravizadas". O relatório da OIT aborda
um drama terrível, que retira as crianças do convívio
de sua família, ceifa-lhes a infância, rouba-lhes a
inocência, o direito de brincar, o prazer de aprender e descobrir.
É uma pena, portanto, que o relatório e o noticiário
que ensejou sejam uma besteira colossal.
O Brasil não teve 559.000
crianças escravizadas nem quando os negros moravam nas senzalas.
Em 1872, antes portanto da abolição da escravatura,
o primeiro censo demográfico realizado no país informou
que tínhamos 1 508 566 escravos. Ao todo. Mas, fazendo uma
concessão ao absurdo quantitativo, admita-se que o número
de 559 000 crianças esteja correto. Resta saber como foi
calculado. Afinal, é complicadíssimo descobrir até
média salarial das empregadas domésticas do país
porque, para tanto, é preciso entrar na intimidade das casas
brasileiras. Como, então, a OIT chegou à exatidão
de crianças no trabalho doméstico? Em sua versão
em inglês, de 121 páginas, o relatório da OIT
não diz uma única palavra sobre sua metodologia. Limita-se
a informar que o número de 559.000
foi retirado de um estudo anterior da Unicef, outra agência
da ONU. No estudo da Unicef, lê-se que "22% das crianças
que trabalham no Brasil estão no serviço doméstico".
E de onde a Unicef tirou isso? De um estudo anterior da OIT... Bacana,
não?
O relatório da OIT até que tenta
colocar ordem na baderna. Diz, a certa altura, que há 200
milhões de crianças trabalhando no mundo, mas afirma
que "é impossível" saber quantas são exploradas
no serviço doméstico. Explica que, "dada a natureza
do trabalho doméstico infantil", ou seja, dado o fato de
que se realiza entre quatro paredes, os números do relatório
não são precisos e devem ser vistos "apenas como indicativos".
Mas, ao mesmo tempo que faz esse alerta sensato, o relatório
desfila chutes vergonhosos. Diz, por exemplo, que 69% das crianças
em trabalho doméstico no Brasil são negras e 31% são
brancas. A proporção não é espantosa.
Espantosa é a fonte: trata-se de um trabalho que ouviu 200
crianças e adolescentes em trabalho doméstico no Recife.
O trabalho é sério. Chama-se "Onde está Kelly?",
do pesquisador Maurício Antunes Tavares. O problema é
a OIT pegar um dado sobre o Recife, restrito à capital pernambucana,
e aplicá-lo ao Brasil todo!
Não é a primeira vez que um
absurdo assim é divulgado. A Unicef já disse que o
Brasil tinha 500 000 meninas prostitutas! Uma informação
como a do meio milhão de prostitutas ou de escravinhos corre
o mundo. O Brasil paga um alto preço em termos de imagem
internacional cada vez que um burocrata internacional divulga números
com objetivo apenas de chocar a opinião pública mundial.
Os problemas brasileiros já são grandes demais. Magnificá-los
para fingir interesse na realidade do Terceiro Mundo não
vai ajudar em nada a resolvê-los.
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