Olhe para os Dois Lados (Look
Both Ways, Austrália, 2005. Estréia nesta sexta-feira em São
Paulo e no Rio de Janeiro) Um atropelamento numa linha férrea faz com
que se cruzem os caminhos de vários personagens: um fotógrafo que
acaba de receber o diagnóstico de câncer, uma ilustradora que está
voltando do enterro do pai, um repórter convencido de que as estatísticas
ocultam um número alarmante de suicídios. Todos eles, enfim, estão
às voltas com pensamentos de morte, que o acidente só faz tornar
mais intensos. A questão é se eles serão capazes de emergir
desse mergulho, ou não. A estréia na direção da animadora
e colorista australiana Sarah Watt tem lá seus maneirismos, mas lida com
essa questão delicada a do luto que às vezes toma o lugar da
vida de uma forma lúcida e, dadas as circunstâncias, inesperadamente
otimista. Veja
cenas.
DVD
Divulgação/Flick
A Árvore dosTamancos: lírico
e fotogênico
A Árvore dos Tamancos (L'Albero degli Zoccoli, Itália/França,
1978. Versátil) O ganhador do Festival de Cannes de 1978 ficou célebre
por sua visão lírica da vida rural, na virada do século XIX
para o XX, e pelos cuidados para atingir o máximo de realismo: os protagonistas,
meeiros paupérrimos de uma propriedade no norte da Itália, foram
recrutados entre camponeses da região, falam quase sempre em seu próprio
dialeto e reproduzem, em cena, técnicas ancestrais de cultivo e artesanato.
Desde então, porém, o filme passou a ser considerado fotogênico
demais e carola em excesso. Não deixa de ser verdade, mas também
não impede o prazer de acompanhar quatro estações na vida
dessa pequena comunidade num ritmo que, é bom avisar aos mais afobados,
por vezes parece se desdobrar em tempo real.
LIVRO
Tanizaki: em favor da penumbra
Em Louvor da Sombra,
de Junichiro Tanizaki (tradução de Leiko Gotoda; Companhia das Letras;
72 páginas; 27 reais) Escrito nos anos 30, esse breve ensaio expõe
os ideais estéticos que moviam Tanizaki (1886-1965), um dos maiores escritores
japoneses do século passado. Pouco se fala de literatura: o texto discorre
sobre culinária, arquitetura, teatro nô. Tanizaki explora a beleza
dos objetos cotidianos da cultura japonesa, cuja qualidade principal seria a sombra,
a sugestão mais do que a exibição. Essa qualidade, argumenta
o autor de As Irmãs Makioka, estaria se perdendo com a modernização
de seu país, com a luz elétrica, que baniu a sombra das casas nipônicas.
Há aqui um certo espírito conservador mas o objetivo de Tanizaki
não é barrar as inovações técnicas, e sim adaptá-las
à penumbra japonesa. Leia
trecho.
DISCOS
Divulgação
TJorge Ben Jor: o cantor não
merecia as broncas que levou nos anos 80
Dádiva, Sonsual, Jorge Ben Brasil e Recuerdos de Asunción
443, Jorge Ben Jor (Som Livre) A crítica costuma ser impiedosa
com os trabalhos que Jorge lançou na década de 80: eles seriam "obra
menor", porque o artista trocou o violão pela guitarra e a batucada pela
bateria eletrônica. Os três discos desse período (Dádiva,
Sonsual e Jorge Ben Brasil), inéditos em CD, mostram que
a bronca não tem fundamento. O cantor carioca mantém o suingue em
alta nas faixas Roberto, Corta Essa e Eu Quero Ver a Rainha esta
com participação de Tim Maia. O destaque do pacote, porém,
é Recuerdos, que era dado como perdido e foi encontrado nos arquivos
da gravadora. Para ele, Jorge criou a inédita Emo, recado para aqueles
meninos de preto que adoram música triste. Aliás, de emo ela tem
apenas o nome: é de longe uma das canções mais animadas de
sua carreira.
Volta,
Björk (Universal) O disco está sendo saudado como o retorno da
cantora islandesa à música pop depois de dois trabalhos experimentais
Medúlla, em que a voz substituía os instrumentos, e a
trilha sonora do documentário Drawing Restraint 9. Mas o pop, aqui,
vem nos moldes de Björk: uma música moderna e acessível, porém
sem nada em comum com a banalidade que tem caracterizado o gênero. Björk
é capaz de reunir personalidades distintas como o produtor americano Timbaland,
o cantor inglês Antony Hegarty e o grupo congolês Konono Nº 1,
fazer com que se entendam e produzir uma nova sonoridade. Volta é
repleto desses momentos, como mostram as faixas The Dull Flame of Desire,
um épico de mais de sete minutos, e Vertebrae by Vertabrae, cuja
letra delirante narra o dia em que uma entidade invade a ilha de Manhattan e põe
o número 13 em todos os prédios de Nova York.
OS
MAIS VENDIDOS - CRÍTICA
A
Menina que Roubava Livros (tradução de Vera Ribeiro; Intrínseca;
500 páginas; 39,90 reais), do australiano Markus Zusak, foi divulgado nos
Estados Unidos como um livro juvenil, mais ou menos na faixa de público
de Harry Potter. Em outros países inclusive no Brasil, onde o
romance está há dez semanas na lista de mais vendidos , ele é
apresentado como um livro para adultos. A indecisão se justifica: a obra
enfoca alguns pesadelos históricos nazismo, holocausto, guerra com
um toque aventuresco e sentimental. A história é narrada em primeira
pessoa pela Morte, personagem ocupadíssima naqueles tempos genocidas, mas
que não se mostra nada sinistra: é uma figura compassiva, que admira
a têmpera da menina alemã Liesel, a ladra de livros do título.
O pai de Liesel, militante comunista, é preso pelos nazistas, seu irmãozinho
morre durante uma viagem de trem e ela é entregue pela mãe para
ser criada por outro casal tudo isso nas primeiras trinta páginas. É
melhor ler com a caixa de lenços de papel por perto: a menina ainda vai
fazer amizade com o fugitivo judeu que se esconde no porão de sua casa
e sobreviver a um bombardeio que soterra muitos amigos queridos. Trata-se, no
entanto, de uma obra otimista, calcada em uma mensagem simplória mas eficiente:
a generosidade humana pode sobreviver mesmo nas condições mais monstruosas.