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Edição 2008

16 de maio de 2007
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CINEMA

Olhe para os Dois Lados (Look Both Ways, Austrália, 2005. Estréia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro) – Um atropelamento numa linha férrea faz com que se cruzem os caminhos de vários personagens: um fotógrafo que acaba de receber o diagnóstico de câncer, uma ilustradora que está voltando do enterro do pai, um repórter convencido de que as estatísticas ocultam um número alarmante de suicídios. Todos eles, enfim, estão às voltas com pensamentos de morte, que o acidente só faz tornar mais intensos. A questão é se eles serão capazes de emergir desse mergulho, ou não. A estréia na direção da animadora e colorista australiana Sarah Watt tem lá seus maneirismos, mas lida com essa questão delicada – a do luto que às vezes toma o lugar da vida – de uma forma lúcida e, dadas as circunstâncias, inesperadamente otimista. Veja cenas.


DVD

Divulgação/Flick
A Árvore dos Tamancos: lírico e fotogênico


A Árvore dos Tamancos
(L'Albero degli Zoccoli
, Itália/França, 1978. Versátil) – O ganhador do Festival de Cannes de 1978 ficou célebre por sua visão lírica da vida rural, na virada do século XIX para o XX, e pelos cuidados para atingir o máximo de realismo: os protagonistas, meeiros paupérrimos de uma propriedade no norte da Itália, foram recrutados entre camponeses da região, falam quase sempre em seu próprio dialeto e reproduzem, em cena, técnicas ancestrais de cultivo e artesanato. Desde então, porém, o filme passou a ser considerado fotogênico demais e carola em excesso. Não deixa de ser verdade, mas também não impede o prazer de acompanhar quatro estações na vida dessa pequena comunidade – num ritmo que, é bom avisar aos mais afobados, por vezes parece se desdobrar em tempo real.


LIVRO

Tanizaki: em favor da penumbra  

Em Louvor da Sombra, de Junichiro Tanizaki (tradução de Leiko Gotoda; Companhia das Letras; 72 páginas; 27 reais) – Escrito nos anos 30, esse breve ensaio expõe os ideais estéticos que moviam Tanizaki (1886-1965), um dos maiores escritores japoneses do século passado. Pouco se fala de literatura: o texto discorre sobre culinária, arquitetura, teatro nô. Tanizaki explora a beleza dos objetos cotidianos da cultura japonesa, cuja qualidade principal seria a sombra, a sugestão mais do que a exibição. Essa qualidade, argumenta o autor de As Irmãs Makioka, estaria se perdendo com a modernização de seu país, com a luz elétrica, que baniu a sombra das casas nipônicas. Há aqui um certo espírito conservador – mas o objetivo de Tanizaki não é barrar as inovações técnicas, e sim adaptá-las à penumbra japonesa. Leia trecho.


DISCOS

Divulgação
TJorge Ben Jor: o cantor não merecia as broncas que levou nos anos 80

Dádiva, Sonsual, Jorge Ben Brasil e Recuerdos de Asunción 443, Jorge Ben Jor (Som Livre) – A crítica costuma ser impiedosa com os trabalhos que Jorge lançou na década de 80: eles seriam "obra menor", porque o artista trocou o violão pela guitarra e a batucada pela bateria eletrônica. Os três discos desse período (Dádiva, Sonsual e Jorge Ben Brasil), inéditos em CD, mostram que a bronca não tem fundamento. O cantor carioca mantém o suingue em alta nas faixas Roberto, Corta Essa e Eu Quero Ver a Rainha – esta com participação de Tim Maia. O destaque do pacote, porém, é Recuerdos, que era dado como perdido e foi encontrado nos arquivos da gravadora. Para ele, Jorge criou a inédita Emo, recado para aqueles meninos de preto que adoram música triste. Aliás, de emo ela tem apenas o nome: é de longe uma das canções mais animadas de sua carreira.

Volta, Björk (Universal) – O disco está sendo saudado como o retorno da cantora islandesa à música pop depois de dois trabalhos experimentais – Medúlla, em que a voz substituía os instrumentos, e a trilha sonora do documentário Drawing Restraint 9. Mas o pop, aqui, vem nos moldes de Björk: uma música moderna e acessível, porém sem nada em comum com a banalidade que tem caracterizado o gênero. Björk é capaz de reunir personalidades distintas como o produtor americano Timbaland, o cantor inglês Antony Hegarty e o grupo congolês Konono Nº 1, fazer com que se entendam e produzir uma nova sonoridade. Volta é repleto desses momentos, como mostram as faixas The Dull Flame of Desire, um épico de mais de sete minutos, e Vertebrae by Vertabrae, cuja letra delirante narra o dia em que uma entidade invade a ilha de Manhattan e põe o número 13 em todos os prédios de Nova York.



OS MAIS VENDIDOS - CRÍTICA

A Menina que Roubava Livros (tradução de Vera Ribeiro; Intrínseca; 500 páginas; 39,90 reais), do australiano Markus Zusak, foi divulgado nos Estados Unidos como um livro juvenil, mais ou menos na faixa de público de Harry Potter. Em outros países – inclusive no Brasil, onde o romance está há dez semanas na lista de mais vendidos –, ele é apresentado como um livro para adultos. A indecisão se justifica: a obra enfoca alguns pesadelos históricos – nazismo, holocausto, guerra – com um toque aventuresco e sentimental. A história é narrada em primeira pessoa pela Morte, personagem ocupadíssima naqueles tempos genocidas, mas que não se mostra nada sinistra: é uma figura compassiva, que admira a têmpera da menina alemã Liesel, a ladra de livros do título. O pai de Liesel, militante comunista, é preso pelos nazistas, seu irmãozinho morre durante uma viagem de trem e ela é entregue pela mãe para ser criada por outro casal – tudo isso nas primeiras trinta páginas. É melhor ler com a caixa de lenços de papel por perto: a menina ainda vai fazer amizade com o fugitivo judeu que se esconde no porão de sua casa e sobreviver a um bombardeio que soterra muitos amigos queridos. Trata-se, no entanto, de uma obra otimista, calcada em uma mensagem simplória mas eficiente: a generosidade humana pode sobreviver mesmo nas condições mais monstruosas.

J.T.



Fontes: São Paulo: Cultura, Fnac, Laselva, Livraria da Vila, Nobel, Saraiva; Campinas: Laselva, Fnac; Rio: Argumento, Fnac, Laselva, Saraiva, Travessa; Porto Alegre: Cultura, Livrarias Porto, Saraiva; Brasília: Cultura, Fnac, Laselva, Saraiva; Recife: Cultura, Laselva, Saraiva; Natal: Laselva; Florianópolis: Laselva, Livrarias Catarinense; Goiânia: Saraiva; Fortaleza: Laselva; Curitiba: Fnac, Laselva, Livrarias Curitiba, Saraiva; Londrina: Livrarias Porto; Belo Horizonte: Laselva, Leitura; Maceió: Laselva; Vitória: Laselva, Leitura; Campo Grande: Leitura; internet: Cultura, Laselva, Leitura, Nobel, Saraiva, Submarino.

 

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