Ponto
de vista:Stephen Kanitz Comportamento
exemplar
"Os grandes exemplos humanos não
são mais exaltados pelos poetas, cineastas e historiadores de hoje,
como antigamente"
Se almejarmos somente a
média, seremos medíocres. Se almejarmos a excelência, seremos
excelentes. Meu curso de administração dava muita ênfase à
psicologia. Foi assim que conheci pessoalmente B.F. Skinner, Carl Rogers e Erik
Erikson. O que me chamou a atenção foi a escassa literatura no que
chamarei de comportamento exemplar. Ausência de doença não
significa ter um corpo saudável e atlético. Ausência de neuroses
e fobias não significa ser uma pessoa excepcional. Por que tão poucos
modelos de excelência humana são apresentados aos pacientes como
exemplos a ser seguidos?
Isso tem a ver
com a história da psicanálise e da psiquiatria, que surgiu da observação
dos pacientes com distúrbios mentais que procuravam médicos como
Freud, Adler e Jung. O universo de observação ficava assim restrito
e enviesado. Por isso, chega-se a conclusões como "os normais são
raros, mas existem". Raros são os normais que procuram terapias, raros
são os analistas que vão a campo identificar e "analisar" as pessoas
excepcionais e que fazem a diferença por aí.
Os grandes exemplos humanos não são mais exaltados em verso e em
prosa pelos poetas, cineastas e historiadores de hoje, como antigamente. Superar-se
e realizar sonhos tem sido a seara quase exclusiva dos autores de livros de auto-ajuda,
razão do seu franco crescimento, com raras exceções. Quem
são os pequenos heróis de hoje, as pessoas felizes, as famílias
bem-sucedidas, cujos exemplos nos seriam uma lição? Gostaríamos
de saber.
Ilustração
Atômica Studio
Eu
também cometi esse erro de observação no início da
minha carreira. Analisava empresas "doentes", empresas concordatárias ou
falidas, e delas tirava minhas conclusões. O acesso aos dados de empresas
concordatárias era farto, enquanto empresas bem-sucedidas e exemplares
escondiam o leite. Afinal, "o segredo é a alma do negócio". Foi
quando percebi que algo estava errado na abordagem científica da época
e criei, em 1974, a edição Melhores e Maiores, da revista
Exame. Passei a procurar identificar e divulgar as melhores empresas deste
país, para que elas servissem de exemplo às demais. Em 1981, Tom
Peters adotou a mesma abordagem no seu best-seller Em Busca da Excelência,
que consagrou esse método também nos Estados Unidos. Hoje, todo
livro de administração moderna fala de empresas vencedoras e bem-sucedidas.
Quando a jornalista Gail Sheehy escreveu
o livro Pathfinders, em 1981, achei que ela provocaria a mesma revolução
no estudo do ser humano. Conhecida pelo livro Passagens, Gail inovou o
sistema de observação do ser humano entrevistando pessoas consideradas
exemplares pelos seus pares. Ela catalogou 40.000 questionários perguntando:
"Quem na sua cidade você admira, quem na sua cidade você emula e gostaria
de ser?". Pesquisa jamais replicada no Brasil. Os 200 identificados não
eram pessoas "bem-sucedidas" conforme a definição materialista atual
por ter dinheiro ou poder, mas pessoas que outros consideravam um exemplo. Gail
buscou identificar o positivo, em vez do negativo. Todas as pessoas entrevistadas
por Gail quando jovens eram otimistas quanto ao próprio futuro. Tinham
uma visão positiva de si e do mundo. Aprenderam essas lições
de seus pais, não de seus professores. Tiveram enormes reveses na vida,
perderam um filho, separaram-se mais de uma vez, e assim por diante. Todo ser
humano tem problemas, e o segredo é saber administrá-los e não
se deixar desesperar por causa deles. Ao contrário, foi justamente a correta
administração desses problemas que as fez crescer como pessoas.
Elas passaram a acreditar em si mesmas como construtoras da própria realidade.
Eu conheço dezenas dessas pessoas
excepcionais como por exemplo irmã Lina, a quem me referi aqui,
em VEJA, na edição de 24 de abril de 2002 que, infelizmente,
nossos poetas, cineastas e intelectuais insistem em manter anônimas. Um
único dia ao lado dessas pessoas maravilhosas é um tônico
revigorante, uma lição de vida e muito melhor do que qualquer antidepressivo
que alguém possa receitar.
Stephen
Kanitz é formado pela Harvard Business School (www.kanitz.com.br)