BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2008

16 de maio de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Millôr
Stephen Kanitz
André Petry
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Artigo
Auto-retrato
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Cinema
Tumulto no paraíso

O angustiante Alpha Dog, sobre o caso real de
cinco garotões que seqüestraram um adolescente


Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
Hirsch e Timberlake, como dois dos seqüestradores, e Sharon, como a mãe da vítima: atores e diretor imbuídos da mesma missão

VEJA TAMBÉM
Da internet
Trailer do filme

Alpha Dog (Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, é um filme feito tão a quente que acabou virando objeto de contenda no processo criminal do qual trata: o seqüestro de Nicholas Markowitz, de 15 anos. Markowitz era um menino muito bem-criado e protegido pelos pais – em especial pela mãe, que queria a todo custo evitar que ele seguisse pelo mesmo caminho que seu meio-irmão. Ben Markowitz, de 21 anos, vivia de pequenos crimes, era viciado em drogas e tinha um temperamento explosivo. Em 2000, um dos negócios de Ben deu errado e ele ficou com uma dívida de 1 200 dólares para com o autoproclamado chefe da gangue local, Jesse James Hollywood – o "líder da matilha" a que se refere o título. A dívida virou rixa: em vez de abaixar a cabeça, Ben ameaçou Jesse James; e este, para não perder seu status e mostrar quem mandava ali, seqüestrou Nicholas. Isso não aconteceu num gueto de uma metrópole, mas numa dessas cidades ricas e confortáveis do sul da Califórnia. Os planejadores e executores do crime também não eram jovens desprivilegiados: eram garotões que moravam em casas com piscina e tinham acesso a bons advogados. Foi assim, num telefonema a seu advogado, que Jesse James descobriu que, caso fossem indiciados pelo seqüestro de Nicholas, ele e seus parceiros provavelmente pegariam a pena perpétua. Durante os três dias em que esteve em posse da gangue de Jesse James, Nicholas afirmou diversas vezes que não denunciaria nenhum deles. Primeiro, porque não queria piorar as coisas para seu irmão – e até o fim acreditou que ele viria resgatá-lo. Depois, porque estava se divertindo a valer. Em casa, Nicholas não podia fazer nada. Com seus seqüestradores, a rotina era uma balada só. Todo mundo gostava de Nicholas, e Nicholas gostava de todo mundo, mas isso não foi o suficiente para garantir sua segurança e evitar um desfecho trágico para o caso.

Quando o diretor Nick Cassavetes começou a rodar essa história, quatro dos cinco envolvidos no crime já haviam sido julgados e condenados. Só Jesse James continuava foragido. Cassavetes complementou os registros com sua própria investigação e gravou entrevistas com os criminosos, as famílias, os advogados e várias das quase quarenta testemunhas do caso. Prestes a concluir a filmagem, em março de 2005, recebeu uma notícia surpreendente: Jesse James fora capturado em Saquarema, no Brasil, e deportado. O processo estava sendo reaberto, portanto. Imediatamente, o trabalho de Cassavetes virou peça tanto da acusação quanto da defesa, já que ambas as partes haviam cedido material confidencial ao diretor e a seu investigador particular, Michael Mehas. Os dois foram intimados numerosas vezes, e em diversas ocasiões tentou-se barrar legalmente a exibição do filme, uma vez que Jesse James ainda aguarda julgamento. Nenhum dos recursos vingou – em boa parte porque, para reduzir as inevitáveis complicações legais, Cassavetes desde o início optou por mudar o nome de todos os personagens da história e das localidades em que ela se passou.

A tensão e a fricção adicionais causadas pela captura de Jesse James deram sérias dores de cabeça a Cassavetes e Mehas, mas, chegando como chegaram, antes que o filme estivesse pronto, foram altamente benéficas a ele. Alpha Dog não é uma mera encenação dos autos do caso: é o fruto da obstinação do diretor em descobrir o que realmente se passou naqueles dias de 2000 – e em entender como um punhado de jovens que usavam a violência como pose passou, de um instante para o outro, à violência real. As duas gerações de seu elenco se imbuíram igualmente dessa missão. De um lado, Sharon Stone tem alguns grandes momentos como a mãe do rapaz seqüestrado; de outro, jovens atores como Emile Hirsch, Ben Foster e Anton Yelchin oferecem interpretações sólidas, sem recurso a estereótipos. O popstar Justin Timberlake, em especial, é uma surpresa: no papel do rapaz tolo, mas tranqüilo e amigável, que toma conta do seqüestrado, ele demonstra mais inspiração e nuances do que em toda a sua carreira musical até aqui. Por causa dessa sintonia, Alpha Dog transpira continuamente a sensação de que se está falando de algo muito íntimo e conflituoso, e também desesperador: os cinco envolvidos no crime estavam longe de ser cidadãos-modelo, mas pareciam também igualmente distantes de uma decisão tão horrenda quanto a que tomaram em 9 de agosto de 2000 – e que, por permanecer todo o tempo a um passo de ser evitada, agrava cada vez mais a agonia que é vê-la se desenrolar.

 

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |