Alpha
Dog (Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país,
é um filme feito tão a quente que acabou virando objeto de contenda
no processo criminal do qual trata: o seqüestro de Nicholas Markowitz, de
15 anos. Markowitz era um menino muito bem-criado e protegido pelos pais
em especial pela mãe, que queria a todo custo evitar que ele seguisse pelo
mesmo caminho que seu meio-irmão. Ben Markowitz, de 21 anos, vivia de pequenos
crimes, era viciado em drogas e tinha um temperamento explosivo. Em 2000, um dos
negócios de Ben deu errado e ele ficou com uma dívida de 1 200 dólares
para com o autoproclamado chefe da gangue local, Jesse James Hollywood
o "líder da matilha" a que se refere o título. A dívida virou
rixa: em vez de abaixar a cabeça, Ben ameaçou Jesse James; e este,
para não perder seu status e mostrar quem mandava ali, seqüestrou
Nicholas. Isso não aconteceu num gueto de uma metrópole, mas numa
dessas cidades ricas e confortáveis do sul da Califórnia. Os planejadores
e executores do crime também não eram jovens desprivilegiados: eram
garotões que moravam em casas com piscina e tinham acesso a bons advogados.
Foi assim, num telefonema a seu advogado, que Jesse James descobriu que, caso
fossem indiciados pelo seqüestro de Nicholas, ele e seus parceiros provavelmente
pegariam a pena perpétua. Durante os três dias em que esteve em posse
da gangue de Jesse James, Nicholas afirmou diversas vezes que não denunciaria
nenhum deles. Primeiro, porque não queria piorar as coisas para seu irmão
e até o fim acreditou que ele viria resgatá-lo. Depois, porque
estava se divertindo a valer. Em casa, Nicholas não podia fazer nada. Com
seus seqüestradores, a rotina era uma balada só. Todo mundo gostava
de Nicholas, e Nicholas gostava de todo mundo, mas isso não foi o suficiente
para garantir sua segurança e evitar um desfecho trágico para o
caso.
Quando o diretor Nick
Cassavetes começou a rodar essa história, quatro dos cinco envolvidos
no crime já haviam sido julgados e condenados. Só Jesse James continuava
foragido. Cassavetes complementou os registros com sua própria investigação
e gravou entrevistas com os criminosos, as famílias, os advogados e várias
das quase quarenta testemunhas do caso. Prestes a concluir a filmagem, em março
de 2005, recebeu uma notícia surpreendente: Jesse James fora capturado
em Saquarema, no Brasil, e deportado. O processo estava sendo reaberto, portanto.
Imediatamente, o trabalho de Cassavetes virou peça tanto da acusação
quanto da defesa, já que ambas as partes haviam cedido material confidencial
ao diretor e a seu investigador particular, Michael Mehas. Os dois foram intimados
numerosas vezes, e em diversas ocasiões tentou-se barrar legalmente a exibição
do filme, uma vez que Jesse James ainda aguarda julgamento. Nenhum dos recursos
vingou em boa parte porque, para reduzir as inevitáveis complicações
legais, Cassavetes desde o início optou por mudar o nome de todos os personagens
da história e das localidades em que ela se passou.
A tensão e a fricção adicionais causadas pela captura de
Jesse James deram sérias dores de cabeça a Cassavetes e Mehas, mas,
chegando como chegaram, antes que o filme estivesse pronto, foram altamente benéficas
a ele. Alpha Dog não é uma mera encenação dos
autos do caso: é o fruto da obstinação do diretor em descobrir
o que realmente se passou naqueles dias de 2000 e em entender como um punhado
de jovens que usavam a violência como pose passou, de um instante para o
outro, à violência real. As duas gerações de seu elenco
se imbuíram igualmente dessa missão. De um lado, Sharon Stone tem
alguns grandes momentos como a mãe do rapaz seqüestrado; de outro,
jovens atores como Emile Hirsch, Ben Foster e Anton Yelchin oferecem interpretações
sólidas, sem recurso a estereótipos. O popstar Justin Timberlake,
em especial, é uma surpresa: no papel do rapaz tolo, mas tranqüilo
e amigável, que toma conta do seqüestrado, ele demonstra mais inspiração
e nuances do que em toda a sua carreira musical até aqui. Por causa dessa
sintonia, Alpha Dog transpira continuamente a sensação de
que se está falando de algo muito íntimo e conflituoso, e também
desesperador: os cinco envolvidos no crime estavam longe de ser cidadãos-modelo,
mas pareciam também igualmente distantes de uma decisão tão
horrenda quanto a que tomaram em 9 de agosto de 2000 e que, por permanecer
todo o tempo a um passo de ser evitada, agrava cada vez mais a agonia que é
vê-la se desenrolar.