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Edição 2008

16 de maio de 2007
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Cinema
O ataque do bagressauro

Em O Hospedeiro, uma criatura monstruosa
surge das águas para apavorar Seul – e

deixar no chinelo os similares americanos


Isabela Boscov

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Trailer do filme

De uma base militar americana em Seul, galões e galões de formol são despejados no Rio Han, que corta a cidade. Uns poucos anos depois, vê-se o resultado da imprudência: uma criatura gigantesca, a meio caminho entre um bagre e um dinossauro, emerge das águas do Han e vai para cima da multidão. Numa seqüência espetacular, Gang-Du (o grande ator Kang-Ho Song) apanha pela mão sua filha, sai correndo, perde a menina, a recupera e então – desastre – se dá conta de que pegou a mão errada: a pequena Hyun-Seo ficou para trás, apenas para ser enlaçada pela cauda do monstro e mergulhar com ele no Han. Gang-Du, que cuida de uma barraca de lanches, acabou assim de confirmar o veredicto familiar de que é um inútil. E, enquanto acompanha a saga desesperada do protagonista para reaver sua filha, O Hospedeiro (Gwoemul, Coréia do Sul, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, vai ratificando um outro veredicto: o de que o cinema sul-coreano é hoje um dos mais surpreendentes e estimulantes do mundo.

O Hospedeiro é uma criação do diretor Joon-Ho Bong, do também excelente Memórias de um Assassino, disponível em DVD. Feito com orçamento baixo até para os padrões coreanos, de 10 milhões de dólares, é perfeitamente gratificante como "filme de criatura" – gênero que o Japão popularizou nos anos 50 e 60, com Godzilla e Mothra – A Mariposa Assassina, mas que desde o americano O Ataque dos Vermes Malditos, de 1990, não produzia um único exemplar satisfatório. Os 10 milhões de Bong bastaram para comprar os ótimos efeitos da Orphanage, o ateliê do momento para cineastas de sensibilidade "alternativa" – e a maneira como o monstro se move pelas pontes e esgotos é verdadeiramente uma coisa de pesadelo. Em locações, Bong não teve de gastar nada: Seul, cinza e desolada, está toda à disposição da família de Hyun-Seo, que, contra todas as evidências, tem certeza de que a menina ainda está viva.

Bong, porém, é bem mais do que um artesão; é um cineasta com estilo e propósitos. Como quase todos os outros de sua geração, ele infunde seus filmes com um sentimento de profunda traição por o seu ser um país dividido. Essa é, de certa forma, a aberração que o monstro representa, e essa é também a devastação que ele provoca: famílias dilaceradas, autoridades corruptas e – esse o tema constante de Bong – a impossibilidade de proteger os inocentes de horrores que sempre podem estar por vir. Na última cena de O Hospedeiro, passada a crise, Gang-Du vive um momento idílico de intimidade familiar: em sua barraca à beira do rio, a comida está na mesa, o fogareiro está aceso e tudo é paz. Então a câmera se afasta. A barraca, tão aconchegante por dentro, por fora está cercada de neve e de escuridão. E de sabe-se lá qual outra ameaça.

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