De
uma base militar americana em Seul, galões e galões de formol são
despejados no Rio Han, que corta a cidade. Uns poucos anos depois, vê-se
o resultado da imprudência: uma criatura gigantesca, a meio caminho entre
um bagre e um dinossauro, emerge das águas do Han e vai para cima da multidão.
Numa seqüência espetacular, Gang-Du (o grande ator Kang-Ho Song) apanha
pela mão sua filha, sai correndo, perde a menina, a recupera e então
desastre se dá conta de que pegou a mão errada: a
pequena Hyun-Seo ficou para trás, apenas para ser enlaçada pela
cauda do monstro e mergulhar com ele no Han. Gang-Du, que cuida de uma barraca
de lanches, acabou assim de confirmar o veredicto familiar de que é um
inútil. E, enquanto acompanha a saga desesperada do protagonista para reaver
sua filha, O Hospedeiro (Gwoemul, Coréia do Sul, 2006), que
estréia nesta sexta-feira no país, vai ratificando um outro veredicto:
o de que o cinema sul-coreano é hoje um dos mais surpreendentes e estimulantes
do mundo.
O Hospedeiro
é uma criação do diretor Joon-Ho Bong, do também excelente
Memórias de um Assassino, disponível em DVD. Feito com orçamento
baixo até para os padrões coreanos, de 10 milhões de dólares,
é perfeitamente gratificante como "filme de criatura" gênero
que o Japão popularizou nos anos 50 e 60, com Godzilla e Mothra
A Mariposa Assassina, mas que desde o americano O Ataque dos Vermes
Malditos, de 1990, não produzia um único exemplar satisfatório.
Os 10 milhões de Bong bastaram para comprar os ótimos efeitos da
Orphanage, o ateliê do momento para cineastas de sensibilidade "alternativa"
e a maneira como o monstro se move pelas pontes e esgotos é verdadeiramente
uma coisa de pesadelo. Em locações, Bong não teve de gastar
nada: Seul, cinza e desolada, está toda à disposição
da família de Hyun-Seo, que, contra todas as evidências, tem certeza
de que a menina ainda está viva.
Bong, porém, é bem mais do que um artesão; é um cineasta
com estilo e propósitos. Como quase todos os outros de sua geração,
ele infunde seus filmes com um sentimento de profunda traição por
o seu ser um país dividido. Essa é, de certa forma, a aberração
que o monstro representa, e essa é também a devastação
que ele provoca: famílias dilaceradas, autoridades corruptas e esse
o tema constante de Bong a impossibilidade de proteger os inocentes de
horrores que sempre podem estar por vir. Na última cena de O Hospedeiro,
passada a crise, Gang-Du vive um momento idílico de intimidade familiar:
em sua barraca à beira do rio, a comida está na mesa, o fogareiro
está aceso e tudo é paz. Então a câmera se afasta.
A barraca, tão aconchegante por dentro, por fora está cercada de
neve e de escuridão. E de sabe-se lá qual outra ameaça.