Tanto
quanto a música, e às vezes mais do que ela, a "atitude" define
um roqueiro. Roupas, gestos e caretas são fundamentais para que ele encontre
o seu público e demarque o seu espaço no showbiz. Não é
surpresa, portanto, que o rock tenha estabelecido desde cedo uma aliança
estreita com a fotografia. Ao misturar o espontâneo e o calculado, ou, nas
palavras da crítica cultural Susan Sontag, "nuvens de fantasia e nódulos
de informação", a câmera sabe criar ícones e
ajudou a fazer isso, ao longo de cinqüenta anos. A fotografia de rock é
um gênero à parte, com existência própria. Ela conta
com seus grandes nomes, como Jim Marshall, Anton Corbijn e Bob Gruen esse
último um americano de 61 anos cujo trabalho pode ser visto a partir desta
semana no Museu de Arte Brasileira da Faap, em São Paulo. A maior parte
das fotos da exposição, batizada de Rockers, se encontra
num livro homônimo lançado pela editora Cosac & Naify.
Gruen começou a fotografar roqueiros porque amava os shows e a música.
Era, em resumo, um fã. Ele considera que seu primeiro trabalho profissional
aconteceu em 1965, num show famoso em que Bob Dylan trocou o violão pela
guitarra elétrica e assim comprou uma enorme briga com a platéia.
Gruen havia usado a câmera para conseguir um espaço entre os jornalistas,
na fila do gargarejo, mas depois de registrar esse espetáculo antológico
começou a levar suas fotos a sério. Ele clicou artistas do primeiro
escalão do rock, como John Lennon, Rolling Stones e Led Zeppelin, registrou
os primeiros passos do movimento punk nas apresentações de Sex Pistols
e The Clash e até hoje mostra disposição para conhecer novidades.
Seus trabalhos mais recentes incluem um show dos badalados White Stripes e outro
da banda finlandesa de heavy metal Lordi, na Times Square, em Nova York.
O espírito de fã é evidente nas fotos de Gruen. Ele ajuda
cada músico que fotografa a construir ou depurar um personagem. "Roqueiros
são, na essência, personagens. É por isso que eu gosto de
trabalhar com eles. O cantor Mick Jagger, por exemplo, é bem mais interessante
que o Jagger do cotidiano", diz Gruen. Suas fotos são tanto melhores quanto
mais ele tenha a oportunidade de conviver com os modelos em situações
informais. Um exemplo disso é a foto clássica de Sid Vicious, dos
Sex Pistols, lambuzado de mostarda. "Cliquei a imagem quando ele estava comendo
um hot dog e resolveu assumir sua persona punk", conta o fotógrafo.
Bob
Gruen fotografou lendas do rock e ainda vai atrás de novidades. No alto,
Mick Jagger no palco com o parceiro Keith Richards. À esquerda, o cantor
Iggy Pop se diverte com Debbie Harry, "moça de voz forte, beleza extraordinária
e atitude punk". À direita, o duo White Stripes numa apresentação
recente
Gruen não está
interessado em embelezar os seus modelos mas tampouco está ali para
capturá-los em ângulos desfavoráveis. São raras as
imagens como a que ele fez de Iggy Pop, sem camisa no palco, em 1996: nela, a
pele do cantor é uma espécie de couro sem brilho, curtido por décadas
de abuso de drogas. Se existe alguma crueldade nessa foto, no entanto, é
apenas aquela inerente à fotografia. Para citar mais uma vez Susan Sontag,
"tirar a foto de alguém é dar testemunho de sua mortalidade e vulnerabilidade".
Isso é mais verdade ainda quando se trata de registrar a história
do rock, um gênero que se dedica a celebrar a juventude mas que não
poupa os seus artistas da passagem do tempo.
O pecadilho de Gruen é a indiscrição. Ele adora flagrar os
roqueiros à vontade, nos bastidores. Muitos acabaram por tornar-se seus
amigos entre os quais, John Lennon, que deixou que ele registrasse sua
vida em família. Gruen foi o primeiro a tirar um retrato de Sean Lennon,
filho de John e Yoko: "Ele tinha 1 mês de idade. John e Yoko vestiram quimono
porque queriam enviar as fotos para parentes dela no Japão". Certa ocasião,
em 1975, Gruen estava na casa de Lennon quando este recebeu uma visita de Paul
McCartney. Os ex-beatles não se falavam havia cinco anos. "Fiquei ali,
assistindo ao reencontro e torcendo para que pedissem uma foto. Mas o pedido não
veio, e eu não podia trair a confiança deles." Como todo fotógrafo,
Bob Gruen tem sua lista de "imagens perdidas". Mas não importa. As que
ele fez são um show.