Artigo: Reinaldo Azevedo Gramsci, o parasita
do amarelão ideológico
O moderno esquerdista brasileiro,
essa contradição em termos, esse Jeca Tatu com laptop, tem
ainda em Antonio Gramsci (1891-1937) a sua principal referência.
O comunista italiano é o parasita do amarelão ideológico nativo.
Parte da nossa anêmica eficiência na educação, na cultura,
no serviço público e até na imprensa se deve a essa ancilostomose
democrática. Já viram aquele comercial na TV de um desodorizador
de ambiente em que um garoto bem chatinho, com o dedo em riste,
escande as sílabas para a sua mamãe: "eu que-ro fa-zer co-cô
na ca-sa do Pe-drrri-nho"? Costuma ir ao ar na hora do jantar.
Para a esquerda, Gramsci é a "ca-sa do Pe-drrri-nho" da utopia.
E, também nesse caso, o odor mitigado não muda a matéria de
que é feito.
Como a obra de Gramsci ficou
na grelha da empulhação um pouco mais do que
a de Lenin, chega à mesa do debate com menos sangue
e disfarça a sua vigarice. Acreditem: a revolução
da qualidade na educação, por exemplo, é
mais uma questão de vermífugo ideológico
do que de verba. O que me leva a este texto?
Na edição retrasada
de VEJA, o colunista Claudio de Moura Castro observou que
um grupo de educadores reagiu mal à decisão
de deixar o ensino técnico para uma fase posterior
à da formação geral do aluno. Segundo
ele, "os ideólogos da área protestaram (contra
a medida) citando Gramsci". Tomei um susto. Tenho pinimbas
com o gramscismo faz tempo. Na minha fase esquerdista-do-miolo-mole,
dizia tratar-se de uma "covardia conveniente que passa por
tática, em tempos de guerra, e de uma bravura inútil
que passa por estratégia, em tempos de paz". A tirada
é sagaz, mas inexata: Gramsci é um perigo na
guerra ou na paz. E estão aí o PT e a nova "TV
Pública" para prová-lo.
Gramsci é a principal
referência do marxismo no século passado. É
dono de uma vasta obra, quase a totalidade escrita na cadeia,
para onde foi mandado pelo fascismo, em 1926. Entre 1929 e
1935, escreveu seus apontamentos em 33 cadernos escolares,
os tais Cadernos do Cárcere, com publicação
póstuma. No Brasil, foram editados em seis volumes
pela Civilização Brasileira, com organização
de Carlos Nelson Coutinho. Explico o meu susto. O protesto
dos "ideólogos" fazia referência a um texto irrelevante,
que está no Caderno 12, em que o autor trata dos intelectuais
e da educação. Na edição brasileira,
encontra-se no volume 2, entre as páginas 32 e 53.
AFP
O comunista italiano Antonio
Gramsci: se você não pode com o capitalismo, corroa-o
por dentro. É a estratégia da verminose
Ali, Gramsci desenvolve o conceito de "escola unitária",
uma de suas muitas e variadas estrovengas autoritárias.
Segundo o seu modelo, seis de um período de dez anos
seriam dedicados à educação que fundisse
o ensino universalista com o técnico por isso
os "ideólogos" protestaram. Garanto que preferiram
ignorar o trecho em que ele antevê a escola como um
internato destinado a alguns alunos previamente selecionados.
O autor pensava a educação e todo o resto
como prática revolucionária, parte da
militância socialista. Para ele, a construção
da hegemonia de um partido operário supõe uma
permanente guerra de valores que rompa os laços da
sociedade tradicional. Esses seus estudantes seriam a vanguarda
a diluir as fronteiras entre o mundo intelectual e o do trabalho,
a serviço do socialismo.
A influência gramsciana
decaiu muito nos anos 60 e 70, com a revolução
cubana, os movimentos de libertação africanos
e a revolta estudantil francesa de 1968. Toda a sua teoria
se sustenta na suposição, verdadeira, de que
a sociedade chamada burguesa é dotada de fissuras que
comportam a militância de esquerda. O que se entendia
por revolução a bolchevique era
um modelo que havia se esgotado na Rússia de 1917.
As novas (de seu tempo) condições da Europa
supunham outra perspectiva revolucionária.
Fidel Castro, a África
insurrecta e o 68 francês reacenderam nas esquerdas
do mundo o sonho do levante armado. E elas deram um piparote
em Gramsci, em sua teoria da contaminação. No
Brasil, derrotadas pelo golpe militar de 1964, partiram para
a luta armada. A vitória das ditaduras e a Europa conservadora,
termidoriana, pós-revolta estudantil, trouxeram Gramsci
de volta. Concluiu-se que não era mais possível
derrotar o capitalismo por meio da luta armada. Era preciso
corroê-lo por dentro, explorar as suas contradições,
construir a hegemonia de um partido de forma paulatina. Voltava-se
à política como verminose. Não por acaso,
um dos textos vitais na formação do PT é
de autoria de Coutinho. Chama-se "A democracia como valor
universal". É de 1979. A tese é formidável:
sem democracia, não há socialismo, como se não
estivéssemos diante de um paradoxo. No ano seguinte,
Lula fundava o seu partido sobre o seguinte binômio:
"socialismo e democracia".
Admiradores da obra de Gramsci
se irritam quando afirmo que o PT é, na essência,
gramsciano. Entendo. Um partido que usa cueca como casa de
câmbio; que chegou a ter como gramáticos da nova
aurora Silvinho Pereira e Delúbio Soares; que é
comandado por uma casta sindical com todas as características
de uma nova classe social, folgazã e chegada a prebendas,
convenham, parece feito de matéria ainda mais ordinária.
Não tenho por Gramsci o apreço que eles têm.
Ao autor cabe o epíteto de teórico da "ditadura
perfeita", uma expressão do escritor peruano Vargas
Llosa.
A síntese do pensamento
gramsciano está expressa no Caderno 13, volume 3 da
edição brasileira. Trata-se de notas sobre o
pensador florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527), aquele
de O Príncipe. Para Gramsci, o príncipe
moderno (de sua época) era um partido político.
Leiam: "O moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte
todo o sistema de relações intelectuais e morais,
uma vez que seu desenvolvimento significa (...) que todo ato
é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso
ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência
o próprio moderno Príncipe (...). O Príncipe
toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo
categórico, torna-se a base de um laicismo moderno
e de uma completa laicização de toda a vida
e de todas as relações de costume".
Ninguém conseguiu, incluindo
os teóricos fascistas que ele combatia, ser tão
profundo na defesa de uma teoria totalitária como Gramsci
nessa passagem. Observem que se trata de aniquilar qualquer
sistema moral. Toda verdade passa a ser instrumental. Até
a definição do que é virtuoso e do que
é criminoso atende às necessidades do partido.
O sistema supõe a destruição do indivíduo
e de sua capacidade de julgar fora dos parâmetros definidos
pelo aparelho, que toma "o lugar, nas consciências,
da divindade e do imperativo categórico". Para Gramsci,
como se vê, não há diferença entre
política e abdução.
O PT é, sim, gramsciano.
Chegou lá? É o Moderno Príncipe, ainda
que tropicalizado? Não. Luta para sê-lo e deu
passos importantes nessa direção. Volto aos
"ideólogos" de que fala Claudio de Moura Castro. A
educação brasileira foi corroída pela
tal perspectiva dita "libertadora" e anticapitalista. Ela
não é ruim porque falta dinheiro, mas porque
deixa de ensinar português e matemática e prefere
libertar as crianças do jugo capitalista com suas aulas
de "cidadania". O proselitismo se estende ao terceiro grau
e fabrica idiotas incapazes de ver o mundo fora da perspectiva
do Moderno Príncipe.
Gramsci também falava
de um certo "bloco histórico", uma confluência
de aspectos políticos, econômicos e culturais
que, num dado momento, formam uma plataforma estável,
que dá fisionomia a um país. Esse partido que
busca essa hegemonia, que pretende ser o "imperativo categórico",
está na contramão do mundo contemporâneo
e das próprias virtudes da economia brasileira, que
lhe permitem governar com razoável estabilidade. Por
isso, não consegue executar o seu projeto. Mas o país
também não sai do impasse: nem naufraga nem
se alevanta. A exemplo de um organismo tomado pela verminose,
vê consumida boa parte de suas energias e de suas chances
de futuro alimentando os parasitas. Enquanto isso, os gramscianos
vão nos prometendo que ainda ocuparemos o troninho
da "ca-sa do Pe-drrri-nho".