Falta pouco tempo para a seguinte cena se tornar corriqueira. A criança
pede aos pais o brinquedo do momento, que acaba de ver na TV. Em vez de saírem
de casa e irem até uma loja, eles compram via internet um arquivo com um
desenho. Ao toque de um botão, o desenho é enviado a uma impressora
instalada ao lado do computador e o brinquedo é fabricado na hora. A impressão
em três dimensões, capaz de materializar objetos a partir de um desenho,
já é utilizada há uma década nas indústrias
de carros, de móveis e de foguetes, entre outros setores. Ela serve para
os projetistas e designers criarem protótipos de novos produtos. A novidade
é que essas impressoras estão prestes a se tornar eletrodomésticos.
Várias empresas americanas estão em fase de ajustes finais em sua
linha de produção para lançar aparelhos do gênero.
Eles custarão entre 5.000 e 10.000 dólares – contra até 850.000
dólares das impressoras em 3D usadas pelas indústrias – e já
há quem prometa para logo máquinas a 1.000 dólares. Em outubro
deve chegar às lojas o primeiro desses produtos, a Desktop Factory, fabricada
por uma empresa homônima da Califórnia. Pouco depois, será
lançada a impressora da 3D Systems. "Muita gente acha que impressão
em 3D é coisa de ficção científica. Já foi
assim, mas não é mais, e queremos levá-la aos lares e escritórios",
disse a VEJA Kathy Lewis, presidente da Desktop Factory.
As impressoras em 3D não chegam a reproduzir os "teletransportadores" do
seriado Jornada nas Estrelas, mas prometem causar uma pequena revolução
nos hábitos domésticos e no cotidiano de muitas profissões
– a exemplo do que ocorreu com o advento de aparelhos como o fax, a copiadora
e o scanner. Para isso, o próximo desafio é ampliar a gama de matérias-primas
com que as máquinas trabalham para produzir os objetos. As impressoras
usadas por indústrias criam produtos em metal e em várias ligas
de materiais. A impressora doméstica da Desktop Factory utiliza apenas
plástico em pó, derretido e depois esculpido na forma desejada pelo
calor de uma lâmpada halógena (veja
o quadro). Os objetos fabricados por ela ficam com uma cor acinzentada
e uma textura que lembra areia. Para obter objetos coloridos ou com textura lisa,
é preciso fazer o acabamento a mão. Quando os aparelhos que usam
outros materiais além do plástico se tornarem mais acessíveis,
será possível fabricar em casa ou no escritório praticamente
qualquer objeto pequeno – de roupas e sapatos a robôs. Qualquer pessoa será
capaz de transformar idéias em produtos. Cientistas da Universidade Cornell
já avançaram nessa direção. A impressora Fab@Home,
criada por eles, usa uma seringa que pode ser preenchida com qualquer material.
Já há encomendas para o aparelho, que custa 3.000 dólares.
Um segundo salto espetacular na impressão em 3D vai ocorrer quando outro
tipo de aparelho de alta tecnologia, o scanner em 3D, se tornar mais barato. Usados
na indústria cinematográfica para criar versões computadorizadas
do rosto e do corpo de atores, esses aparelhos permitirão ao consumidor
produzir cópias exatas de qualquer objeto que tenha em mãos, sem
depender de desenhos feitos no computador. Hoje, um scanner em 3D custa 40 000
dólares, mas o preço deve cair, como já está acontecendo
com o das impressoras em 3D.
Ao contrário das impressoras em 3D profissionais, que têm o tamanho
de três geladeiras juntas, a Desktop Factory mede 63 centímetros
de comprimento por 51 centímetros de largura – ou seja, pode ser acomodada
sobre uma mesa de escritório. Por enquanto, poucas pessoas possuem o conhecimento
técnico necessário para operar os programas usados na criação
de desenhos em três dimensões, como o AutoCAD. Calcula-se que, num
primeiro momento, o equipamento será mais usado por pequenas empresas.
A Desktop Factory confirma que as primeiras encomendas de seu aparelho foram feitas
por engenheiros, arquitetos e designers. De qualquer maneira, muitos desenhos
de objetos em 3D já podem ser comprados ou baixados de graça na
internet e o número de sites que oferecem esse serviço está
aumentando. Logo será possível trazer a Barbie para casa apenas
pressionando meia dúzia de botões.