Com fortes indícios de irregularidades
e muitas trapalhadas,
os Jogos Pan-Americanos dão um mau exemplo de organização
Ronaldo Soares
Gabriel de Paiva/Ag. O
Globo
Estádio do Engenhão: contratos
sem licitação na maior obra do Pan
Os Jogos Pan-Americanos do Rio
de Janeiro reunirão, em julho, 5.500 atletas de 42
países. Serão disputadas 2.500 medalhas, em
34 modalidades esportivas. Os competidores vão se enfrentar
em 29 instalações, proporcionando um espetáculo
que será visto por milhões de pessoas pela TV.
Mas os números que realmente impressionam são
outros. Mesmo antes da conclusão das obras, o Pan do
Rio conseguiu a proeza de ser o mais caro da história.
Os gastos somam até agora 3,6 bilhões de reais.
O custo médio das quatro edições anteriores
(Santo Domingo, Winnipeg, Mar del Plata e Havana) ficou muito
abaixo: 280 milhões de reais. Ou seja, o Brasil está
gastando doze vezes mais para promover o mesmo evento. Nas
últimas semanas, VEJA analisou contratos e teve acesso
a um ainda inédito relatório do Tribunal de
Contas da União (TCU). Além dos gastos exorbitantes,
o papelório encerra uma aula de como não se
deve organizar uma grande competição internacional.
Contratos sem licitação,
obras atrasadas, falta de transparência e estouro de
orçamento são os principais problemas. O ministro
Marcos Vilaça, do Tribunal de Contas da União,
responsável pelo processo, já havia se pronunciado,
em relatório anterior, da seguinte forma: "A proximidade
dos Jogos fez surgir, para utilizar uma imagem bíblica,
uma babel de convênios, licitações e contratações
de última hora". De lá para cá, a situação
piorou. Para se ter uma idéia da farra olímpica
que se estabeleceu com o dinheiro público, o governo
federal, que planejava destinar 172,7 milhões de reais
aos Jogos, já gastou até agora 1,9 bilhão.
Estouro de orçamento é uma praga que assola
todos os governos e acontece até nas melhores famílias.
O que impressiona agora, porém, é a dimensão.
"Em um evento assim, o normal é que se tenha um aumento
de até 30% em relação ao orçamento
inicial", disse a VEJA José Joaquín Puello,
presidente do Comitê Organizador do Pan de Santo Domingo,
em 2003. No Rio, a gastança já é quatro
vezes maior do que o orçamento inicial.
Não é o único
problema. As instalações estão atrasadas
e só ficarão prontas às vésperas
da competição. A correria deu origem a um sem-número
de contratos emergenciais e, pior, dispensas de licitações
milionárias. Considerada pelos organizadores a obra-símbolo
do Pan do Rio, o Estádio Olímpico João
Havelange, conhecido como Engenhão, é também
o melhor retrato da caótica preparação
dos Jogos (veja quadro). As obras ainda se arrastam.
Para tentar contornar o atraso, a prefeitura apelou para a
dispensa de licitação e entregou a tarefa às
empreiteiras Odebrecht e OAS. Um contrato de 80 milhões
de reais, num estádio que custará 400 milhões
de reais. Não foi a única obra sem licitação
do estádio. Da mesma maneira, a construtora Metropolitana
foi contratada por 4 milhões de reais para instalar
uma passarela ligando o Engenhão a uma estação
de trem. A estação está ali desde 1873,
mas os organizadores, certamente tomados de surpresa, deram-se
conta de que precisavam interligá-la ao estádio.
Além de dispendiosa, a construção do
Engenhão é questionável pela localização.
Fica a apenas quinze minutos do Maracanã. "O Engenhão
é um monumento ao desperdício de dinheiro público",
disse a VEJA uma autoridade envolvida na organização
dos Jogos.
O Comitê Organizador dos
Jogos Pan-Americanos (Co-Rio), presidido por Carlos Arthur
Nuzman, também contribuiu para a bagunça. Embora
tenha sido alertado, desde maio do ano passado, sobre a preparação
das cerimônias de abertura e encerramento, o Co-Rio
demorou a tomar providências. Com isso, o prazo ficou
curto e o governo federal acabou contratando sem licitação,
claro a empresa paulista Mondo Entretenimento, por
21,5 milhões de reais. A assessoria do Co-Rio informou
que o atraso se deu por falta de dinheiro, mas o TCU alega
que havia recursos disponíveis. Além das falhas
no planejamento, brigas políticas atrapalharam a preparação
dos Jogos. Durante muito tempo, o projeto ficou a cargo quase
que exclusivamente do prefeito Cesar Maia, que vivia às
turras com o presidente Lula e com a então governadora,
Rosinha. Passadas as eleições, o clima político
se desanuviou e teve início um esforço conjunto
para livrar o Brasil do vexame de não conseguir realizar
o evento. Os governantes abriram os cofres. Todos ficaram
felizes. O contribuinte, nem tanto.