Célebres
por revoluções, os franceses forjaram no último quarto de
século a imagem de povo avesso a reformas em um país de economia
morosa. Eles acabam de virar mais uma página de sua longa história.
Na mais velha democracia da Europa continental, onde o voto não é
obrigatório e a abstenção nas eleições se tornou
símbolo da descrença nos políticos, quase nove entre dez
eleitores foram às urnas eleger seu novo presidente. A escolha emergiu
da disputa entre duas vertentes cuja denominação nasceu quando parlamentares
franceses escolheram de que lado iriam sentar-se na Assembléia Nacional:
a esquerda e a direita. O presidente, eleito com um número de votos superior
ao de qualquer outro postulante desde 1965, quando o sufrágio universal
direto se tornou o modo de escrutínio o que lhe confere legitimidade
inédita , é Nicolas Sarkozy.
Descendente de aristocrata húngaro e criado pela família materna
de origem turca sefardita, ele foi florista e sorveteiro para pagar a faculdade
de direito, não o celeiro da classe política, a Escola Nacional
de Administração (ENA). Pela personalidade e ação,
Sarkozy lembra um extraterrestre na política francesa. Venceu as eleições
no único país onde a legislação limita a jornada de
trabalho a 35 horas semanais com o bordão: trabalhar mais para ganhar mais.
Mas, sobretudo, o triunfo deriva da total falta de complexo e do gosto com que
Sarkozy defendeu seu ideário. É uma temeridade se dizer de direita,
em público, na França ainda que, desde a queda do Muro de
Berlim, esteja claro que representa o mais positivo pensamento político
ocidental e a via econômica eficiente para a criação de riquezas.
Para quem esteve alheio
e mesmo para muitos franceses ao processo que desencadeou o resultado do
pleito, a pergunta natural foi: quem é Nicolas Sarkozy? Própria
da natureza humana, a reação ao desconhecido é a abordagem
pelo apoio das referências e, como escreveu Machado de Assis sobre o Senado
de 1860, as "visões valem o mesmo que a retina em que se operam". Os adversários
pintaram o retrato de Sarkozy com tintas sombrias: fascista, racista, agente do
capital, estrangeiro, húngaro, judeu, cão de George W. Bush, psicopata,
brutal e, como resumiu sua concorrente, a socialista Ségolène Royal,
em tentativa desesperada de mudar os rumos da eleição na última
hora, "um perigo para a França".
O processo de demonização da campanha eleitoral começa a
encontrar ressonância tardia fora da França, nos bolsões da
esquerda radical. Os franceses já acabaram com ele pelo voto. Os mais otimistas
querem ver na figura apequenada 1,68 metro de Sarkozy um Tony Blair
francês, Margaret Thatcher de calças, um renascentista econômico
como Ronald Reagan, enfim um reformador liberal que vai transformar um país
orgulhoso da histórica vocação de nação-modelo,
mas refratário à idéia de se parecer com qualquer parte do
mundo.
Jacques Attali, eminência
parda do falecido presidente socialista François Mitterrand, lembra o dia
em que chegou ao Palácio do Elysée e foi informado do telefonema
de um tal Sarkozy: "Ele se apresentou como jovem advogado, gaullista, apaixonado
por política, que desejava ser presidente da República e encontrar-se
comigo". Attali, conselheiro de notória inteligência e erudição,
íntimo das engrenagens e dos entraves do poder, não menos curioso,
acolheu Sarkozy no palácio onde a partir de 17 de maio o novo presidente
da França vai fixar residência e comandar a sexta economia do mundo.
Desde então, os dois se tornaram amigos. Attali diz: "Eu apreciei o personagem
volúvel, despretensioso, aberto e, acima de tudo, capaz de franquezas desconcertantes".
Sarkozy conheceu o topo da
colina e a travessia do deserto: esteve à frente do poderoso Ministério
do Interior e, antes, amargou a solidão imposta pelos seus aliados quando
escolheu apoiar a candidatura à Presidência de Eduard Balladur contra
Jacques Chirac. "Eu o vi confrontar crises pessoais com nobreza, refletir muito
sobre questões como justiça e segurança pública, improvisar
em tantas outras como a economia e as relações internacionais",
diz Attali.
Nicolas Sarkozy,
que veste elegantes ternos escuros Christian Dior a versão moderna
das armaduras dos cavaleiros medievais , é herdeiro da mais antiga
família política da direita francesa: o bonapartismo. A ordem, a
autoridade, o mérito, a iniciativa, a disciplina, o patriotismo, a identidade
francesa e a crença de que a modernização da sociedade e
da economia passa pela energia e pela audácia do homem providencial. Essa
corrente não vê nenhuma incompatibilidade entre o povo e a direita
nem cumplicidade natural entre ele e a esquerda. A direita de Sarkozy não
tem parentesco com o regime de Vichy, colaborador do ocupante nazista nos anos
40. Ela é, sim, gaullista. O movimento pendular entre o dirigismo e o liberalismo,
a industrialização e a compaixão social, o livre-comércio
e o protecionismo encontra pontos de contato mas não tem sincronia com
os conservadores britânicos, os republicanos americanos ou os social-democratas
alemães.
Apenas um
ano mais velho que Sarkozy, o primeiro-ministro britânico Tony Blair, 54,
anunciou sua renúncia para 27 de junho e o legado de uma década.
"Só um governo desde 1945 pode dizer o seguinte: mais trabalho. Menos desemprego.
Melhor saúde pública e resultados na educação. Criminalidade
baixa e crescimento econômico a cada quarto de ano. Este governo é
o nosso", disse Blair. Agora chegou a vez de Sarkozy converter seu discurso, já
diferente no tom, em substância. A julgar pela sua disposição
inicial, o tamanho da empreitada e a resistência habitual, os franceses
podem apertar os cintos vem turbulência por aí.