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Brasil "O
Brasil criou empregos na Índia" O presidente
da Merck diz que o licenciamento compulsório da patente de um remédio
antiaids foi um tiro no pé do governo e poderia ter sido evitado
 Cíntia
Borsato Eduardo
Knapp/Folha Imagem
 | | ONGs
apóiam a medida: a "economia" será de 30 milhões de dólares por ano |
O laboratório farmacêutico americano Merck Sharp & Dohme transformou-se
na primeira companhia a ter a patente de um produto quebrada no Brasil. Trata-se
do anti-retroviral Efavirenz, o principal medicamento do coquetel antiaids distribuído
gratuitamente pelo governo brasileiro a 75.000 dos 210.000 portadores da doença
no país. A medida permitirá ao governo importar um genérico
fabricado na Índia, economizando cerca de 30 milhões de dólares
por ano. De acordo com o ministro José Gomes Temporão, a medida
foi adotada depois que o governo esgotou todas as possibilidades de negociação
com a Merck e está em absoluta conformidade com as exigências internacionais
e com a legislação brasileira. "A empresa detentora da patente do
Efavirenz estabelece uma política de preços praticada no mercado
internacional que não considera a realidade brasileira." A versão
da Merck é outra. "Foi uma decisão abrupta, inesperada e lamentável",
disse o físico brasileiro Tadeu Alves, presidente da divisão latino-americana
do laboratório, em sua primeira entrevista após o episódio.
O GOVERNO DIZ TER ESGOTADO TODAS
AS POSSIBILIDADES DE NEGOCIAÇÃO ANTES DE QUEBRAR A PATENTE DO EFAVIRENZ...
Não houve negociações propriamente ditas. Sempre
tivemos um bom relacionamento com o Brasil. Mas dessa vez foi diferente. Fomos
tachados de "inflexíveis", mas quem agiu assim foi o governo. O Ministério
da Saúde limitou-se a exigir uma redução no preço
do medicamento de 1,57 dólar o comprimido para 0,65 dólar. Não
houve espaço para diálogo. Foi uma decisão abrupta, inesperada
e lamentável. A MERCK
COBRA 0,65 DÓLAR DO GOVERNO DA TAILÂNDIA. POR QUE NÃO ESTENDER
O MESMO PREÇO AO BRASIL? A Merck se pauta por dois pilares para
definir o preço de medicamentos em cada país. Um deles é
o IDH (índice de desenvolvimento humano), calculado pelas Nações
Unidas. O outro é a proporção de pessoas infectadas. Brasil
e Tailândia têm IDH parecido. Mas, enquanto 0,5% da população
adulta brasileira tem aids, na Tailândia a relação é
três vezes maior. Também há uma lógica econômica:
se todos resolvessem pedir equivalência ao menor preço, a Merck seria
obrigada a restringir o acesso de remédios aos países africanos.
Divulgação
 | | Tadeu
Alves, da Merck: a percepção sobre o Brasil não será a mesma |
MAS
O BRASIL TEM MAIS INFECTADOS DO QUE A TAILÂNDIA: SÃO 210 000 CONTRA
130 000... Esse argumento é frágil. A taxa de incidência
da doença pesa muito mais no Orçamento do governo do que o número
absoluto de doentes. Mesmo assim, respeitamos a preocupação do governo
brasileiro e nos desdobramos para formular alternativas. QUE
ALTERNATIVAS FORAM ESSAS? Propusemos reduzir 30% o preço do medicamento
e ainda oferecemos um pacote de incentivos. Estávamos dispostos a fabricar
o Efavirenz no Brasil a partir de 2008. Além disso, sugerimos transferir
a tecnologia de produção do Efavirenz para o laboratório
federal Farmanguinhos (da Fundação Oswaldo Cruz) em 2010,
dois anos antes do fim da patente. Isso daria ao estado uma economia muito maior
que a dos supostos 30 milhões de dólares calculados pelo governo
com a quebra da patente. POR
QUE SUPOSTOS? O governo vai poupar só 17 milhões de dólares,
considerando nossa oferta de redução de 30% no preço do remédio.
Esse valor é ínfimo se comparado aos benefícios incalculáveis
que o país teria com a produção local do Efavirenz. O governo
preferiu criar empregos na Índia. EM
2001, O ENTÃO MINISTRO JOSÉ SERRA TAMBÉM AMEAÇOU A
LICENÇA DO EFAVIRENZ. QUAL FOI A DIFERENÇA? O licenciamento
compulsório é previsto pela legislação brasileira
e por acordos internacionais. Faz parte do jogo usá-lo como meio de negociação.
Em 2001, houve uma ameaça velada, mas chegamos a um acordo favorável
às duas partes. POR QUE
O SENHOR ACHA QUE O GOVERNO LULA RECUSOU A PROPOSTA DA MERCK? Não
sei ao certo. O presidente mundial da Merck, Richard Clark, conversou com o ministro
Temporão e ouviu palavras conciliatórias. Em uma semana tudo mudou
e os canais de diálogos foram fechados. Um dia antes do anúncio
do governo, e sem saber dele, propus ao Gerson Penna (secretário de
Vigilância do Ministério da Saúde) melhorar nossa primeira
proposta, mas o governo não nos ouviu. O
QUE DISSE PENNA? A seguinte frase: "Vocês podem mandar uma proposta
a qualquer hora, porque a decisão já está tomada e o prazo
acabou ontem". Depois veio o anúncio bombástico do licenciamento
compulsório, com a presença de caravanas e discursos previamente
escritos. Isso não se arranja em quatro ou cinco horas. Ou seja, a quebra
de patente fora prevista havia mais tempo. Fica a impressão de que o governo
não queria negociar. O
PROGRAMA ANTIAIDS BRASILEIRO É REFERÊNCIA MUNDIAL. NÃO É
UMA QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA? O programa é
muito bom, mas não existiria sem as inovações da indústria
farmacêutica. O governo alega interesse público para quebrar a patente,
mas o interesse foi comercial. COMO
A EMPRESA VAI REAGIR? Não é uma boa hora para grandes decisões.
Estamos analisando o plano de investimento para o Brasil. O momento era muito
favorável. Pela primeira vez na história da Merck, o escritório
matriz para a América Latina ficará sediado fora dos Estados Unidos.
A inauguração em São Paulo ocorre nos próximos dias
e é uma prova da importância do Brasil para os negócios da
empresa. Nossa fábrica em Campinas vem recebendo investimentos crescentes
há cinco anos. A idéia era fazer com que o Brasil se tornasse uma
plataforma de exportação para a América Latina e para a Europa.
COMO ERA O RELACIONAMENTO DA
MERCK COM O PRESIDENTE LULA? Muito bom. Em janeiro, o presidente ouviu
os planos para o Brasil diretamente de Clark em Davos, na Suíça.
Quando Clark o informou da intenção de criar no Brasil uma plataforma
mundial de exportação, recebeu esta resposta de Lula: "Você
tem um parceiro no Brasil, pode contar conosco". É óbvio que nossa
percepção não será a mesma. A minha, em especial,
tende a mudar. Durante décadas defendi investimentos da Merck no Brasil.
Fiz mais por este país do que muitos ministros de Relações
Exteriores. COMO FICARÁ
A RELAÇÃO DA MERCK COM O GOVERNO? Espero que o governo tenha
chance de repensar suas atitudes. Da mesma forma que declarou a licença,
ele pode retorná-la a seu detentor. O governo tudo pode. |