O governador Serra enfrenta o atraso
que ainda reina na USP
Camila Pereira
Vidal Cavalcante/AE
Vandalismo na invasão à reitoria:
ação corporativa contra a transparência
O obscurantismo
abomina o conhecimento. A queima de livros durante a Inquisição,
a depredação, no ano passado, de um centro de
pesquisas da companhia Aracruz por uma horda de 2 000 militantes
teleguiada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST). Os exemplos atravessam eras e continentes. O obscurantismo
pode tornar-se pior quando combinado com a praga do corporativismo.
Foi o que ocorreu no último dia 3 na Universidade de
São Paulo, a maior instituição de ensino
superior e pesquisa do país. Um bando de 300 alunos
invadiu o prédio da reitoria, depredou suas dependências
e ocupou o gabinete da reitora Suely Vilela. Os manifestantes
passaram a usar internet e telefone livremente para divulgar
seu protesto, que, na última sexta-feira, já
durava uma semana. Qual é a razão para tanto
vandalismo? Entre reivindicações oportunistas,
como a melhor conservação dos prédios
da universidade, os depredadores de prédios públicos
querem impedir que o governador José Serra exija mais
transparência dos gastos das três universidades
estaduais além da USP, a Unesp e a Unicamp.
Leandro Amaral/AE
Serra: gasto com eficiência
A queda-de-braço começou porque Serra resolveu
incluir as contas das três universidades no Sistema
Integrado de Administração Financeira para Estados
e Municípios (Siafem). O sistema monitora a movimentação
do caixa de órgãos públicos ou
seja, permite aos contribuintes acompanhar o uso de seu dinheiro
e, aos administradores, avaliar a eficiência da gestão
financeira. A medida, mais que salutar, foi vista como um
ataque à autonomia universitária pelos sindicatos
de professores e de funcionários da USP, as entidades
que estão por trás da manifestação.
Trata-se de uma desculpa esfarrapada. O Judiciário
e o Legislativo, poderes independentes, também recebem
recursos do governo estadual. E também estão
no Siafem. Por que as universidades mereceriam tratamento
diferenciado? "Em nome da autonomia, criou-se o mito no Brasil
de que universidades estão acima de qualquer fiscalização",
afirma o economista Gustavo Ioschpe. "É preciso mostrar
como se gasta cada centavo."
No caso, não
se trata de centavos: o orçamento executado da USP
em 2005 foi de 1,9 bilhão de reais. O gasto anual por
aluno anda na casa dos 12 000 dólares. Esse valor,
em relação ao PIB per capita do estado de São
Paulo, é quatro vezes maior do que o custo por estudante
nas universidades dos ricos países da OCDE. A produtividade
não acompanha esse gasto. Apesar da excelência
nas áreas de pesquisa e pós-graduação,
a USP ainda tem desempenho fraco em critérios acadêmicos
importantes (veja o quadro). O governador Serra cumpre
seu papel de administrador ao enfrentar esses problemas e
resistir às pressões corporativas. Age com a
autoridade de quem foi presidente da União Nacional
dos Estudantes e teve longa carreira como professor em instituições
como a própria Unicamp e Princeton, nos EUA. Não
é ele quem quer destruir a autonomia da USP.