Nos
últimos dois séculos, não foram poucos os surtos de investimentos
estrangeiros no Brasil. O primeiro deles deu-se logo depois da independência,
em 1822. Financistas de Londres esperavam lucros extraordinários diante
do potencial dos projetos da nação que nascia. Mas poucos investimentos
vingaram, e logo as expectativas se frustraram. De lá para cá, o
roteiro foi sempre o mesmo: surtos de otimismo, cedo ou tarde, substituídos
por grandes ressacas. O Brasil está a um passo de mudar essa história.
Depois de uma década de avanços, o país começa a ser
premiado por condições internacionais únicas e pela estabilidade
e previsibilidade de sua economia. Nasce no Brasil um fluxo inédito de
investimentos privados de longo prazo. Em outras palavras, há cada vez
mais pessoas e empresas dispostas a investir em outras empresas e pessoas, e não
em títulos do governo, que rendem cada vez menos devido à queda
dos juros. Como resultado, começa a sobrar mais dinheiro para atividades
produtivas, como infra-estrutura, moradia, educação, tecnologia
e até mesmo entretenimento.
A face mais visível desse processo é a Bovespa (a Bolsa de Valores
de São Paulo), que já captou 72 bilhões de reais desde 2004
somente com a emissão de novas ações uma montanha
de recursos que está irrigando projetos como a construção
de condomínios residenciais e usinas de etanol. Mas o fato mais auspicioso
é o despertar dos fundos especializados em injetar recursos em negócios
incipientes ou promissores diretamente, sem passar pela Bovespa. Conhecidos como
private equity e venture capital, fundos como esses capitalizaram
o nascedouro de gigantes atuais, como a Microsoft, o Google e o Skype. Havia poucos
deles no Brasil até recentemente. Mas em 2006 foram criados 26, o dobro
do número registrado em 2005. Para este ano, estima-se que eles captem
e invistam 3 bilhões de dólares. Exemplos não faltam. Sócio
do Gávea Investimentos, o ex-presidente do Banco Central Armínio
Fraga administra fundos que injetaram recursos em setores tão diferentes
como educação, transportes e entretenimento. Apenas nas últimas
semanas, o Gávea tornou-se acionista das operações latino-americanas
do McDonald's e da administradora de shopping centers Aliansce. Sua aquisição
mais recente foi a CIE, empresa de entretenimento de origem mexicana que administra
vários teatros, trouxe para o Brasil o Cirque du Soleil e a exposição
O Corpo Humano e promove a corrida de carros mais popular do país,
a Stock Car.
"Até pouco
tempo atrás, o mercado financeiro era visto como um verdadeiro cassino",
disse Armínio a VEJA. "Agora, reencontrou sua verdadeira função
de financiar o crescimento das empresas. Estamos vendo o casamento do mercado
de capitais com a economia real." Segundo o presidente da Associação
Brasileira de Private Equity & Venture Capital, Marcus Regueira, essa atividade
só passou a ser interessante aqui por causa da queda dos juros. Afirma
ele: "Esse dinheiro não pode mais ficar parado em títulos que rendem
cada vez menos. Por isso, o grande investidor está saindo atrás
de alternativas". As estrelas do momento são o setor imobiliário
e os negócios que envolvem energia limpa. Mas outros setores estão
se mostrando apostas rentáveis, como o de educação superior.
Menos de cinco anos depois
de nossa última crise financeira, em 2002, o Brasil vive uma espécie
de crise às avessas: sobra dinheiro e faltam projetos e ativos de qualidade
para absorvê-lo. Projetos sólidos são disputados a tapa por
investidores, dentro ou fora da bolsa. É o caso da BrasilAgro, companhia
do setor agropecuário que fez seu IPO (sigla em inglês para oferta
inicial de ações) sem ter um único ativo. Vendeu seu capital
humano ou seja, o talento de seus sócios, entre eles o empresário
Elie Horn, dono da construtora Cyrela. A empresa levantou 600 milhões de
reais com a venda de ações e já comprou 96.000 hectares de
terras.
Olhando para a frente,
as perspectivas são ainda mais promissoras. Na semana passada, a agência
de classificação de crédito Fitch elevou a nota brasileira
para BB+. Trata-se da melhor avaliação jamais obtida pelo país
apenas um degrau abaixo do nível mínimo para que o país
obtenha a classificação de investment grade (ou grau de investimento),
selo de qualidade que atesta a confiabilidade do país aos olhos do investidor.
Qual o benefício disso? Quando o país obtiver essa nota, o governo
e as empresas ganharão ainda mais acesso a crédito, em volumes sem
precedentes e com taxas de juro similares às de países desenvolvidos.
O país entraria no radar dos 10 trilhões de dólares depositados
em fundos de pensão europeus e americanos que atualmente não podem
aplicar no Brasil justamente por causa da falta do investment grade. A
simples expectativa de o Brasil atingir esse nirvana financeiro já se reflete
na valorização dos ativos brasileiros. Não à toa,
o real tornou-se moeda forte e estável.
Ao contrário de outros momentos da história do país, existe
um quase consenso entre os analistas de que "desta vez é para valer". Em
suma, de que não se trata de mais um surto ciclotímico da economia
brasileira. Para Paulo Bilyk, sócio do banco de investimentos Rio Bravo,
a queda de juros trouxe uma nova mentalidade. Antes, era fácil aplicar
dinheiro, bastava emprestá-lo ao governo. Agora, os investidores, principalmente
os fundos de pensão, terão de buscar aplicações de
maior rentabilidade. Daí a disparada na Bovespa, cujo principal índice
ultrapassou os 50.000 pontos e acumula alta de 15% neste ano, contra 4% de valorização
dos fundos DI, lastreados em títulos públicos. O apetite dos investidores
internos e estrangeiros trouxe um fenômeno curioso, como observa William
Eid Junior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV-SP: "A
diversificação dos investimentos elevou a procura por ações.
Já faltam papéis de qualidade". Por isso a pressa de muitas companhias
em aproveitar o bom momento e vender suas ações na bolsa. Apenas
neste ano, 21 empresas já fizeram a sua oferta inicial de ações
e outras 15 estão em processo de análise. Em 2006, houve 26 IPOs.
Em 2005, apenas nove.
O Brasil
então dobrou o Cabo da Boa Esperança, deixou as águas do
atraso para trás, e a partir de agora navegará em mares tranqüilos?
Talvez. Se a rota é correta, o ritmo ainda decepciona. O país apenas
começa a vislumbrar as benesses de viver num ambiente de previsibilidade
e confiabilidade. Será ainda mais fácil navegar após as reformas
que elevem a competitividade e a produtividade da economia.
Divulgação
SAÚDE
FINANCEIRA Em vez de recorrer a bancos,
o hospital Nossa Senhora de Lourdes criou um fundo para captar recursos para ampliar
suas instalações. "Em poucos dias, conseguimos 65 milhões de reais", diz Fábio
Nogueira, da Brazilian Mortgages, empresa que coordenou a operação
Lia
Lubambo
BOLSA
DE ESTUDO Há quatro anos, a universidade
paulista Anhangüera Educacionalvendeu 82% das ações
para um fundo do Banco Pátria. Em março, foi à bolsa e levantou
512 milhões de reais, dinheiro que usará para adquirir doze instituições.
As ações da faculdade já subiram 60%
Divulgação
CINEMA
DE RISCO O banco de investimentos Rio
Bravo, do ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, criou fundos para investir
na produção de filmes. Os recursos financiaram, entre outras, as
fitas O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias e O
Maior Amor do Mundo, com Taís Araújo (foto)