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Outono. Mostrei-lhe a lua
no horizonte, tão redonda, tão linda, tão
rara. Mas ela me disse, com toda sinceridade: "Prefiro
o Faustão". |
Millôr também
processado, ora! Ora!
O
caso Diogo Mainardi, condenado pelo MR-8, e o caso
de Arnaldo Jabor, processado pela tropa de choque do Chinaglia
(cuidado com a pronúncia!), tornaram mais visível
o ódio que os donos do puder têm
por jornalistas. Conto o último processo contra mim,
sem sombra da importância do processo contra Jabor e
da ameaça vital contra Mainardi. Mas bem mais ridículo.
Autor do processo, para me tomar R$ 32 200: Aldo Rebelo.
Motivo: quando
ele, do alto do seu saber lingüístico, propôs
decreto proibindo o uso de palavras estrangeiras em nossos
escritos, comentei: "Ele sabe do que está falando?
Quanta idioletice!".
Eu escrevia na
Folha de S.Paulo quando o absoluto ignorantibus me
processou. Sugeri à advogada Silvana Takano, do departamento
jurídico da Folha, esta base para minha defesa:
1) Pra mim,
laico, o processo está "prejudicado" em princípio.
O deputado bota como meu este texto: "Ele sabe do que
está falando? Quanta idiotice!". Ora, eu escrevi
idioletice. O deputado confundiu idioletice
com idiotice, o que é uma comprovação
da mesma.
2) Parêntesis:
A língua é a mais complexa, a mais milagrosa,
a mais estranha, a mais gigantesca e variada invenção
humana. Nada menos sujeito a tutelas autoritárias.
Agora, mais uma vez, vê-se um cidadão, "eleito
pelo povo", propor lei proibindo o uso de palavras estrangeiras
em nossos escritos.
Péra aí:
está na sua proposta de governo que ele teria autoridade
para interferir no que eu falo, escrevo ou pinto em minha
tabuleta? Ele sabe, literalmente, do que está falando?
Quanta idioletice!
3) Não
coloquei o nome do autor, já que não era o caso,
em se tratando de um absoluto leigo no assunto (e anônimo
no geral) sobre o qual pretendia legislar a língua
nossa. Será que o Vossa Excelência aceitaria
pequena sabatina de português tipo primeiro ginasial?
4) Bem,
o "comprometimento da honorabilidade" do moço,
como ele diz, pra ser tão grave, precisaria, pelo menos,
que eu tivesse usado seu nome. Sem uso do nome a desonra fica
restrita ao convívio de seus pares (e ímpares),
que devem conhecer muito bem sua honra, e cultura lingüística.
5) Imune
a tudo, o parlamentar tem direito total ao uso da palavra.
Não pode ser condenado por isso (mesmo quando sua palavra
é caluniosa). Por que o jornalista, que vive só
da palavra, não pode nem discordar da legislação
semântica do parlamentar sem ser tungado em R$ 30 200?
6) Embora
não seja necessário, devido a se atribuir alto
conhecimento da língua que defende, explico aqui ao
nobre deputado o que significa a palavra idioletice.
É palavra criada por mim com sentido evidente. Mas
apenas coloquei a desinência ICE na palavra IDIOLETO.
Mas, afinal, o
que é idioleto?
Vejamos:
Aurélio:
Idioleto: S.m. E. Ling. 1. A fala de um único
indivíduo.
Houaiss
(definição mais barroca):
Idioleto:
Sistema lingüístico de um único indivíduo,
que reflete suas características pessoais, os estímulos
a que foi submetido, sua biografia etc. (Pertence ao campo
da langue, e não da parole, porque trata
de particularidades lingüísticas constantes, não
fortuitas. Depreendido de dialeto.)
II Nuovo ZINGARELLI
Vocabolario della Lingua Italiana:
Idiolétto:
L'insieme degli usi di una lingua carateristtico di un dato
individuo, in un determinato momento.
The Oxford Companion
to the English Language:
Idiolect:
(1940. From greek, idios personal, and -lect as in dialect.)
In linguistics, the language special to an individual, "personal
dialect".
The Cambridge
Encyclopedia of Language. David Crystal:
Idiolect:
Probably no two people are identical in the way they use language
or react to the usage of others.
A Supplement
to the Oxford English Dictionary:
Idiolect:
1948. B.Bloch in Languages XXIV. 7. The totality of the possible
utterances of one speaker at one time in using one language
to interact with other speaker is an idiolect.
Diccionario
de Uso del Español Actual:
Idiolecto:
En lingüístico, modo característico que
cada hablante tiene de emplear su lengua.
(Importante, deputado:
o prefácio deste dicionário é de Gabriel
García Márquez. Vale a pena ler.)
1948. Archivum
linguisticum:
Idioletical
diversity is an inevitable result of the productivity inherent
in every single individual linguistic habits.
P.S. Ah, deputado
José Aldo Rebelo, vossa advogada, Dra. Zilah Joly,
na página 7, linha 6, antepenúltima palavra
da linha, de vosso brilhante arrazoado, usa à (a craseado),
que mostra certo desconhecimento da língua normatizada.
Eu não ligo não, defendo mesmo a tese de que
a crase não existe em português do Brasil, mas
tem gente no foro que repara.
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