"É sempre bom lembrar
que a plena
liberdade de culto contempla a liberdade
de qualquer culto, inclusive nenhum"
Durante a visita do papa, trataram
a Igreja Católica como chiclete, puxando-a para todos
os lados. Os católicos, enlevados com a presença
do papa, voltaram a defender o de sempre: que a doutrina da
Igreja vire política de estado. Puxando a Igreja para
lá, condenam a camisinha, o aborto, o divórcio,
o casamento gay e querem que suas condenações
morais sejam válidas para todos os brasileiros, e não
apenas para os católicos. Chiclete para um lado.
Os que discordam disso tudo
tentaram fazer com que a Igreja Católica deixe de ser
o que é uma igreja, com seus dogmas e doutrinas,
suas crenças e suas verdades. Puxando a Igreja para
cá, querem que ela autorize o aborto, libere o uso
da camisinha, aprove o divórcio, concorde com o casamento
gay para todos os brasileiros e, inclusive, para os
católicos. Chiclete para o outro lado.
Está tudo errado. Certo
mesmo seria que, num estado laico e com liberdade de culto,
cada lado pudesse viver segundo suas convicções.
Portanto, está certo o papa quando defende a excomunhão
de políticos que aprovam o aborto. O PPS chegou a divulgar
nota criticando a postura supostamente autoritária
do papa. Não é autoritária. O deputado
José Genoíno, que começa a voltar à
luz depois de ser abatido pelo mensalão, acha que é
uma posição intolerante. Também não
é. É apenas uma posição da Igreja
Católica válida para os católicos. "O
direito de matar um inocente, uma criança humana, é
incompatível com estar em comunhão com o corpo
de Cristo", disse o papa. Eis a palavra do representante do
Deus dos católicos na Terra. É simples. Quem
concorda vive segundo esses ensinamentos. Quem não
concorda tem o direito de rezar em outra freguesia ou de não
rezar em freguesia alguma.
O outro problema é quando
o chiclete espicha para o outro lado e a Igreja Católica
não se contenta em falar apenas ao seu rebanho. É
contra o aborto? Nenhum problema. Que oriente seus fiéis
para que jamais o façam. Em vez disso, a Igreja Católica
quer que o estado brasileiro mantenha uma proibição
legal que atinge a todos... É contra o uso da camisinha,
pois, segundo a clarividência divina de dom Geraldo
Majella, ela incentiva "a criança, o adolescente" à
"promiscuidade"? Nenhum problema. Peça aos seus fiéis,
"a criança, o adolescente", que se abstenham de usá-la.
Em vez disso, a Igreja Católica quer que o governo
brasileiro suspenda a distribuição de camisinha
nos postos de saúde para todos os brasileiros... Não
gosta que os adolescentes "fiquem", pois, segundo a infinita
elegância de dom Dimas Lara Barbosa, as meninas que
o fazem se comportam como "garotas de programa"? Nenhum problema.
Basta orientar suas meninas a não se comportarem como
"garotas de programa". O raciocínio vale para tudo.
Casamento gay, eutanásia, divórcio. Quando não
é assim, fica parecendo que a Igreja não confia
na sua capacidade de convencer seus fiéis e precisa
transformar seus pontos de vista em obrigação
legal para todos.
É sempre bom lembrar
que a plena liberdade de culto, que a Igreja Católica
tão corretamente defende, contempla a liberdade de
qualquer culto, inclusive nenhum.