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Edição 1 700 - 16 de maio de 2001
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Claudio de Moura Castro

Volta a Pindorama

"A economia melhorou, os eleitores
têm mais juízo, há menos espaço para
extremismo e a corrupção amainou, mas
alguns focos do Brasil velho continuam"



Ilustração Ale Setti


Volto a morar no Brasil depois de quinze anos no exterior. Boa hora para fazer um balanço. O que mudou para melhor? O que regrediu?

O governo é menos heróico, os tecnocratas menos arrogantes. Não há mais dinheiro sobrando e menos obras ficam inacabadas. Feneceu o estilo Brasil Grande.

A economia certamente melhorou. Há mais pragmatismo e eficiência nas empresas. A concorrência atropela os preguiçosos e incompetentes, os produtos são melhores e os vendedores mais solícitos (felizmente, não copiaram o serviço gélido dos americanos).

Mas, na reforma de meu apartamento, pude ver a porta dos fundos da equação da produtividade. Os operários contratados dominam razoavelmente o ofício, mas não têm recursos para comprar uma lata de tinta, o que os obriga a idas e vindas desnecessárias. Persiste a tradição de trabalhar com poucas ferramentas: o pintor raspa a tinta com uma lâmina de faca quebrada e faz o café em uma lata. O carpinteiro equilibra em um caixote a tábua a ser serrada. Mas alguns já têm automóvel, e o celular faz uma pequena revolução na produtividade.

A classe média continua se considerando mais arruinada que nunca e reclama como sempre. Mas os restaurantes estão cheios, os carros mais luxuosos e os padrões de consumo mais parecidos com os dos americanos. As lojas possuem os mesmos produtos que as congêneres dos Estados Unidos (nos dietéticos são até mais sortidas), e os adolescentes grotescamente se vestem como os colegas do Norte.

Alvíssaras, as patrulhas ideológicas definharam, só sobrando alguns redutos. Há menos espaço para os extremismos. Regrediram as ideologias cansadas, rançosas e zangadas.

Num momento em que falar mal do Legislativo substituiu o futebol como esporte de massa, é preciso registrar sérios avanços. Os eleitores têm mais juízo, reelegem quem opera melhor, deixam de votar nos que estão sob suspeição. Há menos demagogia. Os legislativos ganharam em seriedade, defenestraram colegas e fizeram passar leis duras, como a da responsabilidade fiscal. As leis levam mais tempo para ser aprovadas, são mais imperfeitas, mas "pegam" mais (como nos países desenvolvidos). O Judiciário acorda de um longo sono. Mas não exageremos, pois grandes temas ficam sem solução.

Cientistas políticos julgam que a corrupção amainou. O que cresceu foi uma furiosa indignação. Há menos tolerância e vicejou uma imprensa agressiva e competente – mas que nem sempre separa o joio do trigo. Praticamente todos os indicadores sociais sobem, de forma muito acentuada. Mas, como ocorre nesses casos, a impaciência acelera mais rápido ainda. A educação encontrou seu caminho e começa a trilhá-lo, mas a marcha é longa, pois o atraso é centenário. O desafio é não parar. A saúde ainda busca caminhos, pois falta compreensão acerca dos reais problemas, e sobrevive uma ideologia que acredita em soluções inviáveis.

Na área do meio ambiente, os ganhos foram enormes. Ar, água, barulho, florestas, bichos, quase tudo está pelo menos um pouquinho melhor. As leis têm sido mais eficazes, e existem menos equívocos. Há muito mais consciência, e a juventude é bem mais "verde". Mas persistem problemas horríveis, sobretudo na longínqua Amazônia.

Claro, nem tudo melhorou. Alguns focos do Brasil velho continuam. Os ricos permanecem ostensivos na mostra de sua riqueza. A desigualdade, tanto a visível quanto a mensurada, mantém-se em níveis obscenos. Há incapacidade da sociedade para empreender ações coletivas nessa direção.

Diante desse contencioso, sobretudo nas grandes cidades, a incivilidade e a criminalidade ou pioraram ou continuam tão ruins quanto antes. A sociedade não encontrou uma saída para a metástase dessa patologia subterrânea. Vigiar é caro e ineficiente. E, sejamos francos, pôr a culpa no governo é bem mais fácil que agir coletivamente para encontrar uma saída.

Balanço final? Se roubarem meu carro, fluidos peçonhentos contaminarão meu otimismo. Mas, como isso não aconteceu, consigo ver espantoso avanço quando penso no Brasil da minha saída e no da minha volta.

 

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)

 

 
 
   
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