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Triunfo póstumo

Roteiro deixado por Kurosawa
rende um filme belíssimo

Isabela Boscov


Christophel L.
O samurai (à dir.): simplicidade


Quando o cineasta japonês Akira Kurosawa morreu, em 1998, deixou um projeto por realizar: um roteiro sobre um samurai que, apesar de sua perícia no manejo da espada, não consegue encontrar um senhor a quem servir. O motivo de sua dificuldade é que ele é amigável e humilde, qualidades não muito apreciadas em seu, por assim dizer, ramo de atividade. Os colaboradores habituais do diretor não se conformaram em deixar essa história no papel. Reuniram-se sob a liderança de Takashi Koizumi (assistente de Kurosawa por quase três décadas) e rodaram Depois da Chuva (Ame Agaru, Japão/França, 1999), que entrará em cartaz nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio. Em tom de fábula, a fita acompanha as vicissitudes do samurai Ihei Misawa e sua mulher, obrigados a interromper sua busca por emprego por causa de uma chuva prolongada. Isolados numa pensão, eles se preocupam com a hostilidade reinante entre os hóspedes. Ihei, então, decide lutar por dinheiro – uma desonra – para bancar uma festa e dissipar o antagonismo. O problema é que isso pode colocá-lo em maus lençóis com o senhor feudal da região, que simpatizou com ele e deseja contratá-lo. A simplicidade da encenação sublinha a beleza arrebatadora da história, da natureza (da qual o samurai pode ser considerado um elemento) e do personagem, interpretado de forma soberba por Akira Terao. Ao final, é impossível não ter a sensação de que o mundo pode, sim, ser um lugar feliz. Era isso que Kurosawa desejava transmitir.

 

   
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