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É possível deixar
de ser gay?

Psiquiatra americano
diz que
sim, com muito
esforço pessoal

Gabriela Carelli

Com palestras previsíveis, o encontro anual da Associação Americana de Psiquiatria é um acontecimento que raramente desperta a atenção da imprensa. Na semana passada, contrariando a tradição, uma pesquisa apresentada pelo psiquiatra Robert Spitzer, da Universidade Columbia, eletrizou o congresso com uma afirmação de grande repercussão: que os homossexuais podem tornar-se heterossexuais, se tiverem "disposição para isso". Para sustentar essa tese, ele mostrou o resultado de um estudo realizado com 200 gays que tinham procurado ajuda para mudar de orientação sexual. Pelos dados de Spitzer, 66% dos homens e 44% das mulheres conseguiram de fato. Seus colegas ficaram estarrecidos, pois desde os anos 70 a psiquiatria americana aceitou como dogma a tese de que terapias para mudar a orientação sexual carecem de bases científicas. Isso porque não se chegou ainda a uma certeza sobre a origem da homossexualidade. A maioria dos cientistas até acredita que a biologia possa ter papel determinante, o que dificultaria ainda mais os esforços de quem quer deixar de ser gay.

O assunto é tão pantanoso que no mesmo congresso dois psiquiatras de Nova York apresentaram outro estudo tentando provar exatamente o contrário. Neste, realizado com 202 homossexuais submetidos a terapia para mudar a orientação sexual, 178 fracassaram totalmente e apenas seis conseguiram o que eles chalogia possa ter papel determinante, o que dificultaria ainda mais os esforços de quem quer deixar de ser gay.

O assunto é tão pantanoso que no mesmo congresso dois psiquiatras de Nova York apresentaram outro estudo tentando provar exatamente o contrário. Neste, realizado com 202 homossexuais submetidos a terapia para mudar a orientação sexual, 178 fracassaram totalmente e apenas seis conseguiram o que eles chamaram de "mudança heterossexual". Essa pesquisa evidentemente não causou frisson, pois era o que todo mundo esperava ouvir. Toda adrenalina ficou por conta da afirmação de que é possível deixar de ser gay. Spitzer é um cientista acima de qualquer suspeita de animosidade anti-gay. Professor de uma das mais importantes universidades do país, ele presidiu a comissão que tirou o homossexualismo da lista de doenças mentais da Associação Americana de Psiquiatria, em 1973. A decisão foi seguida por psiquiatras de todo o mundo e ajudou a mudar o comportamento dos homossexuais. Com o aval científico de que não sofriam de uma patologia médica, eles puderam reivindicar sua aceitação pela sociedade na condição de gays. Não é à toa que agora ficaram furiosos com Spitzer. "Esse homem está voltando no tempo e colocando mais uma vez os gays numa posição de inferioridade", disse a VEJA David Elliot, porta-voz da Força-Tarefa Nacional de Gays e Lésbicas dos Estados Unidos.


AP
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Spitzer decidiu fazer o estudo depois de ter conversado com ex-gays, o que o levou a suspeitar que "é possível que esteja errada a idéia de que a orientação sexual pode ser combatida, mas não mudada". Seu trabalho foi feito por meio de conversas telefônicas e somente com gays convertidos por grupos religiosos – ou seja, ainda não é a palavra final no assunto. Por mais de um século, terapeutas tentaram mudar o comportamento de gays. Os métodos incluíam drogas, eletrochoques e até mesmo transplante de testículos. Os famosos sexólogos Masters e Johnson produziram uma espécie de manual que ensinava os gays a conversar e flertar com mulheres. Isso tudo foi praticamente abandonado nos anos 70. Há quatro anos, também a Associação Americana de Psicologia decidiu que as terapias reparativas são ineficazes do ponto de vista científico e potencialmente perigosas. Essa diretriz qualifica qualquer tentativa de converter homossexuais como inútil. Vários cientistas já tentaram, sem provas conclusivas, demonstrar a origem genética do homossexualismo. A maioria acredita que o comportamento humano é muito mais complicado que um simples destino genético. Sob esse ponto de vista, é possível que o homossexualismo seja o resultado de alguma combinação de genes e fatores ambientais, provavelmente diferentes para cada indivíduo.

Será o bastante para alterar o objeto da atração sexual mudar apenas o fator ambiental? Muitos grupos religiosos consideram o homossexualismo um pecado e pregam a conversão como forma de salvação. O primeiro a lançar a idéia foi Frank Worthen, um ex-gay americano. Em 1976, depois de ter encontrado na Bíblia a solução para seu homossexualismo, ele fundou a Exodus, uma instituição multinacional com 135 filiais em todo o mundo para converter os gays. A Exodus declara ter convertido 300.000 pessoas, com índice de sucesso (isto é, sem recaídas) de 30%, com aconselhamento teológico e instrumentos de auto-ajuda baseados em grupos como os Alcoólicos Anônimos. O problema é que, com freqüência, vários líderes da entidade se enquadram nos outros 70%. O mais famoso é John Paulk, que se tornou uma espécie de garoto-propaganda da causa. Homossexual e travesti desde a adolescência, ele há três anos abandonou aquilo que a Exodus chama de "estilo de vida gay" para se transformar num pai de família, casando-se com uma ex-lésbica. No ano passado, Paulk, então presidente da entidade nos Estados Unidos, foi flagrado num bar gay de Washington, acompanhado de outro homem. Pediu desculpas, mas acabou defenestrado da presidência da Exodus.

Casos como o de Paulk colocam em dúvida se é realmente possível deixar de ser gay. O caminho está atulhado de tentativas fracassadas e não há consenso sobre a eficácia de alguma forma de terapia. "São verdadeiras lavagens cerebrais que induzem as pessoas a negar sua sexualidade", diz a psicóloga paulista Ana Bock, presidente do Conselho Federal de Psicologia. "O que se explora é o sofrimento causado pela discriminação, e nem sempre as pessoas querem deixar de ser homossexuais, apenas querem se livrar do preconceito." Nesse assunto movediço, é possível também encontrar quem tenha passado pela experiência e não se arrependa. João Luiz Santolin, coordenador do Movimento pela Sexualidade Sadia (Moses), uma entidade brasileira criada nos moldes da Exodus, converteu-se aos 18 anos e vive há dezessete "limpo". "Não penso mais naquilo, sou uma pessoa normal. Afinal, quando era criança, eu gostava de pipa e futebol como qualquer outro homem", diz ele. "Ninguém nasce homossexual e qualquer um pode largar esse vício." A coordenadora da Exodus brasileira, Rosângela Alves Justino, pensa da mesma forma. "Trata-se de um pecado, como a prostituição e o adultério", prega.

 

   
 
   
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