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Broadway à
moda paulista

O sucesso de Les Misérables
faz o centro de São Paulo
reviver seus bons tempos

 

Divulgação

O musical, em um de seus momentos mais grandiosos: uma equipe de 150 pessoas

Até os anos 60, a região central de São Paulo foi palco de grande efervescência cultural. Seus cinemas eram freqüentados pela classe média e os teatros viviam lotados. Num deles, o imponente Paramount, ocorreu a montagem pioneira de um musical americano na cidade – My Fair Lady, estrelado por Paulo Autran e Bibi Ferreira, em 1963. Foi um acontecimento. No local também se desenrolavam os célebres festivais de MPB da Record. Ao longo das décadas seguintes, o centro paulistano passou por um vertiginoso processo de decadência. A segurança acabou, as pichações tomaram conta das paredes e os cinemas e teatros viraram "inferninhos" ou fecharam suas portas. Mas nem tudo é desolação. Pouco a pouco surgem iniciativas que visam revitalizar a região. Há três semanas, o velho Paramount, que estava fechado fazia anos, renasceu como o Teatro Abril – uma casa de espetáculos moderna, mas que respeita o aspecto original do prédio construído nos anos 20 e tombado pelo Patrimônio Histórico. Com capacidade para 1.558 espectadores, é uma parceria entre a CIE Brasil, subsidiária do grupo mexicano Corporación Interamericana de Entretenimiento, e o Grupo Abril, que publica VEJA. Em cartaz no teatro, a maior produção já trazida ao país: Les Misérables.

Mario Rodrigues
Heudes Regis
A fachada do Teatro Abril, que ocupa um prédio histórico restaurado, e o público de Les Misérables: cerca de 18 000 espectadores em duas semanas

O musical, que é baseado no romance épico escrito pelo francês Victor Hugo no século XIX, vem sendo apresentado na Broadway de Nova York há catorze anos. Ganhou oito prêmios Tony – o Oscar do teatro americano – e montagens em dezenove línguas. Foi visto por 45 milhões de pessoas ao redor do mundo. Em São Paulo, onde estreou no final de abril, o número de espectadores já chega a 18.000. É um fenômeno que atrai, inclusive, caravanas de outras cidades. "Uma amiga minha viu em Nova York e adorou. Eu não podia perder essa oportunidade", diz a dona-de-casa Mary Trevisi, da cidade de Lins, no interior de São Paulo, que aguardava o início da sessão na quinta-feira passada. O sucesso é tamanho que o produtor Billy Bond prevê que Les Misérables terá fôlego para permanecer dois anos em cartaz em São Paulo.

Fotos Ed Viggiani
Fotos Ed Viggiani
Alessandra Maestrini, a Fantine
Para preservar sua voz quando está em temporada, Alessandra leva um cotidiano silencioso. "Não atendo nem telefone." Uma de suas paixões é a filosofia. Está até escrevendo um livro. O título é Síntese: a Falta que Faz o Gênio Consciente

O esplendor da montagem brasileira de Les Misérables só é possível graças às excelentes condições técnicas do Teatro Abril. O vão livre sobre o palco (de onde se pode suspender os cenários gigantescos) tem 28 metros de altura, o equivalente a um prédio de dez andares. O palco possui estrutura giratória e a acústica é impecável. "O teatro em si é um show à parte", elogia o executivo Douglas Simon, que assistiu ao musical na quarta-feira passada. A produção impecável e o belo teatro, no entanto, não seriam suficientes para explicar o entusiasmo que Les Misérables está causando. O musical permitiu que se revelasse ao grande público a existência no país de dezenas de atores capazes de interpretar, cantar e dançar. Tudo ao mesmo tempo.

No segundo semestre do ano passado, o anúncio de que começariam os testes para Les Misérables provocou uma verdadeira corrida. No total, 2.000 atores passaram pelas audições, dos quais 37 foram selecionados para o elenco. A qualidade da maioria dos candidatos surpreendeu. "Estou vendo surgir uma nova geração que, desinteressada da televisão ou desse teatro alternativo cheio de cacoetes, busca uma formação sólida", constata o roteirista Claudio Botelho, que verteu Les Misérables para o português. "Vários deles poderiam encenar musicais na Broadway."

 
Sara Sarres, a Cosette
A intérprete da meiga Cosette mantém sua forma com a prática do rapel, esporte em que a pessoa sobe e desce paredões pendurada a uma corda. "Solto os bichos e me recupero", diz

Bons exemplos desses profissionais completos são as estrelas femininas do espetáculo, Sara Sarres, Ester Elias e Alessandra Maestrini. Todas têm formação e currículo diversificados. Desde a adolescência, trafegaram por áreas como o teatro, o canto lírico, a dança e mesmo a mímica. É esse preparo técnico que possibilita a Ester, de 29 anos, subir e descer de uma barricada enquanto canta como um rouxinol. Além de interpretar a corajosa Eponine, ela se desdobra em outros cinco papéis secundários. Sara, de 20 anos, desde os 6 se dedica à música. Estudou piano, percussão erudita e canto lírico. Antes de encarar os solos dramáticos da personagem Cosette, em Les Misérables, já havia trabalhado em produções eruditas, como uma montagem da ópera A Flauta Mágica, de Mozart. Alessandra Maestrini, que desempenha com brilho um dos papéis mais fortes da trama – a prostituta Fantine –, fez cursos com os melhores professores do Rio de Janeiro. Já foi uma das protagonistas do musical As Malvadas, ganhador do prêmio Sharp em 1997, encarnou a compositora Chiquinha Gonzaga em Ô Abre Alas e uma lésbica em Rent. Aos 23 anos, pode ser considerada uma veterana nesse gênero que ainda engatinha abaixo do Equador.

 

Ester Elias, a Eponine
Ester interpreta seis papéis no musical. Batista, ela encontra paz interior lendo a Bíblia. A atriz adora a natureza. "Se pudesse, não sairia do meio do mato." Quando está em Brasília, onde mora, Ester costuma freqüentar a região de Alto Paraíso, refúgio do pessoal natureba

Sara, Ester e Alessandra se destacam em Les Misérables com suas vozes delicadas e representações apaixonantes, mas o elenco inteiro impressiona pela sua competência. Isso prova que o que faltava mesmo era uma chance para os atores mostrarem seus dotes. Se os musicais grandiosos estão longe de ser uma tradição no país, o êxito de Les Misérables é um indício de que essa vertente do show biz pode ganhar fôlego por aqui. Até porque a montagem de um espetáculo assim possibilita a absorção de conhecimento. Uma equipe chefiada pelo diretor Ken Caswell veio da Inglaterra com o objetivo específico de orientar os brasileiros nos mínimos detalhes. "Em vez de insistir no virtuosismo e nas firulas vocais, Caswell nos fez ver que, antes de tudo, o público tem de entender o que estamos cantando", exemplifica o ator Marcos Tumura, que interpreta o protagonista Jean Valjean. Um aumento na demanda por musicais, acreditam os especialistas, também fará com que os cursos de arte dramática se tornem mais consistentes e abrangentes. Les Misérables, enfim, tem tudo para desencadear uma revolução de verdade. A Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo já tem um plano para incentivar a transformação de velhos cinemas da capital em casas de espetáculo do porte do Teatro Abril. Será a Broadway à moda paulista.

 
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