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Pela porta da frente
Empresas americanas
procuram
no Brasil trabalhadores altamente qualificados
Eduardo Salgado
Fotos arquivo pessoal

O paulista
Décio, em Houston, Texas: horas extras |
Obter visto
de turista para os Estados Unidos é uma tarefa aborrecida, que
envolve filas, despesas e, muitas vezes, o vexame de ser rejeitado sem
explicações nem direito a apelação. A política
antipática é parte da estratégia do governo americano
para evitar que alguém fique por lá clandestinamente, trabalhando
por alguns dólares. O tratamento é bem diferente para um
seleto grupo de brasileiros. São os chamados trabalhadores altamente
qualificados, profissionais que empresas americanas caçam por todo
o mundo. Eles recebem um visto específico, conhecido pela sigla
H-1B, são recebidos com tapete vermelho pelo serviço de
imigração e ganham salários que podem chegar a 130.000
dólares por ano. Há mais de 300.000
estrangeiros trabalhando nessas condições nos Estados Unidos.
O maior contingente é de indianos, concentrados na área
de computação. O Brasil aparece na 14ª colocação
entre os países que mais receberam vistos H-1B de outubro de 1999
a fevereiro de 2000, o último balanço disponível
foram 861 vistos. O número tem aumentado de lá para
cá. Só o consulado em São Paulo concedeu 1.047
dessas autorizações de trabalho em 2000.
A diferença
entre a imigração desejada e a indesejada é simples.
Estrangeiros para exercer trabalhos braçais nos Estados Unidos
existem aos borbotões. Profissionais bem preparados para ocupar
postos em setores de ponta da economia são bem mais difíceis
de encontrar. Na última década, enquanto a economia americana
crescia a passos largos, cerca de 300.000 vagas
deixaram de ser preenchidas por falta de gente qualificada só no
setor de computação. Muitas companhias preferem estrangeiros
aos compatriotas. A experiência mostra que os trabalhadores importados
costumam agarrar a oportunidade com as duas mãos e estão
dispostos a dar sangue para progredir no país. "Nossa vantagem
é a disposição para horas extras, coisa que os americanos
não fazem", diz Décio Shimura, um paulista de 30 anos, gerente
de programas de software para a América Latina da Compaq, em Houston,
no Texas. Nos Estados Unidos há menos de quatro anos, ele vive
em uma casa confortável na área mais nobre da cidade.

Paulo,
na Califórnia: qualidade da formação no Brasil
faz a diferença |
Os setores
de computação, finanças e administração
são os que mais contratam brasileiros. Algumas empresas recrutam
estudantes de pós-graduação que estão nos
Estados Unidos. Outras transferem funcionários de suas subsidiárias
no Brasil. E, por fim, há aquelas que vêm ao país
só para oferecer empregos. A analista de sistemas Júlia
Nakano, 31 anos, foi contratada assim para trabalhar numa empresa de informática
de Chicago, em 1998. O que chamou a atenção do empregador
foi a solidez de sua formação acadêmica e profissional.
Especialista em inteligência artificial pela Universidade Hokkaido,
no Japão, ela trabalhou quatro anos com alta tecnologia no Brasil.
Ganhava aqui o equivalente a 3.500 dólares
por mês. Hoje recebe o dobro. Depois da falência da pequena
indústria familiar no Rio, o engenheiro de telecomunicações
Paulo Guimarães, 40 anos, vendeu o que tinha, até o carro,
e foi fazer um curso de extensão nos Estados Unidos. Entrou como
estagiário numa corretora de valores em San Francisco, em 1999,
e em um ano foi promovido a gerente. Ganha 90.000
dólares por ano e faz questão de não economizar nas
horas de lazer. "Sinto a maior alegria em gastar 150 dólares em
um jantar", diz.
A carreira
desses profissionais comprova a qualidade dos cursos de graduação
das melhores universidades no Brasil, mas não é só
isso. O dom de criar um bom clima no trabalho, a perseverança e
a garra também fazem diferença. Algumas características
bem-vindas são conseqüência da loucura que imperava
na economia brasileira. "Tínhamos surpresas quase diárias",
diz Paulo Guimarães. "Com isso, peguei um pique para reagir a situações
inusitadas e aprender com rapidez, o que me ajudou aqui." Engana-se quem
acha que a vida dos trabalhadores estrangeiros é doce como um milk-shake.
O choque cultural pode ser de alta voltagem. Alfredo das Neves Neto, de
31 anos, casado e com um filho, chegou à Flórida há
quatro anos para chefiar o escritório de uma empresa de informática.
Atitudes corriqueiras no Brasil passaram a ser perigosíssimas.
Acostumado a beijar as funcionárias em São Paulo, Alfredo
teve de se controlar. "Imagine, se faço isso, levo um processo
num piscar de olhos", diz. Quem trabalha nas áreas financeira,
médica e na indústria tradicional está tranqüilo.
Já os da computação não têm dormido
direito. A crise das indústrias da nova economia pode afetar os
brasileiros, mas são os indianos, hegemônicos no Vale do
Silício, o coração high tech na Califórnia,
que estão em pânico diante da perspectiva de perder o trabalho.
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